
Moça, onde consigo trocar o Voucher?
Plataforma 4.
É pra pegar a passagem.
Plataforma 4.
Plataforma 4 não é pra embarcar?
Plataforma 4.
Quase perguntei: Você é um robô?
Desisti e saí à procura da tal de plataforma 4. Uma fila enorme, todos confusos, pergunta vai, pergunta vem, e nada de resposta. Cada hora alguém se enxertava ali. De repente, percebi que a tal fila para troca do voucher era outra, paralela. Pulei dali, entrando na frente de uma senhora que deu o grito: Opa, eu já estava na fila. Foi o jeito deixar a mulher passar. Nem tinha visto de onde veio, mas, naquela confusão, fazer o quê?
Recebi a passagem e fui arrastando aquela mala enorme, com uma bolsa em cima, mais uma sacola e uma bolsa de mão, procurando minha plataforma que estava bem distante. A mala tombava, a bolsa caia no chão e lá ia eu, como uma imigrante tonta, que nem sabia em que cidade estava, tanta gente, cada um correndo mais do que o outro.
Aleluia! Eis-me sentada, após conseguir enfiar a grande mala naquele espaço gradeado, rezando pra ninguém colocar uma mala maior ainda em cima, como já aconteceu outras vezes.
Tão logo entrei no vagão, aticei o ouvido e prestei atenção à conversa de um senhor, ao telefone: “Zé, aqui é tudo fofim. As cadera toda bunita, larga, tem lugar pra guardar os trem, tem até aquele home que passa com carrim, pra toma o dinheirim dagente. Num tem aquelas cadera dura mais não, moço. E é friim, friim. Aquel solão lá de fora, meu fio, nem parece que tem. Quase que perciso visti casaco”. E continuou naquele mesmo tom, descrevendo os aposentos do trem, numa alegria que dava gosto ouvir.
Fiquei alguns minutos atenta àquela singeleza bonita, na simplicidade de gente do interior, que há tempos não via.
Depois, abri um livro e comecei a ler, de Humberto Eco, “Cemitério de Praga”, que ganhei faz tempo. Já no início, achei interessante. A personagem narradora que, segundo a resenha, é a única imaginada pelo autor, fala mal de todos os povos. Dos alemães, diz, entre outros defeitos, que abusaram de dois grandes narcóticos europeus: o álcool e o cristianismo. Dos franceses, que são exibicionistas, que pensam que todos falam francês, que são preguiçosos, trapaceiros etc. O italiano não é confiável, é trapaceiro, traidor etc. E foi falando sempre mal de todos, de forma engraçada. Dos padres, diz que o sujeito se faz padre ou frade para viver no ócio e que os piores são os jesuítas que são irmãos carnais dos maçons.
E aí, começa a falar das mulheres: ” Odeio as mulheres, pelo pouco que sei delas. Nas brasseries à femmes reúnem-se malfeitores de toda espécie. Pior do que as casas de tolerância. Fazem mal até de longe. Mulheres não sabem nada”.
O trem em movimento, interrompo a leitura porque percebo uma mensagem de um amigo que, entre outras coisas, pergunta se a paisagem é bonita. Só aí olhei pra fora. Percebi que preciso de outro olhar, mais imaginativo, menos analítico. Não consegui enxergar beleza alguma. Rio seco e sujo. Ainda mais depois dessa lama no Rio Doce.
Retomo a leitura.
O trem para numa estação, saem pessoas, entram outras. Acomodam-se, atrás de mim, uma senhora idosa, mais um casal e uma menina, que, como se dizia há tempos, parecia ter engolido agulha de vitrola. Falava tudo muito alto e rápido, como a maioria das crianças.
Por fim, deixei o livro de lado, para escutar.
Conversavam sobre quadrinhos. De uma personagem passavam para outra: Pateta, Miquey Mouse, turma da Mônica e começaram a enumerar as personagens do desenho. Mônica, Cebolinha etc e avó que estava ao lado dela na poltrona falou da Minie. A criança, então, disse, brava: “Vó, tá errado. Minie não é da turma da Mônica. Deus me livre! Vovó parece homem, não sabe de nada!”
Achei engraçado, porque acabara de ler que mulheres não sabem de nada. Em suma, ninguém sabe de nada.
Escuto outro grupo de conversas. Estados Unidos é um país maravilhoso. Só que não, digo pra implicar. O rapazinho que passou a me chamar de tia e falava dos Estados Unidos, riu e disse: Não estou mentindo. Claro, você não está mentindo, você só está exagerando. Todos riram e a conversa descambou para os defeitos dos Estados Unidos, com Trump, a mulher de Trump que plagiou Michele Obama etc, etc.
E lá se vai o trem sacolejando pelo caminho afora. Quando chego ao destino, ufa! Peguei tudo e saí às pressas, para cumprir meu destino.
Dias depois, retorno. Na estação, avisam que o embarque será pela linha do meio. Já fico preocupada com aquelas pedras no meio do caminho. Não a pedra do Drummond, mas muitas, miúdas, prontas para dar o bote e jogar o incauto ao chão, de preferência todo arranhado.
Pois não foi o que aconteceu comigo? Tropecei, tentei um malabarismo de yoga para não me machucar e cai de pernas para o ar. Foi um Deus nos acuda. Todos em volta, machucou? Está bem? Sim, estou bem, aliás estou ótima (e com muita vontade de rir, quase falei). Muitos vieram ajudar a carregar os trastes, sempre com palpites. Uns diziam: Um livramento. Outros que eu era muito forte etc. Empregados da Vale, avisando: Olhe, uma senhora caiu, uma senhora caiu, uma senhora caiu…parecia um eco.
Viralizou, pensei, rindo sozinha.
E, assim, obtive meu minuto de fama, que degustei até o fim da viagem, enquanto cantarolava baixinho a música do Milton: Todos os dias é um vai-e-vem, a vida se repete na estação. Tem gente que chega pra ficar…e assim chegar e partir…
Maria Francisca – início de novembro de 2016.

Ao Coletivo de Mulheres do Sindicato dos Engenheiros do ES.
Quem és tu, mulher?
Mulher que dança, que passa, que ora.
Mulher que ri, que chora, que segura
As lágrimas pra ninguém ver.
Mulher bordadeira que fere o dedo,
O sangue jorra vermelho, de doer.
Mulher parideira, que mora na roça,
Que planta, que colhe, mas não sabe ler.
Mulher operária, que sofre, que murcha,
Que busca a comida do filho na labuta.
Mulher que sente frio, que chora sem pudor,
Mulher sem vez, sem voz, nem poder
Flor empoeirada, sufocada,
Que murchou sem florescer,
No muro pobre, sujo, espinhoso
Que a aurora ilumina ao nascer
Mulher médica, engenheira, advogada
Mulher que conduz boeing, caminhão, trator,
Mulher pedreira, carpinteira, política,
Professora, oradora, mulher candidata
Que perdeu a eleição e desanimou.
Quem és tu, mulher?
Que quer pão e quer beleza
E não pode sorrir, nem sonhar.
Precisa costurar a vida, a desdita,
Desfazer caminhos malfeitos
De qualquer jeito.
A vida passa e não vês.
E sem perceber, passa a vez,
Passa a vez, outra vez…
Outra vez…
Eternamente?
Maria Francisca – setembro de 2016

Com licença, Dra. Francisca. Desculpe interromper a sua caminhada, mas preciso falar com a senhora. Não sei se se lembra de mim, sou Maria Clara, professora numa escola de Vila Velha e participei da aplicação do TJC.
Ah, lembro-me, sim. Tudo bem? Em que posso ajudar?
Aí, a professora me contou que o filho assinou um contrato de experiência e, ao final dos três meses, só lhe disseram que não trabalharia mais, sem que o motivo lhe fosse explicado. Ele estava muito triste e ela, então, queria saber os seus direitos, ou seja, se a empresa poderia despedi-lo, sem explicação alguma, já que ele trabalhara bem o tempo todo.
Conversamos, ela agradeceu e foi andando, muito triste. E eu voltei pra casa, com um sentimento meio esquisito. Não sei se de pena do rapaz ou de revolta por essa situação por que passa o país e os desempregados.
Mal chego em casa, leio uma notícia que me enviaram: “O professor universitário que pede emprego no semáforo”. Puxa! O homem de mais de sessenta anos, entregando cartões no semáforo, pedindo uma oportunidade para trabalhar. Que país é este, meu Deus!
E todos os dias só ouço dizer que a CLT é muito antiga, coisa de fascista, que precisa ser mudada. Certo, mudemos o que for necessário, mas, por gentileza, não digam que a CLT é velha, desatualizada, porque ela nem é a mesma de quando foi editada, tanto a retalharam. E a cantilena continua.
Que tal, então, fazer outra? Dar um outro nome, como fazem com tudo no Brasil? Mudem para Código do Trabalho, que talvez tenha mais força e persista. Hoje, há tanta burla, imagine quando vierem as mudanças que estão apregoando? A terceirização generalizada, o negociado valendo frente ao legislado, prevendo-se a alteração da Constituição para esse desiderato. Segundo as notícias circuladas na mídia, abrangem até férias e 13º salário.
E talvez nem sejam necessárias as mudanças legislativas, porque as últimas decisões do STF já deram mostras de que a CLT nem está valendo muito mais. Aliás, quem sabe até a constituição, com suas cláusulas ditas pétreas.
Quando do aniversário de 70 anos dessa Norma Legal, muitas coisas foram escritas, inclusive um belo livro do meu amigo Márcio Tulio Viana. Eu também quis prestar a minha homenagem à dita vetusta lei e escrevi um poema (Estou aqui: você me conhece?), que transcrevo, até como despedida dessa amiga que me valeu anos e anos de estudo e companheirismo no trabalho, tanto no INSS, como no Ministério do Trabalho e na Justiça do Trabalho.
Vim num tempo de guerras, dores, horrores.
Vim para a paz e em paz, dar força aos fracos.
Sem Fuzil, sem bomba, nem espada.
Vim com a força da Lei.
Não seria preciso mais nada.
Vim para a cidade e o campo veio a mim.
As cidades incharam. Surgiram becos, guetos
E até fome, nesse mundo infame.
Sou massacrada, rasgada, até escondida.
Sou mutilada, mas sou também emendada.
Como tudo neste mundo, sou amada e odiada.
Chamam-me obsoleta, caduca, atrasada,
Mas tenho meus defensores.
Não sou divina, nem uma ET,
Tenho 70 anos, sou forte e valente,
Sou a boa e velha CLT.
Maria Francisca – 30 de setembro de 2016.

Profissão? Escritora. É? Que legal! O que você escreve? Meu nome, ora! Seu nome? KKKK… Se você quiser, posso escrever o seu também. E dessas pessoas que aqui estão… Uns olharam-me com espanto, mas muitos riram bastante. A moça me deixou em paz, eu paguei e saí.
Não sei se as pessoas perceberam que era uma brincadeira ou se pensaram que eu era uma doida.
Dou esse tipo de resposta nessas lojas, onde querem saber até meu tipo sanguíneo. Aí, invento umas coisas, para que parem de investigar minha vida, sem nenhum sentido. Aliás, tem sentido só para eles: querem saber se você pode comprar mais vezes, para importuná-lo, sempre com telefonemas, e-mails ou mensagens, agora com o infernal whatsapp que, se não for silenciado, ou bloqueado, como tenho feito, é capaz de colocar qualquer um meio doido ou viciado.
E por falar em escritor, participei há pouco tempo de um evento literário, onde surgiu uma discussão sobre essa profissão. Um dos presentes, que, inclusive, estava lançando um romance, disse que não se sentia escritor e nem falava que era essa a sua profissão, porque aqui no Estado e talvez no Brasil, ninguém consegue viver só de literatura. E todos ali concordaram. Um era professor, outro, jornalista, médico, outros juízes…Em verdade, se observarmos a biografia dos grandes escritores, todos têm ou tiveram profissões paralelas.
As leis de incentivo, infelizmente, só beneficiam os amigos do rei. Para os pobres mortais é tanta burocracia, que o dito escritor desanima. E a secretaria de educação tampouco valoriza o escritor da terra, porque compra pouquíssimos livros para as bibliotecas públicas, conforme li num artigo recente de membro da Academia Espírito-Santense de Letras.
E ninguém quer ler. É ínfimo o número de leitores de livros tradicionais. Os e-books, a internet, as resenhas, os resumos. O tempo é pequeno. As escolas de ensino médio (até universidades) não incentivam a leitura, senão de resumos, apenas para que os alunos conheçam de forma superficial as obras dos grandes autores. E não é só aqui no Brasil, não, como o afirma Nuccio Ordine, em “A utilidade do inútil”. Acompanhando a tendência, as livrarias estão desfiguradas, quando não se fecham e desaparecem. O próprio Ordine afirma isso em relação a Paris, Itália e outros países. Elas só vendem o que o mercado dita: obras da moda.
O certo é que é difícil ser escritor. Escrever um livro, talvez não seja tão difícil, se a pessoa tiver talento, e seja seu próprio patrocinador. A propósito, a tirinha de Estêvão Ribeiro acima.
Pois é, apesar de ter dito que sou escritora, na seção “Fora da Toga” do Jornal da ANAMATRA (Associação Nacional de Magistrados da Justiça do Trabalho), com tantos percalços, tenho minhas dúvidas, apesar de ter diversos livros publicados e ser membro de uma Academia de Letras.
Fico, portanto, com a profissão somente para brincar com as atendentes bisbilhoteiras.
Maria Francisca –julho de 2016.

Ganhei uma dor na coluna cervical, que teimo inconscientemente em chamar de coluna vertical, provocando risos. Então, semanalmente, submeto-me a uma sessão de acupuntura.
Pra você que não conhece acupuntura, explico (como o dr. Google ensina): procedimento que consiste na inserção de pequenas (e finíssimas) agulhas em pontos específicos do corpo, visando ao alívio de dores e outros efeitos locais e sistêmicos.
Pois é, na minha sessão costumeira, já com as agulhas espetadas em braços e pernas, o médico apaga as luzes e deixa-me ali por 25 minutos, com meus pensamentos, minhas angústias e minhas dores. Fecho os olhos e inicio um ritual de inspirar e expirar, para manter a calma e conseguir ficar ali, deitada, quieta, por aquele tempo que parece eterno.
De repente, um coelho de jaleco branco entra na sala, pergunta se está tudo bem e sai. Fico intrigada. Será que entrei no conto de Alice de Lewis Carroll? Resolvo sair dali e encontro o médico (ou o coelho), que me traz de volta para a mesa, e fico quieta, mas tentando me desvencilhar das amarras, ops, das agulhas, tomo uma queda e saio rolando escada abaixo. Chego a um espaço como uma praça bem movimentada, com a placa: Edifício Pedrini. E, detalhe, muitos Pedrinis. Ali, todos são da mesma família Pedrini. Vou abraçando um por um. Edilson Pedrini, competente secretário da Escola Judicial, com quem trabalhei, há muitos anos, quando vice-diretora da daquela escola, é um dos que chegam alegremente para falar comigo. Depois, o dr. Álvaro, também muito sorridente. A dor não passa e vou andando pela grande praça, por incríveis caminhos enviesados, encontrando mais gente, mais gente, ganhando abraços de uns, beijos de outros, vou em frente, sentindo muitas dores. Meus braços já nem querem mais abraçar, de tanto que dói o esquerdo.
Daí a pouco, o pano cai, reabre, muda a cena. Já estou no tribunal, sentada entre os desembargadores, mas a dor continua ali, incessante. Peço alguém para pedir ao médico do TRT um analgésico específico e continuo na sessão, sofrendo, quando entra o dr. Álvaro Pedrini, gentileza em figura de gente, e diz: Dra. Francisca, esse analgésico é ótimo. Do que a senhora está acostumada a tomar não tenho, mas vai melhorar bem depressa. Prestando atenção no advogado que falava, apenas estendo a mão. Ele não coloca o comprimido. Então, olho para ele e digo: Pode colocar aqui, doutor Álvaro, minha mão está limpinha. Ele sorri (certamente porque sabia que minha mão não estava limpinha, nada, acostumado com os cuidados de UTI), mas coloca ali o remédio e sai. Tomo o analgésico rápido e continuo meu trabalho. Como por milagre, a dor vai passando, passando, até cessar, e a calma começa a reinar.
Acende-se a luz, o médico, dr. José Santo Pedrini, entra e pergunta: Tudo bem? Tudo ótimo, doutor. Sem dor alguma. Vai melhorar ainda mais, responde.
Então, percebi que sonhara. Assim como o remédio do dr. Álvaro Pedrini havia melhorado minha dor, há mais de dez anos (isso não foi sonho, foi uma lembrança boa que veio naquele leve sono), outro Pedrini, com técnica diversa, mas a mesma competência e cuidado, conseguira aliviar a minha dor.
Não tenho sorte com os Pedrini?
Maria Francisca – setembro de 2016

Peguei o livro Discriminação na estante, porque queria fazer uma pesquisa, mas parei no artigo de Márcio Túlio e deleitei-me com a leitura. Ele começa dizendo o seguinte: “Isonomia é hoje uma palavra mágica. Não, certamente, porque o mundo tenha se tornado mais igual: pelo contrário. Nos novos tempos liberais, cresce a distância entre negros e brancos, homens e mulheres, empregados e precários, proprietários e sem-tudo. Mas foi talvez por isso mesmo que a fome de igualdade aumentou. E a Constituição de 1988 soube captar essa mudança, dando nova ênfase a um ideal antigo”. Fala, ainda, o querido jurista, que, embora as constituições nem sempre sejam sinceras, porque cheias de discursos vazios, frases de efeito e tiradas poéticas, aí está o intérprete das leis para torná-las renovadas, aplicáveis e aplicadas.
A propósito, essa charge acima, muito bem-humorada, da Folha de São Paulo, de 07.11. 2008, quando a Constituição dita Cidadã completava 20 anos, mostrando que é tudo muito bonito e bom, mas, nem sempre o que está escrito vale na prática.
Mas essa dicotomia entre a lei e a prática não é novidade. Infelizmente, no Brasil, desde sempre, imperou a beleza da lei em confronto com o horror da realidade. Laurentino Gomes (1889) conta que Euclides da cunha, que era republicano, definira o Brasil como único caso histórico de uma nacionalidade feita por uma teoria política. Segundo o famoso escritor de “Os sertões”, no relato de Laurentino, as instituições nacionais construídas no Império baseavam-se em conceitos políticos e filosóficos importados de fora, com nenhuma similitude com a realidade observada nas ruas de um território pobre e atrasado. O Brasil da teoria era diferente do Brasil da prática. Era e ainda o é, Senhor Euclides da Cunha.
As nossas leis são ótimas, nossa Constituição proclama a igualdade, mas só se vê desigualdade. E tudo é bonito, mas só na teoria. Quem conhece as normas de segurança no trabalho pensa que é norma de outro país, tão evoluídas e bonitas, mas só no papel.
Após esse parêntese, li o restante do artigo, sempre atenta às bem escritas e belas palavras do Márcio Túlio.
Fechei o livro, fui cuidar de um compromisso em Vitória e, ao voltar, chegando a Vila Velha, passando pela famosa alça da Terceira Ponte, parei em três faixas de pedestres, como manda a norma escrita e a educação. Duas vezes, era para passar uma mulher. Na terceira, um homem. O homem, ao passar, agradeceu com gesto de positivo. As mulheres olharam-me e simplesmente passaram. Se fosse um homem ao volante…
E eu fiquei a pensar sobre discriminação. Desta feita, da mulher contra a mulher.
Muitas mães apoiam tudo que os filhos fazem. Não se preocupam com quem saem, se mal ou bem podem fazer às meninas ou aos meninos com quem se relacionam.Com as filhas, todo cuidado é pouco. E com as filhas dos outros? Não são mulheres também?
Essa situação é comum, não só com pessoas menos instruídas ou de menor poder aquisitivo, não. Em todos os lugares e em todas as classes sociais. Vejo isso por onde ando. E, quando posso, se a pessoa é de minha intimidade, digo: Mas e as meninas ou meninos com quem saem? Podem ser assacados? Melhor dizendo: São piores do que sua filha?
Se uma mulher viaja sozinha, as outras mulheres que estão com os maridos, nem chegam perto. Vai que aquela “vadia” resolva dar em cima do seu marido! E quando as amigas (?) se divorciam? Muitas mulheres afastam-se porque o marido “vira” presa fácil da divorciada. Se ocorrer, a dita divorciada é a culpada. Nunca o marido. Muitas até se arvoram em dar uma surra na “outra”.
Há pouco tempo, li uma entrevista da historiadora Mary Del Priore, concedida à BBC Brasil. Ela, além de historiadora, é professora universitária e autora de obras como História das Mulheres no Brasil (ed. Contexto), vencedor dos prêmios Jabuti e Casa Grande e Senzala, e Histórias e Conversas de Mulher (ed. Planeta), em que acompanha avanços femininos desde o século 18.
Para ela, as mulheres brasileiras do último século conquistaram o direito de votar, tomar anticoncepcionais, usar biquíni e a independência profissional. Mas ainda hoje são vítimas de seu próprio machismo. Muitas mulheres “não conseguem se ver fora da órbita do homem” e são dependentes da aprovação e do desejo masculino, opina ela.
Ainda segundo a historiadora, na sociedade, o machismo no Brasil se deve muito às mulheres. São elas as transmissoras dos piores preconceitos. Na vida pública, elas têm um comportamento liberal, competitivo e aparentemente tolerante. Mas em casa, na vida privada, muitas não gostam que o marido lave a louça; se o filho leva um fora da namorada, a culpa é da menina; e ela própria gosta de ser chamada de tudo o que é comestível, como gostosa e docinho, compra revistas femininas que prometem emagrecimento rápido e formas de conquistar todos os homens do quarteirão.
Sinal de que não estou sozinha na minha análise.
Em março de 2014, saiu o resultado de uma pesquisa em que a maioria afirma que a mulher que veste curto ou decotado merece ser assediada e até estuprada. A que ponto chegamos… E mulheres foram ouvidas também. Mais uma vez confirma-se a minha ideia da discriminação pelas próprias mulheres. E eu que não estava falando desse tipo de violência, fiquei parada, olhando pro nada, enquanto me refazia do susto.
E a “Revista AG” publicou, em abril de 2014, uma reportagem justamente sobre a pesquisa, em que pessoas da sociedade, entre cantores, escritores, professores, fotógrafos, se despem, e, com um cartaz à frente do corpo nu, manifestam seu repúdio às ideias machistas, homofóbicas e absurdas desta nossa sociedade hipócrita. E, mais uma vez, temos manifestação de especialista no assunto: Beatriz Nader, estudiosa em história do feminismo, afirma que “Boa parte das mulheres ainda julga, por exemplo, outra mulher com uma roupa mais curta, apontando-a como vagabunda ou sem valor. E esse conceito ela passa para os filhos”.
Recentemente, está dando o que falar, o susto do mundo com o estupro coletivo de uma jovem de 16 anos. Um horror. E muitos ainda a acusam. Dizem: Ela estava se oferecendo…Eles são homens…Nem parece que estamos no século XXI.
Quando é que isso vai parar?
Maria Francisca –começo de 2013. Atualizada no final de 2015, a situação perdurando. Agora, em 2016, da mesma forma.

Minha mãe tem 95 anos. Mora num bairro exclusivamente residencial, muito simples e tranquilo, há mais de 40 anos. Conhece todo o mundo e todos a conhecem.
Ainda tem o costume de sentar-se à calçada e conversar com as pessoas que passam. Um dia, estava sentada ali no seu banquinho, quando veio vindo um dos quantos conhecidos, totalmente bêbado, trocando as pernas, mal se aguentando em pé.
Parou, daquele jeito típico, balançando o corpo, pra lá e pra cá, e perguntou, gaguejando, quase não conseguindo pronunciar as palavras: Tudo bem, Dooooona Se sesebastiaaaaaana?
Ela, como a maioria dos idosos, gosta de falar de seus males, disse: Vou indo, Antônio, mas com muita dor nas pernas.
Ele não titubeou: Uaaaaiii, dooooona Sebastiaaaaana, que será que está acontecendo com essas nossas pernas?
Ela respondeu, rindo: Com as minhas eu sei, com as suas, você é quem sabe…
Maria Francisca – maio/2016.
Meu espírito é um deserto.
A desigualdade bate à porta e não ouço.
Não escuto a voz do vento
Nem do tempo.
Nada vejo. Meus sentidos dormentes,
Inconscientes do mundo ao redor.
Tu vês? Ele vê? Nós não vemos.
Quem vê?
Mercenários, mercadores, credores,
Cobram a libra de carne viva, pela dívida.
Faltam emprego, saúde, escolas.
Sem moradia, sem alegrias, sem fama,
Pessoas como nós patinam na lama.
A desertificação dos sentidos
As luzes apagadas, o mal enraizado,
Banalizado. E nós?
Murchos ou robotizados,
Desumanos.
Maria Francisca – agosto/2016
“Onde está o teu tesouro, aí está teu coração” (Mateus, 6:21)
Resolvi dar uma limpeza na biblioteca e comecei a encontrar tantos e tantos livros bons que tive que fazer um esforço muito grande para não fazer vir abaixo a biblioteca toda para reler um por um. Aí, retirei da estante “Admirável mundo novo” de Aldous Huxley e outro, apenas, mesmo porque a minha fila de novos ainda está grande.
Por acaso, no mesmo dia, caiu-me às mãos uma ótima resenha desse livro do Aldous. Uma coincidência, ter aparecido logo agora. E coincidências sempre mexem comigo. Por isso, fiquei pensando sobre esse nosso “admirável mundo novo” e concluí, como o autor da resenha, que estamos todos manipulados tanto pela tecnologia como pela mídia. Aldous Huxley previu um mundo de desamor e robotizado. E proclamou-o muito bem, numa espécie de denúncia, como o faria um profeta.
Compramos o que a mídia manda, vestimos o que a moda dita, não pensamos, não raciocinamos, não amamos, não nos relacionamos com nossos semelhantes senão por meio dos instrumentos tecnológicos que todos somos obrigados (?) a usar. Cada um com seu aparelhinho, um olho aqui e outro acolá, para ver tudo o que há nas redes sociais, fascinantes.
E assim, entrou a droga na vida de nossos adolescentes. Sentem-se poderosos, valentes, usando a droga. Poderosos, valentes, mas caem. Em 2013, sete alunos adolescentes de uma escola de Vila Velha foram assassinados por traficantes. Uma tristeza para as famílias envolvidas que se veem sem instrumento algum para conter essa terrível onda que faz tantas vítimas.
Ler um livro…E quem tem tempo?
Nas mesas de restaurante, o que mais se vê são pessoas ao celular. Estão ali só de corpo. As mensagens eletrônicas é que comandam o espetáculo. Conversar olho no olho caiu de moda. Já fui a um aniversário num restaurante, em que o filho adulto da aniversariante ficava o tempo inteiro enviando e recebendo mensagens pelo facebook, sem dar a mínima atenção para quem estava a seu lado.
Não sou contra as chamadas redes sociais. Aliás, uso facebook, whatsApp, tenho tablete, celular, mas a tecnologia deve estar a serviço do homem, para seu bem-estar, e não para escravizá-lo, como temos visto com as crianças, com os jovens, e até com pessoas maduras. Na escola, é um tormento para os professores. Como nas festas o barulho do som é tanto, que não se conversa, entram as tais redes sociais para transmitir os selfies. Nos congressos, o chique não é ouvir, é tirar fotos e postar nas redes sociais. Nos passeios, da mesma forma. Por que tem que ser assim? Porque sim. É moda. Todos fazem dessa forma. O que vale é a dita diversão. E falamos tanto em qualidade de vida e nos submetemos a tanto barulho e a tanta escravidão…
Por último, a febre do tal Pokemon Go. Perto de minha casa, há uma igreja evangélica e um posto de combustível. Ali, juntam-se jovens de todas as idades. Todos na captura dos tais monstrinhos. Tem-se a impressão de que há uma articulação, para impedir o pensamento, o raciocínio, a crítica, alienando todos do mundo real.
E assim, somos todos “humanos” robotizados.
É o admirável mundo novo de Huxley, ou não?
Maria Francisca – agosto de 2016

Na abertura de um Congresso de Magistrados, o palestrante, referindo-se ao narciso que mora dentro de cada um de nós, disse: Quem nunca ouviu a clássica pergunta “sabe com quem está falando?”
Aí, lembrei-me de um longínquo dia em que ouvi essa pergunta. Saí do trabalho, já noite, debaixo de uma chuva torrencial, ensopada, fui a casa trocar de roupa, às pressas, atrasada que estava para uma prova que não poderia perder. Então, resolvi trafegar na contramão, um pedacinho à toa de uma rua minúscula e tranquila, que nem sei por que era contramão. Mal saí da garagem e entrei na rua, veio um carro com um farolzão à minha frente, fiquei com medo e parei, já antevendo a colisão, quando o motorista parou ao meu lado e disse, aos gritos: A SENHORA ESTÁ NA CONTRAMÃO! O meu narciso apareceu na hora, tamanha a raiva que se apossou de mim, e respondi, gritando: E DAÍ? O narciso dele retrucou: A SENHORA SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO? Não sei e nem quero saber, respondi e arranquei.
Pois é. Ninguém se livra do narciso.
A “Folha de São Paulo” publicou, recentemente, uma pesquisa em que mostra a animosidade entre passageiros de elite e os de classe econômica nas viagens aéreas. Comportamentos raivosos são demonstrados em ambas as classes. Mas de acordo com a pesquisadora, indivíduos de classes mais altas muitas vezes fazem comparações absurdas com os mais pobres, lembrando seu status de elite, num comportamento egoísta e desdenhoso.
É sempre o narciso falando mais alto.
A propósito, dia desses, no aeroporto de Vitória, estávamos o colega Hélio Mario e eu na fila de prioridade, aguardando pacientemente a nossa vez, quando, à frente da moça que estava atendendo ao guichê da empresa aérea, postou-se um homem alto e forte, apresentando seu bilhete. A moça, então, mostrou-lhe a fila a que estava atendendo e ele resmungou irritado: Vou ter que ficar nessa fila enorme? Eu, inocentemente, querendo ajudar, disse, feito uma boba: É a fila de atendimento preferencial.
Narciso, então, soltou sua pérola matinal, com o maior desprezo: SOU DIAMANTE, MINHA FILHA!
O infeliz, além de prepotente, é mal informado, porque não sabe que a preferência da lei precede à da empresa aérea. Ou seja, é a preferência da preferência.
Apenas rimos diante de tamanha petulância e ele saiu danado da vida.
Bem-feito!
Maria Francisca – maio de 2016.