
Os passarinhos cantavam tanto pela manhã, na minha varanda, que imaginei tivesse sol. Qual nada! Um céu coberto de nuvens escuras, prenunciando muita chuva, que não demorou a cair, acompanhada de um frio de doer os ossos. E em pleno outono, arre!
Mesmo assim, resolvi sair a pé, porque havia providências a tomar. Com essa dificuldade de estacionamento, prefiro andar, e ando muito, por todos os lados, seja no bairro, seja no centro da cidade. Parafraseando Adélia Prado, caminho como um judeu errante.
Estava de muito bom humor. Resolvi, então, fazer uma brincadeira com as pessoas. Vesti uma roupa de ginástica, calcei um sapato cinza, armei-me de um grosso casaco de frio e de uma grande sombrinha. Olhei-me ao espelho e gostei do que vi. Fiquei caricata, mas faltava alguma coisa. Lembrei-me de um par de óculos escuros, grande e chamativo, dele me apossei, coloquei-o e fui ver o efeito. Não poderia ser melhor. Caricatura hilária. Saí à rua. Claro que fui por caminhos nunca dantes caminhados, para encontrar apenas pessoas estranhas. Se assim não fosse, graça alguma haveria na minha experiência.
Encontrei, primeiro, um homem. Se me viu, fingiu que não viu, passou incólume. Depois comecei a encontrar mais gente. Uns olhavam, desviavam o olhar, outros riam um riso dissimulado, olhando para os lados, até que encontrei algumas adolescentes. Uma apontou-me à outra e todas começaram a rir. Uma, mais corajosa, chegou perto e disse: Senhora, está chovendo, pra que esses óculos? Eu, séria, mas morrendo de vontade de rir, disse: Porque está na moda, ora… Todas caíram na risada.
E fui andando e me divertindo com o olhar das pessoas. Até que encontrei uma senhora que também estava de óculos escuros. Enoormes… Muito maiores do que os meus. Aí foi a minha vez de olhar. Sem dissimular. Parei e olhei. Ela também parou e, à minha frente, disse, forte: Que foi? Seus óculos, lindos, respondi. Ela riu gostosamente. E disse: Comprei em Londres. Eu consegui manter-me séria e afastei-me depressa, mas desconfiada. Será que teve a mesma ideia que eu?
Andei mais um pouco. Olhei para trás e lá estava a mulher, conversando com alguém e rindo. Ah, com certeza realizava a mesma experiência que eu, pensei. Tive a tentação de ir até lá e conversar com ela, mas me contive. Temi a reação da mulher, caso eu estivesse enganada. Melhor continuar na minha andança de experimentos.
Dei alguns passos, mas senti que acabou a graça e resolvi voltar pra casa, pensando naquela mulher… Será? Chegando ao portão do edifício, é que me lembrei de que não havia resolvido nada das minhas providências.
Chega de cara de pau por hoje. Pior é que a chuva aumentou e caía forte. Mesmo assim, despi-me da indumentária maluca e fui cumprir minha obrigação.
Num outro dia de perfeita loucura, em que a temeridade estiver em alta e a cara de pau brotar com força novamente, sairei por aí, para mais uma dessas brincadeiras.
O resultado? Depois, saberemos. Que vou me divertir, já sei que sim.
Amigos,
Peço desculpas. Mudei o comutador e não consegui responder às mensagens carinhosas do texto “Velha, eu?”, porque não consegui recuperá-las, tampouco o texto original.
Um abraço, esperando merecer a leitura dos próximos posts.

Acorda, oh, tu que dormes!
A rua deserta convida ao sono.
Alerta! O mal ama deserto,
O caos e abandono.
Acorda, oh, tu que dormes!
Não te instales na inércia.
Acende a lanterna e segue
Em silêncio, vem depressa.
Acorda, oh, tu que dormes!
O dia amanhece. Resplandece
Tudo em volta, e tu dormes?
O mundo gira, a terra treme,
Passa do caos ao cosmos,
Retorna ao caos
E tu dormes?
Até quando?
Maria Francisca – agosto de 2017.

”Eu quero um rio de água viva!
Eu quero um sopro de esperança
Minh’ alma segue e não se cansa
De caminhar…”
Antônio Carlos Santini
Pedro é uma figura ímpar, dentre os apóstolos de Jesus. Amo esse apóstolo, porque era humano e mostrava toda a sua humanidade com os gestos e as palavras inusitadas ou inoportunas. Melhor dizendo, estava sempre falando pelos cotovelos. Errava, caia, levantava-se. Fraquejou na fé, ao andar sobre as águas, dormiu na agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras e negou o Mestre três vezes.
No Monte Tabor, Pedro lança uma de suas pérolas. Como relatam Mateus (17,1-8), Marcos (9,2-8 )e Lucas (9,28-36), após a transfiguração de Jesus, Pedro fica tão maravilhado que diz: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias”. Jesus não deu papo pra ele. Mesmo porque, de repente, veio uma nuvem luminosa e os envolveu, deixando todos com muito medo, como diz o Evangelho. Fico a imaginar a cara de Pedro. Estava tão bom, daí a pouco aquela nuvem estranha e aquele medo! Teve vontade de correr, imagino.
Mas foi o homem escolhido por Jesus para receber as chaves do Céu e o texto bíblico mostra a bela trajetória desse homem e o trabalho que realizou.
Gosto muito dessa passagem bíblica. Quantas vezes, não tive vontade de ficar quietinha, deixando tudo sem fazer? Naquele comodismo gostoso, de preferência num cochilo de uma cama macia ou que tal numa rede? Mas o caminho está a aí para ser percorrido. Não há tempo a perder.
Pensando nisso, lembrei-me de uma história (haja história nessa cabeça de velha), sobre o batismo. Contou um amigo que um padre idoso visitando Manaus, foi levado a uma Igreja linda e muito antiga. Os anfitriões disseram-lhe que havia um problema sério naquela igreja: os morcegos. Não sabiam como acabar com eles. O padre, tranquilamente, disse: batiza-os. Boquiabertos, os jovens padres perguntaram: Como? E, ele, mais do que tranquilo. Ora, se batizar, somem todos…
Claro que foi uma brincadeira, mas com toda razão. Somos muito solícitos e presentes, enquanto queremos algo. Quando conseguimos, não damos mais valor, por sabermos que teremos algum trabalho. Isso ocorre na Igreja, quando as pessoas levam seus filhos para serem batizados, na Academia de Letras, onde frequentam antes de ser acadêmicos, depois todos somem. Nos trabalhos voluntários, quando fazem a preparação ou a formação específica, acham uma maravilha, mas na hora da batalha, cadê? Até na diretoria de associações de classe. Entrar para a diretoria é chique, mas as reuniões são muito cansativas. Não vou, não.
E há quem diga, achando bonito: fui convidado, mas não estava “afim”. Ninguém quer trabalho. O bom é cair tudo do céu, prontinho. Diante de uma dificuldade, então, é que nos acovardamos. Sentimos vontade de armar uma tendinha, ou, quem sabe, uma rede, e ficar a balançar preguiçosamente…em suma: fugir da raia. Quantas vezes não tive sono, quando via que tinha muito a fazer? Só pra fugir da responsabilidade. Talvez Freud explique.
Como na música religiosa, todos queremos um rio de água viva e um sopro de esperança, mas o importante, mesmo, é o final da estrofe: “Minh’alma segue e não se cansa de caminhar…”
E vamos que vamos.
Maria Francisca – julho de 2017.

Para minha mãe
Não repare meus cabelos brancos
Não repare minha pele flácida,
Meu andar cansado, meu corpo curvado.
É tudo normal: envelheci.
Perdoe meu cansaço, minha voz pausada,
Meus olhos baços, as minhas dores.
O tempo passou depressa…
Envelheci.
Perdoe se sou lenta, se não o ouço.
Meus ouvidos são outros.
Minhas pernas trôpegas.
Envelheci.
Perdoe essa dinâmica morna
Experiência passada, desusada.
Meu tempo é outro, mais lento,
Mais difícil, mais descrente.
Perdoe minha história vencida
Minha autoridade perdida.
Já não corro, já não aprendo fácil.
Envelheci.
Nascer, florescer… morrer?
Com licença, tenho muito a fazer.
Ainda há tempo e sopra forte o vento.
Restam sementes.
Vou semear…
Maria Francisca


Quando conheci Brasília, a par da beleza da cidade, senti-me um pouco decepcionada. Talvez por ter idealizado demais a tão festejada BELACAP do Juscelino, do Niemayer e do Lúcio Costa. A construção foi uma polêmica, a vida dos moradores de periferia, outra polêmica, a corrupção, mais outra, até a inauguração, uma festa. E, depois, continuou uma festa. Para poucos, claro.
Demorei a conhecer a cidade. Talvez por inércia ou inépcia, mesmo. Eu sempre falava: conheço tantos lugares e não conheço Brasília. Até que criei “coragem” e fui conhecer a Capital da República. Isso em 1995, ou seja, 34 anos após a inauguração.
Que beleza! Tudo falava de grandeza. Largas avenidas, edifícios maravilhosos, igrejas lindíssimas, pura arte. Tudo chamava atenção. A Igreja Dom Bosco, então! Entrei lá e não tinha mais vontade de sair. Um ambiente de paz maravilhoso.
Mas, a decepção: Junto ao poder e à beleza, muita sujeira de camelôs, pedintes, moradores de rua dormindo ao relento. A contradição à mostra. E fiquei a imaginar se os poderosos de Brasília não pensam, ou, se pensam, fecham os olhos e os ouvidos, ao passarem por aquelas largas e belas avenidas. Talvez a película bem escura de seus possantes veículos oficiais já tenha este objetivo: tapar a pobreza. Se não vejo, não me preocupo.
E essa contradição está por todos os lados que se olhe. No início da semana, caminhando na Praia da Costa, vejo uma propaganda de construção: “Luxuoso apartamento de quatro quartos, três suítes. Visite decorado”. Em frente, na praia, muitas pessoas dormindo ao relento. Chamou-me a atenção uma família inteira na areia, enrolada em trapos, com sacos de outros trapos ao lado. Dois adultos e duas crianças. Parei, olhei, olhei para os prédios e segui meu caminho, como todos fazem. Olhei, mas não vi nada, porque, se visse, teria que fazer alguma coisa. E o que vou fazer? Levar para minha casa? Só se for, porque denunciar ao poder público, que é quem tem o poder, já cansei. Não fazem nada. Fico a esbravejar nos meus escritos, num arremedo de discurso em praça pública, talvez para espantar esses fantasmas, ou, mesmo, para não mudar de ideia sobre esses absurdos deste nosso mundo. Pra não me acostumar e passar a achar que está certo.
Elio Gaspari, no texto “O rolezinho pode acabar em rolão”, diz o seguinte: “Enquanto rolavam rolés, um grupo de trabalhadores foi barrado num centro comercial da Barra da Tijuca porque traziam poluição visual e mau cheiro. Isso na cidade onde o révellion da praia teve tenda VIP para convidados e, uma passeata, cercadinho para celebridades”. Aí está, mais uma vez, a segregação a olho nu.
Veríssimo, com sua verve crítica, afiança que a invasão planejada de xópis pela turma da periferia, que tem acontecido nos grandes centros, tem algo de dessacralização: a rua se infiltrando no falso primeiro mundo e, perigosamente, estragando a ilusão. Ancelmo Gois noticia que no Jockey Club o clima fechou porque duas babás entraram na piscina com as crianças de que cuidavam. Uma madame arranjou uma grande encrenca com o diretor.
Já a revista AG de 26.01.2014 trouxe uma reportagem sobre um beach club na Praia de Peracanga, Guarapari, onde se gastam cerca de dez mil reais por tarde, em champanhes e outras delícias. Uma das meninas que frequentam o clube, diz o seguinte: Eu prefiro aqui a estar na areia da praia. O público é selecionado e o ambiente é divertido. Aí, penso: Então tá: a praia não é mais um lugar democrático. Nem na praia querem mais se misturar com a plebe ignara.
Mas como disse Lúcio Manga no “errei na Mosca” de A Gazeta, a miséria está também no facebook. E diz mais: Tudo começou no orkut, mas como havia ficado popular, muitos jovens abastados migraram para o condomínio fechado do facebook, lembram? Completa o autor.
Pois é, então, está na hora de os jovens abastados saírem do facebook e irem para outro condomínio fechado. E isso já está acontecendo. No “A Gazeta” (03.02.2014), com o título Facebookcídio, uma psicóloga afirma que a popularização está afastando algumas pessoas que se sentem diferenciadas e que as redes sociais terão preferência, na medida em que forem exclusivas, ou seja, um condomínio fechado, na expressão de Lúcio Manga.
Daqui a pouco, vão arranjar um meio de isolar parte dos hoje denominados shoppings, que já são à prova de pedintes e vão passar a ser à prova de pobre. Espaço para cada qual. Já não fizeram isso com parte de algumas praias? Isso funciona com a moda e até com decoração de casas e apartamentos: quando fica popular, muda, porque ninguém quer ficar perto de pobres ter algo com eles.
Por fim, quando penso nessas contradições, relembro Gilberto Freire, com “Casa grande e senzala”. O que são a casa grande, senão os edifícios e casas luxuosas de Brasília, ou a moda para os ricos, os cercadinhos para os chamados Vips, os beat clubs, os shoppings fechados contra os tais rolezinhos? O que são as senzalas, senão os barrados nos shoppings, senão a rua como moradia, os farrapos, a fome e a miséria em geral?
Escrevi este texto faz tempo. Mas hoje, verifico que tudo está pior.
Em Brasília e no Brasil todo. A corrupção é endêmica, os números da roubalheira espantam e o desemprego assombra. Gente e mais gente dormindo ao relento. E os belos cachorrinhos peludos agasalhados em carrinhos de luxo nesses dias frios. A fome? A fome do povo? O que é a fome? Não posso ver, não quero ver.
Diz Drummond: “As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação”.
Maria Francisca – julho de 2017.

“Quando o rei eu vejo, bocejo”
Maria Francisca – “Uns são mais iguais”
Era dos direitos? E dos deveres? Nada?
Norberto Bobbio, em seu belo livro “A era dos Direitos” fala da dimensão desses direitos e da democracia, como sistema propício à sua realização. Já no livro “Diálogos em torno da República”, o filósofo Maurizio Viroli, pergunta a Bobbio: Você acrescentaria a esse livro um ensaio sobre a necessidade do dever? Ao que ele responde simplesmente que a reivindicação do direito foi uma resposta ao despotismo. Foi uma necessidade de defender-se da opressão e da prepotência. E complementa que, se ainda tivesse alguns anos de vida, tentaria escrever “A era dos deveres”.
E fico a pensar no nosso tempo. Uma época difícil. Mas estamos precisando nos defender de quê? Vivemos numa democracia. Mas vemos cada vez mais isto: só nós temos direitos. Os outros, não. E os deveres? Ora, os deveres. Será?
Isso me faz lembrar um senhor que foi meu colega no antigo INPS.
No final dos anos 60, o INPS pertencia ao Ministério do Trabalho e Previdência Social. Então, no mesmo local do INPS, funcionava o setor de emissão de Carteiras do Trabalho. Quem cuidava desse trabalho, era Serafim (de saudosa memória), um senhor muito cioso de suas obrigações. Espirituoso, gostava de brincar com as pessoas que atendia, gentil com todos, mas muito rigoroso. Só emitia a carteira, se os documentos estivessem todos em ordem. Se a pessoa insistia, dizendo que precisava com urgência da carteira, ele dizia: Você quer que eu seja bonzinho pra você, não é? Mas aí eu seria ruinzinho para mim e isso não vou ser.
E se alguém dizia, choroso, estou precisando, senão não vou conseguir meu emprego, estou em dificuldade, ele dizia: Você está abusando do direito de ser fraco. E não atendia o pedido, sem que estivessem cumpridas todas as exigências.
Nós queremos tudo, mas sem nos comprometermos com nada. Será isso? Será a hora de pensarmos na “Era dos deveres”?
E, novamente, o diálogo entre Bobbio e Viroli. À pergunta do segundo sobre o dever do cidadão, Bobbio responde: ‘O dever de respeitar os outros. A superação do egoísmo pessoal. Aceitar o outro. A tolerância aos outros. O dever fundamental é dar-se conta de que você vive em meio aos outros”. E quanto aos governantes? “O senso do Estado, ou seja, o dever de buscar o bem comum e não o bem particular ou individual”.
Então, como conviver com tantos problemas no Brasil, apesar de vivermos numa democracia? Nessa nossa democracia, onde mais vale ser amigo do rei? E há amigos do rei que enchem a boca para falar de assunto ou atitude que diz ser republicana (palavra desgastada pelo mau uso) que imagino: ele/ela nem deve saber o significado da palavra.
Nós, por outro lado, vamos nos acostumando com isso e também vamos buscando nossos jeitinhos de resolver tudo nessa base e queremos nossos direitos, sem pensar nos deveres. Passamos a considerar que, se precisamos de algo, vamos arranjar uma forma de consegui-lo, nem que seja vendendo nossa alma ao diabo: votando em quem não pensa no bem comum, para não dizer coisa pior, se esse “diabo” pode nos proporcionar algum favor. E a democracia e a república passam a ser a palavra da moda: a pós-verdade.
Precisamos, ora…E no beija-mão do rei, conseguimos. E se não conseguimos, continuamos chorosos, sem fazer a nossa parte.
Abusamos de nossa fraqueza, portanto, como dizia o Velho Serafim.
Maria Francisca – junho de 2017.
Com essa história de voos diretos reduzidos e preços de passagens proibitivos, tenho viajado de trem para Minas Gerais. No trajeto, além dos recados para os passageiros, nos monitores passam alguns filminhos, mas, sem fone de ouvido – nunca me lembro de os levar – fico sem conhecer o conteúdo das mensagens.
Desta vez, ao contrário, deixei os livros de lado, cansada, pois oito horas lendo sem parar, não há cristo que aguente. Coloquei os desconfortáveis fones e comecei a assistir aos filmes. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o título de alguns vídeos: “Que direito é esse?” Fui vendo e aplaudindo silenciosamente. Tratavam de assédio moral e sexual, acidentes do trabalho etc. Educativos e disso precisamos.
Hoje, diante da reforma trabalhista aprovada na Câmara dos Deputados, pergunto, aflita: Que direito é esse?
Acabo de assistir ao “Bom dia” da TV Gazeta e vejo dois juristas falando sobre as reformas. Claro, o que está a favor, diz, ao explicar a prevalência do negociado sobre o legislado: O empregado agora tem voz. Tem sim, doutor, para apenas dizer SIM. Como já disse o saudoso Millôr Fernandes, “Livre pensar é só pensar”, da mesma forma, a voz do empregado é apenas para dizer SIM. Qual o empregado, numa conjuntura perversa como a nossa, vai dizer não a uma proposta de redução do salário, de aumento de jornada ou qualquer outra proposta do empregador?
E, mais, disse ele que a reforma põe fim ao ativismo judicial. Desculpe, esse doutor deturpou o sentido do termo. Ativismo judicial é interpretação da lei de acordo com o seu espírito e não criação de lei pelo juiz, como declarou. Essa reforma vai amordaçar o juiz e a Justiça do Trabalho, isso, sim. Aliás, o que temos escutado são ataques cadenciados contra essa Justiça que trata dos Direitos Sociais. A propósito, a ministra aposentada Eliana Calmon, sentindo cheiro de desgraça, como o corvo de George Orwell, reapareceu para desferir seus ataques, seguindo, infelizmente, a cartilha de outros membros do Poder Judiciário. Mas ela ressurge das cinzas, também de olho nas eleições de 2018.
Por outro lado, o ex-ministro Ciro Gomes disse hoje, e nesse ponto concordo com ele, que estamos fabricando uma involução do Direito do Trabalho. Quando a China estaria tentando melhorar suas relações de trabalho, o Brasil está indo na contramão da história. E eu digo: quem precisar colocar sua força de trabalho a favor de outrem, daqui a pouco, retornará à senzala, porque a lei áurea é antiga e precisa ser reformada também, como a CLT que teimam em dizer que é de 1943, quando já passou por tantas reformas que nem é mais a mesma há muito tempo.
Sei que vão me dizer: o que adianta você escrever sobre isso, se não tem força alguma para mudar nada?
Lembro uma pequena metáfora que li faz tempo: Um homem circulava num tribunal, onde se desenrolava um julgamento que poderia levar o réu à cadeira elétrica, com uma placa que dizia: “Pena de morte é crime”. Disseram-lhe: Você acha que mudará alguma coisa com isso? E ele, tranquilamente: Eu sei que não mudarei esse estado de coisas, mas o que pretendo é que esse estado de coisas não me mude…
Então, continuo a perguntar: Que direito é esse?
Maria Francisca – 27 de abril de 2107.

“Psiu! Há vida do lado de cá
As árvores balançam
Tem sol, tem céu e tem mar.
Tem gente também,
Além de um cãozinho
E um celular.”
Logo cedo, recebi um vídeo com a voz a Carmem Miranda, cantando uma música que foi sucesso há muitos e muitos anos, de autoria de Assis Valente: “Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí, em vez de tomar chá com torradas ele bebeu parati (…) Tirou o anel de doutor para não dar o que falar (…)” … Acabei de ver o vídeo e saí para caminhar no calçadão, pensando naquela bela voz que durou pouco. Quanta gente gravou essa música depois!
Fui me encontrando com pessoas com seu cachorrinho pela coleira e um celular à mão, teclando ou falando. O cachorrinho cheira uma coisa, cheira outra, a corda estica, a corda encurta e lá vão eles, como se o mundo fosse só aquilo. De vez em quando, um esbarro, uma corda comprida que impede sua passagem, mas aqueles senhores, senhoras, ou senhoritas pensam que seus lindos totós são mais importantes do que as pessoas que por ali trafegam. Às vezes é o celular que atrapalha. A pessoa fica tão distraída teclando ou falando que se esquece de que está numa via pública. Correm até o risco de atropelamento.
Pior, mesmo, é quando não cuidam dos excrementos de seus pets. De vez em quando, perco tempo observando. Olham para um lado, para outro, ninguém olhando. Disfarçam e vão saindo de fininho e lá vão ficando os excrementos para desespero de quem, inadvertidamente, pisa naquela coisa. Sou cuidadoso, correto, se alguém estiver vendo? Sozinho, não preciso ter respeito ao coletivo? Há outros que nem se importam se alguém vê. Uma senhora, por exemplo, que passa sempre na minha rua com seu cãozinho, advertida pelo faxineiro de um prédio de que não poderia jogar o excremento ali, sob uma árvore, porque não era hora de passar o caminhão do lixo, respondeu, brava e “cheia de razão”: Pago meus impostos, então posso deixar o cocô onde quiser.
Uma amiga me disse que tem inveja dos americanos, porque queria ter nascido num país onde as pessoas cuidam do coletivo. Onde as ruas são limpas. Eu disse que a questão é que nosso povo ainda não se deu conta de que a rua é também dele. Nosso problema é pensar que a coisa publica é de ninguém. Então, pode-se fazer ali o que quiser e até vandalizar, como fazem com as lixeiras que não param. Furtam, riscam, estragam.
E os cachorrinhos, que de nada sabem, vão por ali, fazendo a parte deles, enquanto os donos não se “tocam” e deixam que eles emporcalhem as ruas. Só tocam nos celulares.
Andando e pensando, esbarro numa plaquinha no calçadão com os dizeres: “Cuidado! Cocô de um cachorro Porco. Obs. O dono”. Não tive dúvida: peguei o celular (que pra isso uso) e tirei a foto que posto acima.
Melhor, mesmo, é ir escutar de novo a música, porque cachorrinho e celular, dessa forma maluca, não são comigo. Prefiro vestir uma camisa listrada e sair por aí…
Maria Francisca – fevereiro de 2017

Já li diversos autores famosos, entre os quais Rubem Alves e Clarice Lispector, dizendo-se pobres quando crianças, mas felizes, porque não se davam conta de sua pobreza.
Eu sempre soube que era pobre, mas a pobreza não me incomodava. Estudava, tinha meus livros, minhas colegas, brincava. Tinha amigos ricos e eu sabia disso, mas transitava, tranquilamente, entre ricos e pobres.
Pesquisa realizada por Celso Athayde e Renato Meireles comprova que 95% das pessoas que vivem em favelas no Rio se sentem felizes. Um terço delas não sairia dali, nem que o salário dobrasse. Segundo os autores, 80% desses habitantes têm casa própria. Essa pesquisa está no livro Um país chamado Favela, da Editora Gente. Então, pobreza não é sinônimo de infelicidade.
A desigualdade nasce da comparação: alguns autores já o proclamaram e, em especial, Rousseau que coloca a propriedade como origem de todo o mal. O fato de os homens reunirem-se em uma sociedade deu-se por autopreservação, dissera o filósofo, visto que é mais fácil resistir e combater animais selvagens quando se está em grupo. Com essa convivência teria observado o primeiro passo para a desigualdade: distinção entre o mais belo, o mais forte, o mais destro, o mais eloquente. Daí originariam os sentimentos de vaidade, desprezo, vergonha e inveja, até então desconhecidos no estado natural, recrudescendo e fincando raízes na vida das pessoas, com a propriedade.
O belo, o forte, o eloquente e o inteligente causam, sim, inveja, mas a disputa pelos bens materiais é o que tem prevalecido e provocado discórdias maiores no mundo de hoje e, porque não, infelicidade. Claro que estou falando, aqui, de pobreza e não de miséria. O miserável não tem dignidade nem sequer para pensar. Se não pensa, não tem como fazer opção. O alimento é a única coisa que pretende e a única coisa com que se preocupa. Pão. Apenas pão. Beleza, nem se fala.
Cacau Rhoden diz que vivemos em uma sociedade em que as pessoas são infelizes. Por quê? Estaríamos colocando toda a fonte de satisfação no consumo, o que provocaria uma cascata. Nunca estarmos satisfeitos: uma vez adquirido algo, desejamos mais, numa cadeia infinita. Essa insatisfação, segundo o cineasta, está em nós mesmos. E Marcia Dessen, em recente artigo na “Folha” disse que a maioria de nós não sabe o que quer. Então, programamos o cérebro para olhar à nossa volta, em relação aos outros. Queremos o que o outro tem. Olhe a comparação aí.
Claro que nós passamos essa sede de consumo aos nossos filhos. Ficamos todos infelizes por um “homem de ferro” que nosso pai não pôde comprar. Nossos coleguinhas têm e nós, não. O pai consegue aquele tal “homem de ferro”, mas aparece outro, mais sofisticado, exibido ontem por nosso colega no recreio. A comparação parte, apenas, do material, do que posso ter. E, agora, com os jogos eletrônicos, com as redes sociais? E os telefones celulares, notebooks de última geração? Os amigos têm, quero também. Se assim for, a chance é do complexo de vira-latas (expressão cunhada por Nelson Rodrigues) e a infelicidade mora aí mesmo.
A educação tem um papel importante nesse contexto de desigualdade.
O jornal “A Gazeta” de hoje (domingo, 05.02.2017) trouxe uma entrevista com Sri Prem Baba, Guru brasileiro que mora na Índia. Numa de suas respostas, disse o seguinte: “ Talvez nosso principal erro seja a crença de que a felicidade está fora de nós”.
Pois é. Esses dias escutei uma frase interessante. Uma amiga dizia que determinada pessoa tinha vocação para ser infeliz. Claro que ela disse isso sem refletir, apenas porque a pessoa vive reclamando de tudo, mas eu fiquei pensando nisso. Será que eu nunca me senti infeliz, quando criança, mesmo sabendo-me pobre, porque tenho vocação para ser feliz? Quem sabe foi a Poliana quem me ensinou o jogo do contente? Ou foi a educação que recebi que me ensinou a me preocupar mais com outras questões da vida? Será que tenho o gene da felicidade?
Mas vale perguntar: Existe vocação para ser feliz ou infeliz? Quem sabe nascemos com um genezinho da felicidade? A pensar…
Maria Francisca – fevereiro de 2017.