Olá, amiga! Conte algo bom! (Pergunta de um amigo ao encontrar-me no calçadão da praia).
Sempre observo tudo ao redor.
Dias atrás, o chão estava coberto de florezinhas amarelas. Grandes ipês floridos já começavam a perder algumas flores. Estava tão lindo aquele tapete amarelo, que me sentei num banquinho à beira do lago, num lindo condomínio em São Paulo, e fiquei longo tempo a admirar a natureza em volta.
Pessoas passavam, olhos fixos nos seus celulares, com um lindo cachorrinho ao lado e nem olhavam as flores. Se olhavam, não viam, dada a distração que demonstravam. Perdiam aquela beleza.
Sentada, pensei sobre a beleza da natureza e nossa busca por ela relembrando leituras recentes.
O primeiro foi a citação de Frei Betto, no livro “Fome de pão e Beleza”: “Mas não é só de pão que temos fome, como diz o poeta cubano Roberto Retamar, a fome de pão é saciável, é fruto da justiça; voraz e insaciável é a fome de beleza – essa compulsiva atração que sentimos pela transcendência”.
Mesmo essa fome sendo insaciável, muitas vezes fechamos nossos olhos ou nossa mente e nada vemos.
Como esse meu amigo que estava sentado à beira-mar e me fez a pergunta citada no início do texto. A minha resposta foi: Olhe esse sol, esse mar, as ondas indo e vindo, que maravilha! Ele concordou, mas emendou: E essa linda árvore de Natal. Não percebeu que eu falava de natureza, não de algo feito pela mão dos homens.
O conto “De repente abriu-se a janela” do livro “O rosto sem face”, do meu amigo, escritor e juiz-poeta Fernando Armando Ribeiro, fala de um fotógrafo que, malgrado todo esforço, gasto com curso, material, estudos, não conseguia encontrar o foco certo para suas fotos.
Um dia, estendido numa grama, perto de um canteiro de gérberas, quem sabe debaixo de um ipê, e com o chão coberto de florezinhas amarelas, tentava tirar uma foto para o filho. Por mais que o fotógrafo buscava, não conseguia a imagem que o menino desejava. Até que a criança disse: Pai, você não notou que essas plantinhas têm uma janelinha igual à dos meus dentes? O pai abriu o olhar, viu a janelinha da flor, e conseguiu tirar uma bela foto; a que o filho desejava.
A cada dia, observo a falta do olhar das pessoas que passam por mim na rua, na calçada, nos espaços públicos em geral. Hoje eu estava sentada na entrada da academia de ginástica e pessoas passavam e nem me viam.
Não sou só eu a observar esse olhar parvo. Aqui no Espírito Santo, em novembro deste ano, numa intervenção artística, Rodrigo Stingnel começou a espalhar 200 camaleões pela cidade de Vitória. Podem ser levadas por quem as encontrar.
Disse: “Os camaleões são, além de um teste, uma intervenção urbana que vou colocando pela cidade e fazendo com que as pessoas olhem para lugares que geralmente não olhamos no dia a dia”.
Mas, para ver, é preciso abrir a janela!
Maria Francisca – janeiro de 2026.
A primavera chegou com a corda toda.
Ventos fortes, muita chuva, frio…
Mas as plantas estão amando e minhas buganvílias, então… Todas floridas. Flores brancas, rosas, vermelhas…Não me canso de ir lá e sorrir para elas.
Se elas sorriem para mim? Você deve estar perguntando.
Nem precisam. Quer sorriso melhor do que essas lindas flores?
Bem, sem me lembrar do frio, mas vendo a chuva fininha caindo, saí de casa sem agasalho.
O vento pegou pesado. A sombrinha cutuca marido não sabia se ia para um lado, ou para o outro, se dobrava, ou se me carregava. Não conseguia dobrar, porque é do tipo “cutuca-marido”. Então, saia me puxando.
Todas as pessoas que eu via pela rua, estavam na mesma situação. Aflitas com a sombrinha que, em vez de ajudar, atrapalhava, porque, para segurá-la, às vezes, a pessoa acabava se molhando toda.
Num dado momento, comecei a imaginar coisas. Vi-me sendo levada ao ar pela sombrinha, voando um palmo acima do chão, depois, um pouco mais, as pessoas olhando, olhando, e eu subindo, até passar por sobre prédios, assustando moradores que estavam à janela.
Senti-me como aqueles parapentistas que passam voando e eu fico sempre a olhar.
De repente, estava rindo como doida, pela rua, e, coincidência, encontrei algumas amigas, e elas começaram a rir, talvez pela minha cara, e, também, pela luta com a sombrinha.
Eu aproveitei e disse, rindo, Cuidado! Daqui a pouco vocês estarão todas voando. Ainda bem que têm um paraquedas…
Elas riram, foram-se, e eu voltei para casa imaginando a cena, que já vi em diversos desenhos e figurinhas, do Pequeno Príncipe voando de volta para seu Planeta.
Cheguei, corri para a varanda, para rever as minhas flores.
Maria Francisca – setembro de 2025.
No tempo glamuroso das misses, anos 70, as candidatas eram submetidas a diversas perguntas pelos jurados, e, e quando questionadas sobre leitura ou livros sempre citavam “O Pequeno Príncipe”. Se o leram, não sei.
Apesar de assistir sempre às transmissões desses eventos pela tv, torcendo pelas nossas candidatas, eu tinha muita implicância com os concursos de beleza. Aquele olhar lançado em cada corpo, medido do início ao fim, como se fosse uma mercadoria à venda, me incomodava muito.
Hoje, não fazem tanto sucesso como outrora, mas as moças e os moços são medidos para a carreira de modelo. Não mudou muito. Mas cada um sabe de si.
Voltando ao Pequeno Príncipe, eu sempre gostei de Saint-Exupéry. Tenho diversos livros dele, mas “O Pequeno Príncipe” foi o que me encantou, em face das belas e singelas lições de vida.
Já citei algumas vezes os diálogos da raposa com o príncipe. Hoje, quero lembrar um deles:
“Começo a compreender – disse o Pequeno Príncipe. Existe uma flor… eu creio que ela me cativou…
É possível – disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra…Oh! não foi na Terra – disse o principezinho. A raposa pareceu intrigada: Num outro planeta? Sim.
Há caçadores nesse outro planeta? Não. Que bom!
E galinhas? Também não
Nada é perfeito – suspirou a raposa.”
Este “Nada é perfeito”, desde sempre, é lembrado por mim.
Hoje pensava nisso, por ocorrências prosaicas.
Depois que entreguei a espada, a couraça e troquei a caneta, como já disse em poemas, ou seja, sem a carga do cargo, aproveitei a minha própria singeleza e passei a usar sandálias baixas, ditas confortáveis. Gosto muito, e não pretendo deixar esse costume. Vou aonde desejo, caminho pelas ruas, vou a supermercado, sempre com minhas lindas sandalinhas.
Depois, comprei umas meias, que encontrei na internet, bonitas, bem finas e confortáveis. Para uso com botas e tênis, nada melhor. Pena que são muito frágeis e rasgam com facilidade. Começaram a aparecer buraquinhos nos pés. Mas achei normal, por serem muito finas.
Feliz com minhas meias e minha sandália, observei que meu calcanhar começou a doer. Vi que estava muito seco e rachando. E, para completar, descobri um calo no dedo mindinho do pé esquerdo. Motivo? Fui tentar descobrir.
Conclusão: As meias finas não estavam protegendo meu calcanhar… Ajudadas pela sandália baixa, “brindaram-me” com um calo duro no pé. Em suma, eram culpadas pelo calo e pelo calcanhar dolorido.
Providências urgentes: Creme hidratante nos pés e removedor de calos, para atenuar os estragos.
Por isso, hoje, na hora da caminhada, tive que abandonar as minhas lindas meias, e usar outras mais grossas, para proteger meu pé. E, quanto à sandália, o jeito é procurar uma substituta menos “agressiva”, não sem antes reclamar:
Nada é perfeito!
Maria Francisca – julho de 2025.
Hoje, tempo chuvoso, e sem possibilidade de estacionamento em Vila Velha, saí de carro para levar meu marido ao dentista, por volta de 8h.
O trânsito estava caótico. A fila da entrada da Terceira Ponte era tão grande que dava desânimo ficar ali aguardando, torcendo para andar, ainda que fosse um metro à frente. E carros, impacientes, atravessavam, aqueles que se sentem mais espertos, mas são mais mal-educados, e as motos andando ora de um lado, ora de outro. Toda atenção é pouca para não esbarrar naqueles veículos.
Na volta, a Avenida Champagnat entupida. Também indo em direção à Ponte. Gastei mais tempo de carro do que gastaria caminhando, avaliei.
Enquanto ali naquela fila interminável de carros, fiquei pensando como andam nossas ruas, nosso trânsito, e numa cidade do interior, como Vila Velha. Imagine São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte.
Um dia, um colega de Brasília disseram-me que lá há mais carros do que moradores. Eu ri, mas do jeito que as coisas andam, parece que está ocorrendo isso mesmo.
A questão é nosso transporte coletivo que está cada vez pior. Isso dificulta a vida de todos, mais e, principalmente, dos usuários desse tipo de transporte. Não têm alternativa.
Eu, no carro, sem paciência. Os trabalhadores, nos ônibus lotados, parados nas filas, o tempo correndo, e eles perdendo a hora de chegar ao trabalho.
Na imaginação, vejo o empregado chegando atrasado e o patrão, dizendo: Se o ônibus está sempre atrasado, saia de casa mais cedo. Não sou dono do transporte., nem responsável por seu atraso. Quando veio trabalhar aqui, sabia das regras.
Pensando nisso, até espero com mais paciência. Não tenho que chegar ao trabalho, não tenho urgência de chegar em casa, todos com saúde. Por que essa pressa?
E fico ali meditando…
O empregador tem razão, principalmente o pequeno, porque paga vale transporte, e precisa do empregado no horário de abertura do seu negócio. Digo o pequeno, porque os grandes fornecem a condução e se responsabilizam pelos atrasos, claro. E o empregado, sem alternativa, tem que usar o ônibus, mesmo com esse trânsito danado.
Por isso, alguns empregadores escolhem seus empregados pelo local de moradia, pela facilidade de locomoção, mas nem sempre conseguem isso.
Chego em casa, saio para a varanda, olho para a Avenida, e vejo a rua mais calma. Muito carro, ainda, mas sem aquele tumulto de passa aqui, entra ali, cada um correndo e se virando como consegue para chegar no horário ao compromisso do dia.
E os empregados, nos ônibus, torcendo para o trânsito andar, já antevendo a bronca do chefe se chegarem atrasados.
Maria Francisca – julho de 2015
Hoje, reli uma crônica muito interessante de Julian Fuks, ECOA, de 16.11.2024 ( Uma palavra sobre as indelicadezas que vamos cometendo pela vida). Ele cita uma tristeza de Cecília Meirelles, por ter cometido uma indelicadeza com a “Velhinha de Florença”, também contada numa linda crônica.
Incrível é que lendo José Saramago em “O Homem Duplicado”, encontro um diálogo em que dois colegas, ambos professores, conversam. O professor de história a pedir desculpas, por ter ficado de cara feira para o de Matemática, simplesmente por ele ter colocado a mão em seu ombro. Sentiu que o colega estava sendo paternalista. Aborreceu-se pensando que o colega estava a dizer que ele precisava de proteção. Ou seja, um gesto singelo e educado foi sentido como ofensa.
Por isso, Diz Fuks: “Lapsos, esquecimentos, faltas, deslizes, cada um sabe de que são feitos os seus sofrimentos. Haverá palavra que redima essas pequenas falhas que vamos cometendo pela vida, distraidamente, sem dolo nem injúria nem indiferença? Não serei o único a caminhar por aí carregando comigo um pedido de perdão impreciso, de termos vagos, sem motivo nem destinatário definido. Talvez sejamos muitos os que perambulamos pelas ruas com um inconfesso espírito de confissão, sem saber bem de qual delito”.
Tudo vai depender do momento, da sensibilidade do interlocutor e, muitas vezes, ficamos sem saber o que dizer, diante de atos ou falhas que cometemos sem querer e, às vezes, nem sabemos que ofendeu o amigo ou conhecido.
Quem me dera se eu pudesse pedir desculpas a todas as pessoas pelas minhas indelicadezas. A vida vai nos levando… e sem perceber, estamos falando uma palavra inadequada para alguém. Falando de um defeito, que pode ser defeito só para nós…
Até um abraço que a pessoa esperava receber de nós e não recebeu pode ser sentido como uma ofensa, ou ter causado tristeza, como me disse uma moça, certo dia, num evento. Eu adoro dar e receber abraços, eu disse. Ela replicou: Por isso minha tristeza. Só eu fiquei sem um abraço, naquele dia. Vamos nos abraçar, então, e dei-lhe um abraço. Pedi desculpas, claro, mas o abraço que ela queria naquela época, não ganhou.
Fiquei com o enigma: Que dia foi esse que neguei um abraço a essa moça? Um abraço, apenas um abraço. Difícil, não?
Mas uma indelicadeza que não tenho como reparar, observei recentemente, quando fui dar sugestões a uma amiga sobre os agradecimentos que ela registraria num livro, resultado de uma pesquisa. Nos agradecimentos do meu livro de mestrado deixei de registrar os títulos de Professor-Doutor de um grande amigo que muito me ajudara. Como era amigo, falei apenas o nome dele. Puxa! Só porque era meu amigo? Acho que a intimidade fez isso e me arrependo tardiamente. Peço desculpas agora? Surtiria efeito?
Então, sou mais uma alma penada, a andar por aí com um pedido de perdão vago, impreciso, sem destinatário definido, como disse Julian Fuks.
Maria Francisca – fevereiro de 2025.
Agora, como na música de Vanessa da Mata, acabei de tomar um “Banho de chuva, ai, ai, ai, ai, aaaai”.
Acho que todos da minha geração adoravam um banho de chuva. E, de preferência, poder escorregar num morrinho de lama, brincando. As mães: meninas, vocês vão adoecer! Que nada, criança nem liga pra isso. E eu, então, não adoecia nunca.
Mas, hoje, revivi a minha saga infantil.
Choveu bastante pela manhã, mas cessou. Saí para caminhar e vi que o tempo estava se fechando de novo, mas à força da teimosia, segui. Começou uma chuva fininha, foi engrossando, engrossando, e só se viam pessoas correndo, escondendo-se debaixo das barracas, das árvores, e nos módulos da polícia.
Pensei logo na advertência: vou ficar gripada! Que é isso? Gripe é vírus, não desce pelas gotas de chuva…
Teimosa, portanto, e pensando que sou sal grosso, não derreto totalmente, nem liguei para a chuva. Cada vez mais chuva, tanto na ida como na volta.
Fazia muito tempo que não tomava uma chuva tão gostosa. Mas quase derreti…
Quando jovem, praticava corrida de madrugada e não tinha tempo ruim que me segurasse. Nos “Passos de Anchieta”, também, já tomei muitas águas do céu no corpo, nas caminhadas. Vestia uma capa de plástico, mas o vento, inclemente naqueles dias, rasgava tantas quantas eu vestia. Por fim, eu desistia e tomava todas as águas que caiam sobre mim. E eram frias. Águas de junho. E sempre foi muito bom quando chegava lá em Anchieta, vencendo aquele longo percurso a pé e sob intempéries. Belas lembranças.
Hoje, só fiquei com pena dos vendedores, cujas barracas ficaram molhadas, já que não deu tempo de tirar todas as mercadorias. Mal a chuva dava uma trégua, eles corriam para tirar o que sobrou e limpar as barracas.. E sem qualquer mágoa ou tristeza. Ainda brincavam: Uns com os outros: sua barraca foi lavada. Está limpinha…
A chuva cai, vai caindo, vez mais forte. Agora, nada mais escuto, além do barulho da água. Estou ensopada. Caminho, caminho…Nem presto atenção em mais nada.
Ufa! cheguei ao meu prédio. Tive que tirar o tênis antes de entrar e pedir ao faxineiro um pano para tentar enxugar os pés, pelo menos, porque a roupa do corpo pingava para todos os lados.
Em casa, senti a minha catarse. Parecia que toda sujeira de minha alma, do meu corpo e as tristezas do meu coração tinham sido lavadas.
Leve, leve…
Maria Francisca -3 de março de 2025.
Em visita a amigas de Infância, em cidade mineira, passeei, conheci familiares, netos, tomei milkshake, almocei, jantei, comi pizza e tudo o mais que bons anfitriões oferecem aos visitantes. Muito agradável estar entre amigos. Carinho e aconchego são atos que aquecem o coração.
Na véspera do retorno pra casa, fomos à missa dominical.
Na porta da igreja, passou por nós um senhor, falando coisas desconexas, contando umas histórias esquisitas, como se falasse com alguém ao telefone.
Como meus amigos seguiram, também segui. Passamos por ele, entramos na igreja, e tomamos nossos lugares.
O coral cantava lindamente: “Chama Viva da minha esperança”, hino do Jubileu, e eu fiquei ali concentrada na oração.
Daí a pouco, gritos, aflições, sai daqui , sai da frente etc. Todos olhando, ansiosos.
Estávamos bem no fundo do templo e não dava pra ver nada direito.
Pela voz de um dos gritos, notei que era o mesmo homem que encontramos na entrada. Infelizmente, parece que a solidariedade perdeu muitas de suas antigas virtudes, pois a preocupação que tiveram foi aumentar o som do coral para abafar o barulho. Percebi num gesto de uma moça para o coral.
Pois bem. O coral aumentou o som, cantou, cantou e a calma do templo pareceu preservada.
Daí a pouco, sai da igreja o homem, descalço, batendo os pés no chão, num gesto de desaforo, e carregando o tênis.
Ao chegar à saída, virou para o altar, levantou os braços, e bateu com as solas do tênis, com força.
Um símbolo forte… Foi rejeitado numa igreja, lugar de acolhimento. Seria isso?
E se fosse ele, o rejeitado, a “Chama Viva” que cantavam?
Está em Lucas, 10-11: “Mas quando vocês entrarem numa cidade e não forem bem recebidos, saiam pelas ruas e digam: Até a poeira dessa cidade, que se grudou em nossos pés, nós sacudimos contra vocês”.
Eu não conseguia desviar meu pensamento do dito de Jesus, naquele momento estressante. Não posso julgar o ato das pessoas que conversaram com o homem, pois não sei o que ele fazia, quando ouvi os gritos de alguns que estavam mais à frente, na igreja. Apenas registro o fato, conforme meus sentidos captaram.
À noite, só pensava naquele personagem, e no que poderia ter acontecido. Como diz Saramago (O Homem Duplicado): “Não faltam motivos para pensar que quanto mais intentemos repelir as nossas imaginações, mais elas se divertirão a procurar e atacar os pontos da armadura que consciente ou inconscientemente tínhamos deixado desguarnecidos”.
Mas no dia seguinte, sol claro, calor intenso, carinho dos amigos, tudo passou e o fato caiu no esquecimento.
Por isso, espero que, ao fim, o homem, certamente cansado…E as palavras que proferia, cansadas como ele, silenciaram; as que ouvira tornaram-se neutras, sem sentido, o mesmo ocorrendo com o acontecimento na igreja, já caindo no limbo do esquecimento.
Já que era assíduo lá, como disse minha amiga, voltaria ao templo, todos os domingos, sem se lembrar, tampouco, dos sapatos com a poeira. Tudo ficara para trás.
Tomara!
Maria Francisca – início de março de 2025.
Há pouco tempo recebi uma mensagem com um vídeo muito engraçado. Acho que do “Porta dos Fundos”. Uma mulher, no caixa de um supermercado, tenta pagar com dinheiro e não consegue. Ninguém conhecia dinheiro. Foi tamanha a confusão que parou na delegacia.
Ri bastante, mas vi que estávamos caminhando pra isso. Ninguém tem troco. Todos querem receber com pix. As lojas, os taxis, as diaristas…
Um lojista de Itapoã até me disse, rindo…Não sei como faremos com os ladrões. Não temos mais dinheiro na loja…
Eu disse: Agora, piorou, o senhor vai ser sequestrado para tirar todo dinheiro do Banco e entregar ao bandido.
Verdade. Está tudo assim. Dinheiro vivo não há.
Hoje, um grande exemplo: Até 2022 eu viajei muito de trem, indo visitar minha mãe em MG.
Então, eu guardava moedas para comprar comidinhas no trem. O atendente, quando via as moedas, tomava-as e contava-as. Rindo, como se dissesse, sou esperto, e dava-me o dinheiro em notas maiores.
Hoje, de novo no trem, uma bolsinha cheia de moedas, apresentei-a ao atendente. O que ele fez? Olhou-a com ar de desprezo, pegou a maquinha, e disse, secamente: débito ou crédito?
O que fazer? Peguei o cartão e mostrei para a maquininha maldita, antes que se armasse um barraco, e eu fosse, como a moça do vídeo, parar na delegacia.
Muito interessante foi que um senhor que estava numa cadeira do outro lado, viu minhas moedas, e depois veio falar comigo. Queria as moedas para os netinhos…Levou-as, contou-as e trouxe as notas para mim, com agradecimentos…
Dirá: Um idoso, não? Sim, um idoso conhece moedas…
Voltei à leitura de Saramago (O Homem Duplicado) e deixei a história pra lá.
Mas, daí a pouco, ainda no trem, vislumbro, mentalmente, a confusão que poderia causar: Moeda? O que é isso? A senhora. não pode pagar? Não quer pagar? Chamem o chefe do trem…Policia! Parem o trem! Há uma farsante aqui… O senhor idoso tenta me ajudar, mas é afastado pelo chefe da máquina.
Um amigo, quando reclamo de algo, diz, enfático: Mundo Novo, Francisca.
Mundo novo?
Pois sim. Mundo doido!
Maria Francisca – fevereiro de 2025.
Conversando com uma amiga sobre as brincadeiras da nossa infância, lembramo-nos de muita coisa daquela época que nos deixava intrigadas, mas ninguém sabia explicar o que era. Mistério para nós que ficou esquecido num canto da memória.
Adulta, fui encontrando, por acaso, as respostas.
Brincávamos de roda e cantávamos: Fui no Tororó, beber água e não achei (…). O que seria Tororó? Quando fui morar na Bahia foi que conheci o Dique do Tororó, lago tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Primeiro mistério desvendado. Fiquei longo tempo olhando aquele belo lago.
Outro mistério: Se caia algum cisco no nosso olho, nossa mãe nos ensinava rezar assim: Corre, corre, cavaleiro, no caminho de São Tiago; vá buscar Santa Luiza, pra tirar o cisco do meu olho. E o cisco saía. Fé? Não sei.
No final da década de 90 fui à Espanha e tive a oportunidade de visitar Santiago de Compostela, aquela bela Cidade. Passando de ônibus pela estrada, meus olhos abriram-se: Ah! O caminho de Santiago! O cavaleiro passava correndo e ia à Igreja de Santa Luzia para pedir-lhe para ser a intercessora na retirada do cisco do meu olho! Eureca!
Agora, uma gíria. Se algo era muito longe, ermo, dizia-se: Lá no Cacha- Prego! Ou, se queria xingar alguém, vá pro Cacha-Prego! A primeira vez que fomos a Salvador, até paramos o carro para tirar foto da placa, com a seta indicando a direção de Cacha-Prego. Trata-se de um vilarejo da ilha de Itaparica, Bahia, assim chamado devido a sua atividade pesqueira.
Por último, um tio que gostava muito de brincar conosco, contava a seguinte história: Quando o galo estava tentando conquistar uma galinha, ele chegava dando aquelas voltinhas perto dela e dizia. Ocê hoje está na “ponta”. Ou seja, na ponta da orelha. Uma beleza! Ela, faceira, respondia: É de bendegó!
Ríamos a valer dessa história, mesmo porque ele a contava fazendo os gestos, bem teatral.
Um dia perguntei-lhe: Tio, o que é bendegó? Ele riu e disse: Sei lá! Achei a palavra interessante e inventei a história.
O tempo passou e Bendegó só era lembrada para falarmos das histórias que o tio inventava. Ninguém procurou saber de que se tratava.
Esses dias, lendo as crônicas escolhidas de Machado de Assis (seleção, introdução e notas de John Gledson), uma surpresa: Bendegó existe. É no sertão baiano. Um meteorito de mais de cinco toneladas, caiu em Bendegó, no século XVIII, e o governo resolveu mandar transportá-lo para o Rio de Janeiro. Consta que esse fato tinha sido objeto de notícias e chacotas na imprensa havia alguns meses. Machado de Assis fala, ironicamente, sobre esse transporte nessa crônica.
O Bendegó é a maior rocha espacial já encontrada no Brasil. Em 1784, no Sertão da Bahia. Ele é um bloco de mineral de ferro e níquel, com a forma de uma grande tartaruga sem cabeça e está exposto no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, desde 1888.
“O Bendegó nunca foi apenas um aerólito fundamental para compreender fenômenos astrofísicos. É um símbolo místico do povo sertanejo, herança da grande nação Kariri que incluía os Arrecuais, Opacatiarás, Chacriabás, Pontás, Masacarás e Chocós ou Chucurus, daí o nome Bendegó que significa “vindo do céu”.” (SIQUEIRA FILHO, José A.; BOMFIM, Luciano S. V.; NETO, Hermes Novais. O Bendegó: símbolo de resiliência das coleções científicas do Brasil. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, seção Extra! [conteúdo exclusivo online], 01 nov. 2018.).
Dizem os autores, que, inclusive, defendem o retorno do Bendegó ao lugar de origem, que até hoje, pessoas letradas lhes perguntam: O que é Bendegó?
Mistérios descobertos, enigmas decifrados…
E você? Sabia o que é Bendegó?
Maria Francisca – dezembro de 2024.
Acordei cedo.
O dia muito claro, os passarinhos saíram do sério, acordaram antes do sol e resolveram me alegrar, numa terna algazarra na varanda.
Fiquei ali parada alguns minutos, ouvindo a algaravia. E o pensamento voando, como pássaros sem rumo.
Voei, voei e resolvi voltar.
Levantei-me, cuidei do café, fiz meu desjejum e fui para a academia para meus exercícios matinais, visando tirar a ferrugem dos membros, principalmente inferiores, que já brigam contra a velhice.
Lá é uma festa, sempre. Muitos se conhecem e são tantos os bons dias alegres que os exercícios ficam menos pesados.
Comecei a trabalhar os músculos e, ao sair de um aparelho, um lenço que carrego sempre, caiu no chão e alguém alertou: Olhe, caiu um papel no chão.
Uma moça forte, malhada, estruturada, como diz uma amiga, senhora de si, estava perto de onde eu estava, e disse à que alertou: é daquela senhorinha que malhava ali na extensora.
Peguei meu lenço no chão, agradeci, mas minha vontade era perguntar à moça o que significava aquele tratamento: ‘senhorinha”. Eu conhecia diversos pronomes de tratamento, mas aquele era pronome de “destratamento”.
No dicionário, não há o significado da palavra dita pela moça.
Já tratei disso numa outra crônica. Da mudança do sentido das palavras e da infantilização do idoso.
Senhorinha, hoje, é um termo comum, mas, para mim, é pejorativo. É uma forma de reduzir a importância da pessoa idosa.
Não dei qualquer resposta à moça, por covardia, medo de virar ”barraco” ,já que as pessoas vivem “armadas”, por ser uma pessoa dita gentil (que sina!), mas fiquei com uma raiva danada.
Em verdade, o meu aborrecimento, minha raiva, melhor, nem foi tanto pela palavra usada, mas pelo tom da voz que, em vez de “aquela senhorinha”, soou como “aquela coisinha”. Tom de desprezo.
Como disse Aurê Aguiar, em crônica no Jornal “A Gazeta” de 01.12.2023, vivemos a era da deselegância.
Quando saí da dita Academia, hoje, diferente do ânimo da entrada, estava reduzida a ossos de minhoca, usando um termo antigo, já que engoli a ofensa. E engolir sapo não é minha predileção, pois política não sou, nem quero ser.
Na rua, para me acalmar, procurei na mente o canto dos pássaros pela manhã, e o que diria minha mãe: “Deixe pra lá. Urro de burro não chega ao céu!” Ri sozinha, segui meu caminho, a pensar naquela algaravia da madrugada que me deixou tão feliz.
Ao chegar em casa, por incrível que pareça, tocava uma música comandada pela Alexa que eu havia esquecido ligada em músicas religiosas. Ouvi tudo e conclui, como na música final: a vida é bem mais do que o mundo ensina.
E fiquei em paz.
Maria Francisca, dezembro de 2023.