O Capote, a Sombra e o Nariz - Maria Francisca

 20 de março de 2026 

No prefácio do livro Anna Kariênina, de Tolstói, Thomas Mann cita uma frase de Turguêniev: “Todos nós viemos do Capote de Gógol”.

Sempre me lembrava desta expressão: Capote de Gógol.  Por fim, resolvi ler “O Capote”.

São diversos contos. O Capote, que abre o livro, é bom, mas o que me chamou a atenção, foi “O Nariz”. São 31 páginas sobre um nariz que sumiu e reapareceu.

O que me impressiona é o dom de uma pessoa para escrever uma história tão insólita e conseguir nossa atenção até o fim. Aliás, o próprio autor, ao final, diz que, nela, há muito de inverossímil. E diz mais: (…) o que é mais estranho, o que é mais incompreensível é como os autores podem escolher semelhantes temas”, que, também, não trazem qualquer proveito… Chega a ser engraçado esse final.

Cada vez que leio um texto desse tipo, admiro mais esses escritores. Que imaginação! Eu, pobre coitada, fico dias e mais dias pensando num assunto para escrever algo… E quando encontro, escrevo, reescrevo, limpo, jogo fora, recomeço…

Quem sou eu para escrever um “Capote”.

Depois, por uma indicação também de Thomas Mamn, li “A história maravilhosa de Peter Schlemihl”, de  Adelbert von Chamiso. É um livro incrível. Sobre um homem que vendeu sua sombra ao diabo. Depois, sofreu a vida toda a falta de sua sombra, que lhe impediu de casar-se com a mulher que amava, mas, depois, conseguiu se regenerar cuidando da natureza, sem conseguir de volta a sombra tão sonhada.

São várias interpretações dessa falta de sombra. Há quem diga que se trata do próprio autor, despatriado, e pode ser comparado ao conto “O Espelho” de Machado de Assis. Do homem que só se reconhece quando investido de sua sombra (seu país, ou sua túnica).

Sobre o espelho, eu até já escrevi uma crônica.

Agora, esse livro do Chamiso fez-me andar à rua olhando as sombras… tentando identificá-las. E assustando-me, de vez em quando, com uma sombra atrás de mim…

Já “O Capote” deixou-me intrigada com o conto “O Nariz”!

Eu que já vivo implicada com um nariz… Talvez seja essa a questão de Gógol. Implicava tanto que até deixou o personagem sem nariz por um tempo.

Pois bem, a primeira coisa que me chama a atenção é o nariz das pessoas. Na rua, na tv, em todos os lugares. Fiz até um poema há tempos.

Há uma história por trás desse poema.

Eu fazia um curso. Era dia de apresentação de trabalhos. O aluno que se apresentava tinha um nariz tão grande que eu não conseguia prestar atenção ao que ele dizia, apenas olhava para o nariz dele.

Talvez, por isso, as emissoras, tempos atrás (agora bagunçou tudo) exigia dos apresentadores roupas mais clássicas, de forma a não tirar a atenção da notícia.

Pois bem. Eu via o nariz virando, entortando, parecia enxergar tudo que estava à volta.

Quando cheguei em casa, escrevi: Detetive à moda.

A natureza resolve: O nariz há de crescer, crescer, crescer…E meu nariz cresceu. Tanto, que entortou / Deu três voltas/ E parou no meio da cara. Estacou, torto, /Com a ponta pra cima. E passou a xeretar tudo/ O faro era bom.
E descobria, descobria… Até que o descobriram E o endireitaram.

Esse nariz foi endireitado por minha imaginação, mas, o tempo todo era o nariz que apresentava o trabalho; eu via apenas o nariz.

Eu necessitava que esse nariz sumisse, como no conto, mas, não, ele insistia em me provocar. Provocou, provocou tanto, até que acabou a aula e eu fiquei livre dele. Livre? Que nada! Enquanto eu não escrevi sobre ele não sosseguei.

Capote, só no frio, sombra, só a minha.

Que não me assombrem com sua sombra!

Agora, quando vejo um nariz… Reparo, mesmo…

 

Maria Francisca – janeiro de 2026.

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4 comentários

  1. Cada vez que leio um conto, causo ou estória escritas por você fico pensando:como uma pode ter tantos talentos? Aí é que admiro ainda mais. Mas voltando ao texto,não sabia que você prestava atenção no meu pequeno nariz. kkkk

  2. E parece vovó Sebastiana contando os causos sem fim! Profundo e divertido… até o fim.

    • É a velhice, querido. Muita história vivida e curtida. Vovó fez história, não só contou-as…Obrigada pela leitura e comentário. Beijos.

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Maria Francisca Lacerda
Poeta e escritora.
Espírito Santo - Brasil.


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