Nesse início de ano, minha Dama da noite resolveu presentear-me. Brotaram 8 botões, mas foram desabrochando pouco a pouco, talvez para que o presente durasse mais, pensando que eu seria como crianças, que roem aqui e acolá um doce muito gostoso para perdurar o prazer. Mas ontem, saíram do sério e, para minha alegria, desabrocharam 4 flores de uma vez.
Triste é a efemeridade dessas lindas criaturas. Duram uma noite. Estão lá, murchas, penduradas, tristes. Vão ficando assim, até caírem de vez.
Vejo-as belas e, de repente, vejo-as feias, caídas.
Assim somos nós. Jovens, exuberantes, depois velhos, murchos, até a extinção total. Somos efêmeros, finitos.
Não há, pois, como não pensar na vida, principalmente com tanta doença e, agora, com essa peste que assolou o mundo. Penso que nunca se falou em velhice, doença, morte, como agora. A imprensa não para com reportagens, faladas, escritas, virtuais ou não, noite e dia, inclusive com o número diário de mortes nos estados, uma novidade desses tempos esquisitos e tristes.
Quando alguém anuncia o falecimento de um familiar ou amigo, a primeira pergunta: qual a idade? 80 anos: Ah! Se menos de sessenta: Nossa! Tão novo!
E sai mensagem de todos os lados. A competição tomou conta das vidas. Muitos ditam procedimento e sabem tudo e, pelo visto, ninguém sabe nada. E cada um faz do seu jeito e sente-se no direito de dar receitas. Sem falar nos tais “influenciadores”. E, agora, com a discussão sobre as vacinas? Vai tomar? Eu vou, eu não vou, e por aí segue…
Como diria Brás Cubas, de Machado de Assis, a sandice tomou conta, criou amor às casas alheias e ri da razão, como se soubesse o mistério da vida e da morte. Seria necessário que a razão lhe tomasse a casa à força, expulsando-a porta afora, mas a razão está dormente, uma pena.
Ou, então, nas palavras de Xavier De Maistre (em “Viagem ao redor do meu quarto”), o homem, esse ser composto de corpo e alma, não deve voltar-se contra o corpo (que não sente, nem pensa), mas contra o animal que o habita, um “ser sensível, perfeitamente distinto da alma, verdadeiro indivíduo que tem existência à parte, tem gostos, inclinações, vontade e que só está acima dos outros animais porque foi mais adestrado”.
Tanto a obediência ao animal (de Maistre), quanto à sandice (de Cubas de Machado de Assis) podem conduzir o homem a catástrofes.
Importante que a razão vença a sandice e a alma (leve) vença o animal, para que tenhamos sempre vida, mesmo efêmera, cheia de mistérios insondáveis e, talvez, por isso, tão bela e importante para nós.
Se o céu começa aqui na terra, cabe a nós tornar esse tempo melhor, inundado de amor e ternura…Auxiliados pelas flores, por que não? Como disse Castro Alves,
“Deus ao mundo deu a guerra,
A doença, a morte, as dores;
mas, para alegrar a terra,
Basta haver-lhe dado as flores.”
Maria Francisca, janeiro de2021.
Mariafrancisca.blog.br
Uma noite dessas, sonhei que era professora de uma turma enorme de criancinhas. Lembrei-me, então, da minha juventude, início de carreira, quando era professora do “Infantil” e das historinhas repetidas a mais não poder, a pedido das crianças. E, se eu errava de propósito, em uníssono, gritavam: Não é assim!
Uma das preferidas, era de um desenho de uma boneca chamada Pituchinha. Pompom, sua parceira, perguntava: Você tem medo do escuro, Pituchinha? Não! Eu tenho medo da espada do soldado!
Logo depois, umas iam perguntando às outras, se tinham medo. Cada criança contava sobre um medo. Imaginem um debate com crianças de 4 a 5 anos de idade… E todas queria falar ao mesmo tempo. Tivemos que estabelecer um mediador em cada historinha.
Bem. Isso faz tanto tempo… Mas fez-me meditar sobre nossos medos.
Era domingo. Aproveitei a manhã ensolarada e saí para caminhar. Segui pelas ruas vazias, desertas, até o convento da Penha. Comecei a ficar com medo daquela rua sem ninguém. Que será? Que silêncio é esse? O perigo mora em qualquer esquina, sabemos disso. Então, se algo acontecer, quem me socorrerá? Seria esse o medo da solidão? Ou de ladrão? Nos jornais, e mesmo a olho nu, vemos assaltos para todos os lados. Seria a confirmação da distopia? De vivermos fechados nos prédios, com medo da violência?
O pior é que não fui para o calçadão, devido à quantidade de pessoas circulando por ali, sem qualquer cuidado. Formando “bolinhos” na calçada, sem máscaras, ou seja, o medo fez-me optar por outro espaço. Medo de gente? Medo de doença? Medo de contágio da terrível covid que tem matado centenas, velhos e novos?
Deixei a emoção e busquei a razão: não caminho na beira da praia com medo da covid. Não caminho na rua, ora com medo da solidão, ora com medo de gente (assalto). Então, vou ficar encerrada em minha própria masmorra?
Por incrível que pareça (há sempre uma coincidência?), recebi de uma vizinha um livreto do Pastor Hernandes Dias Lopes sob o título: “Natal: a vitória sobre o medo”. Trata dos nossos diversos possíveis medos, dentre eles, o da COVID-19 e da violência.
Sobre a violência, ele diz: “A violência está nas ruas, nos corredores do poder e dentro das famílias. (…) Há violência do forte sobre o fraco, do rico sobre o pobre, dos governantes sobre os governados. (…)Muitos têm medo da violência. Medo de sequestro, medo de bala perdida. Há violência física e violência verbal. Muitas pessoas são massacradas com palavras que ferem mais do que espada.”
Quanto ao medo da Covi-19, diz o Escritor: “Um pequeno vírus parou o mundo. (…) Precisamos de prevenção e cautela. A nossa fé não nos imuniza. (…) Aprendemos, de igual forma, que ricos e pobres estão sob os mesmos riscos. Nenhum palácio pode proteger os poderosos.”
Aqui, faço a minha reflexão. Apesar de pobres e ricos estarem vulneráveis, os pobres, sempre, estão muito mais. Pelo trabalho, pelas necessidades, pelo tipo de moradia etc. E, além disso, o acesso ao tratamento não é igualitário.
Então, como vencer o medo? Vamos aos conselhos do Digno Pastor. “Precisamos administrar os temores que assaltam nosso coração. (…) O medo atormenta e oprime. Tira nossos olhos de Deus para colocá-los nas circunstâncias. O medo apequena a fé, enfraquece o amor e escurece a esperança. (…)”.
A confiança em Deus ajuda-nos, pois, a vencer o medo, a enfrentar os perigos, as adversidades, a doença, a velhice e tudo que nos ronda, tira-nos o sossego, e nos afasta da espiritualidade. “Porque Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor, e de moderação” (2 Timóteo, 1.7).
Vamos, pois, ter cautela, obedecer à orientação da ciência, cuidar de nós, respeitar e cuidar do outro, e permanecer na fé.
Por fim, pensemos num Natal abençoado, amoroso, compassivo, e, como consta do livreto: Que tenhamos um Natal com a vitória sobre o medo.
E que 2021 venha com mais esperança e alegria.
Maia Francisca – dezembro de 2020.
O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplice entre os próprios oprimidos. (Simone de Beauvoir)
Reabri “Um Mundo Feliz” de Aldous Haxley e deparei-me com esta análise na introdução, na pena de Rafael Riva, em tradução livre: “Haxley descreve-nos o caminho que vamos percorrendo neste mundo de consumismo voraz. Transitamos numa ditadura com aparência democrática, com um cárcere sem muros, de onde ninguém pensa em fugir, condicionados que estão e até agradecidos com a situação de servos. Tudo graças a um sistema generalizado de consumo”.
O livro foi escrito em 1932. Há 87 anos, pois. Vidente? Muito do que ele escreveu, acontece hoje. Os livros do Haxley são assim, como 1984 de Orwell.
Efetivamente, vivemos numa escravidão. O consumismo escraviza-nos e nem sentimos. Estamos bem. A mídia, os produtos maravilhosos anunciados, a última geração de celular…E, assim, vamos nos afastando uns dos outros, com medo do “olho no olho”, isolando-nos em nosso mundinho de whatsapp, instagram, twitter etc. E tome depressão.
Orwell (in 1984) fala do controle pelo grande irmão que tudo vê, impondo sua moral. O Big Brother, programa de tv, ao contrário do grande irmão do Orwell, prega o liberalismo pessoal, mostra tudo e todos que ali estão se expondo para os telespectadores, por dinheiro, escravizante, da mesma forma, como bem salienta Veríssimo, na crônica ‘O Grande Irmão”. “A câmera indiscreta a serviço da ideia obsessiva de organização social, deu lugar a uma obsessão maior, a vontade universal de saber o que se passa na casa do vizinho”, diz Veríssimo.
A ideia da câmera bisbilhoteira pegou e virou ditadura, da mesma forma. A bisbilhotice passou a ser normal e as conversas cara a cara ficaram de fora.
Temos, então, diversos cárceres modernos, em que nos enfiamos por querer, sem querer, levados pela mídia, pelo consumo, pelo modismo.
Frei Betto (no lançamento do livro; “A felicidade foi-se embora?”) disse que a televisão optou pelo entretenimento. E para obter ganho, a publicidade, feita exatamente para manipular-nos e excitar nossos desejos. Quem não consegue obter um bem que ali está anunciado, sente-se humilhado, “na janela da mídia, como quem folheia uma revista de variedade, para admirar famosos e ricos… No dizer de Fernando Sabino, como quem masca chicletes. Acaba o sabor, mas ficamos ali, mascando, mascando.
Em algumas famílias, quando cada um não está no celular, está à frente da tv, do computador, até no horário das refeições.
Uma amiga disse-me, outro dia, que eu estava sumida. Eu disse: Vi você na academia de ginástica. Não quis abordá-la porque você usava repelente. Ela assustou-se: repelente? Sim, repelente de gente: celular e fone de ouvido.
Em qualquer ambiente, seja restaurante, consultório médico, aeroportos, lanchonetes, as pessoas não se falam mais. Ficam ali, firmes no celular, digitando, bisbilhotando, lendo ou sei lá o quê.
Há algum tempo, você poderia até fazer amigos nesses lugares. Hoje, esqueça! Todos ocupados com suas redes sociais (nem tão sociais assim). Ou seja, estão usando repelente. De gente.
Se chegamos e puxamos conversa, uma conversa boba do tipo “calor, não?”. A pessoa responde automaticamente: é. Sem sequer olhar quem falou. Pode até estar fazendo um frio danado.
No calçadão, não ouvem o cumprimento, concentrados que estão no repelente. Uns até nos esbarram. Alguns, de bicicleta, na ciclovia, com criança na cadeirinha, olhando celular. Nem veem o perigo que correm.
Como disse Wilhelm Reich ao “Zé Ninguém (1948)”: Eu gostaria apenas que fosses tu próprio, em vez de jornal que lês ou da balofa opinião do vizinho”.
Vivemos, ou não, numa escravidão consentida?
Maria Francisca – outubro de 2020.
Acordei cedo. Raios do novo dia inundavam o quarto.
Na varanda, surpresa agradável: o pé de Bouganville, que chamo carinhosamente de buganvília, uma semana antes totalmente desfolhado, murcho e triste, agora carregado de flores. Fiquei ali um tempão admirando os lindos brotos, e bendizendo a natureza.
Daí a pouco, abri meu celular e encontrei um link enviado por um amigo.
Obra da tecnologia que, de vez em quando, xingo de Procusto, ou “Grande Inquisidor”, por me escravizar, e eu cada vez mais ligada a ela, ou mais escrava, trata-se de uma biblioteca virtual. Basta clicar no link para baixar gibis e livros. E, doente por livros, lá fui eu olhar.
Coincidência ou não, o primeiro era “Leilão de jardim”, de Cecília Meireles.
“Quem me compra um jardim com flores, borboletas de muitas cores, lavadeiras e passarinhos, ovos verdes e azuis nos ninhos, quem me compra este caracol? Quem me compra um raio de sol? Um lagarto entre o muro e a hera, uma estátua de primavera? Quem me compra este formigueiro? E este sapo que é jardineiro? E a cigarra e sua canção? E o grilinho dentro do chão? Este é o meu leilão”.
Eu não tenho um jardim assim. Não tem sapo, grilinho… tem raio de sol.
No meu jardim, vicejam plantas e mais plantas, orquídeas comuns, orquídeas de bambu, jasmins, antúrios, damas da noite… E todas resolveram florir.
A dama da noite é maravilhosa, mas dura apenas uma noite, como o nome diz. A flor brota na folha da planta. Eu, ali, em vigília, todas as noites, para assistir ao seu desabrochar, demorado… Depois, fico por perto, tirando fotos, guardando a lembrança… Sim, dia seguinte, murcha, pendurada, como se estivesse cansada da beleza da noite, e do meu assédio.
No meu jardim, tem aves e sua cantoria. Pena: As aves pousam e fazem sua apresentação, às vezes solo, às vezes em bando, só na tela de proteção. Não conseguem entrar para termos os ninhos, os ovinhos, contemplarmos a renovação dessa vida.
Sim. Renovação da vida. A Primavera. Por isso, o florescer da buganvília, símbolo dessa bela estação do ano.
Saímos do inverno, este ano mais triste, com a pandemia, e entramos nessa fase de clima ameno, sol que aquece os corações, sem tisnar a mente, e tudo se renova.
Até o mar parece mais calmo e mais azul.
Que venham o sol, as flores, a paz na alma e que a vida se renove sempre.
Maria Francisca – outubro de 2020.
Passarinhos inocentes,
Em bando, mal nasce o dia,
Dançam, cantam, alvoroçados
Na algaravia articulados.
Findo trinado, alçam voo
Ora grupo, ora solo,
De vento em vento,
Vêm e vão, a todo tempo.
Eu, passarinho inocente,
Cantava em bandos, em brados.
Poesia à espera de mim
Exalava nos sonhos, sonhados.
Hoje, pensante, aqui pasma.
Num canto, sozinha, nas redes,
Nas roças, nos cantos, quieta…
Procuro, em vão, da poesia,
A receita.
Que a roubou de mim?
Os sonhos escureceram
Sobram arrulhos, orgulhos
E, da rua, bandos em brados.
Quando o sol chegar…
Ah! Quando o sol chegar!
Maria Francisca – outubro de 2020
Eu leio muito rápido.
Entretanto, há três motivos que fazem lenta minha leitura. O primeiro é quando o livro demanda calma para ser entendido, ou melhor, assimilado. O segundo é quando é enfadonho, mas, mesmo assim, vale a pena a leitura. O terceiro: o livro é muito grande. Reparto em partes e vou lendo pouco a pouco, senão, fico só nele, privando-me dos demais por algum tempo. Assim foi com Gabriel Garcia Marquez, em “Viver para Contar”.
Agora, a minha leitura de “Normose” atende ao primeiro requisito. Preciso ler com vagar, para melhor entender o que dizem os autores Pierre Weil, Jean-Yves Leloup e Roberto Crema. Belo livro, belos ensinamentos.
E essa leitura levou-me à releitura do conto “Espelho” de Machado de Assis.
Ouço, de vez em quando, colegas aposentados reclamarem que estão invisíveis, ou seja, não são mais convidados para festas, não recebem telefonemas dos colegas em atividade, de outras pessoas etc.
Já escrevi sobre o palco iluminado (A luz, a ponte e o palco, do livro “Caminhos”) onde estamos inseridos por algum tempo, dá-nos visibilidade e no faz parecer maiores. As pessoas veem-nos apenas quando estamos no palco. Isso ocorre, mesmo, e não temos como nos livrar disso. Às vezes, até gostamos.
Nesta semana, li uma reportagem sobre um Juiz que concedeu habeas corpus a um jovem que estava preso. Esse caso deu o que falar, conforme registra a notícia. Um dos motivos, ambos negros, segundo se disse. O Juiz falou (UOL de 13.09.2020) que ainda era discriminado. Quando estava na rua, sem a pompa do cargo, era apenas um negro. Ele sentia isso. Com a toga, ele era o juiz e livrava-se da discriminação. Sim, há discriminação. Não temos dúvida.
Pior é quando nós mesmos só nos vemos quando estamos investidos de algo que consideramos importante.
Jacobina, personagem de Machado de Assis (O Espelho), disse que o homem tem duas almas. Uma, exterior, e uma interior. A exterior pode até mudar com o tempo, e costuma obliterar a interior, se se tornar muito forte. Ele conta a sua própria história de quando se tornou Alferes. Só se via como Alferes. Todos o tratavam com tanta distinção, que começou s sentir-se “O Alferes”. E nem se via mais como antes, um ser humano comum. Alguns fatos ocorreram na família, entretanto, e ele ficou sozinho, solitário, mesmo, durante muito tempo. Sem usar a farda e sem nenhum rapapé, sua imagem no espelho desaparecera de tal sorte, que virou apenas uma sombra. Horrorizado com o fato, ia e vinha em frente ao espelho e só sombras. Até que resolveu vestir a farda e olhar-se novamente no espelho. Aí, sim, era, de novo, o Alferes.
A moral dessa história assemelha-se ao versículo do Evangelho de Mateus (6:21) que diz: “Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração”.
Esse apego ao cargo e ao poder, segundo Pierre Weil, é sintoma de normose. É sentimento de superioridade de si mesmo em relação aos demais à sua volta. Daí nascem o orgulho e a vaidade.
Se nós mesmos nos vemos apenas como juízes, se não desvestimos a toga quando estamos em casa, na rua, como disse o juiz da notícia, estaremos sempre querendo ser tratados como juiz, esquecendo-nos da nossa condição de pessoas. Não podemos deixar o cargo obliterar a pessoa comum que há em nós. Senão, quando estivermos aposentados, seremos como Jacobina, nosso espelho só terá sombras, e não nos veremos mais.
É claro que juízes são tratados de forma reverente. A reverência é do cargo. Mas o cargo não sou eu. Estou no cargo. Passageiro no cargo, como passageiro na vida.
Por isso, é importante separarmos o amigo do cargo, do amigo de verdade. Plutarco já disse que é preciso distinguir o amigo do bajulador.
Fiz uma brincadeira com o Alferes. Resolvi vestir a toga que tenho guardada de lembrança e ir ao espelho.
Que nada… Estava lá eu, euzinha…
Maria Francisca – setembro de 2020.
Esses dias, vi num jornal uma foto de um bonito jovem, com uma legenda mais ou menos assim:
“André (nome fictício) aproveitando o belo sunset na praia”
Fiquei a imaginar o que leva uma pessoa a usar uma palavrinha em inglês para algo que, falando no nosso português, seria muito mais bonito. Falo só por mim, mas acho a expressão “pôr do sol” tão linda que eu jamais iria substitui-la por sunset.
Sei que até as palavras caem de moda. Queima, de um tempo mais distante, passou a liquidação, depois, inglesou, virou off. Farmácia é drugstore, entrega em domicílio é delivery, ao vivo é live e assim, por diante.
Então, resolvi entrar na onda, trazendo o título em inglês.
Brincadeiras à parte, quero, mesmo, é falar de egoísmo. O dicionário Caldas Aulete traz o seguinte: amor-próprio; exclusivismo, solipsismo, filáucia, orgulho.
Solipsismo e filáucia ficarão para outra oportunidade, antes que me perguntem: Filosofia numa hora destas?
Falemos de orgulho, amor-próprio, exclusivismo.
Orgulho é um dos pecados capitais. Entretanto, há orgulho e orgulho. Você pode se sentir orgulhoso, feliz, por algo belo que conseguiu realizar. Você sabe quem você é, tem amor-próprio, autoestima, sem achar-se melhor do que qualquer outra pessoa. Essa atitude jamais poderia ser condenada. E, no meu entender, não pode ser confundida com egoísmo, apesar de constar em dicionário.
Orgulho, pecado, é entender-se melhor do que os outros, é desdenhar das pessoas que o orgulhoso julga menor. Já escrevi um texto que, no linguajar moderno, viralizou – Juizite – foi objeto de publicação de muitas revistas e jornais, neologismo para designar o juiz pedante, ego soberbo, que se vê melhor do que os outros, e consta do meu livro “Caminhos”. Da mesma forma, um senhor que, tentando furar a fila em aeroporto, gritou: Sou diamante, minha filha! É o narcisista.
E já que falamos em inglês, o Oxford Learners’s Dictionary registra selfish em tradução livre, como “preocupando-se apenas consigo mesmo e não com outras pessoas” (caring only about yourself rather than about other people).
O egoísta, mesmo, é o exclusivista, só pensa em si, sem se importar com ninguém mais. Se é exclusivista e pensa só nele próprio, é, também, mesquinho, sovina, avarento.
São pessoas que não conseguem dividir nada. Pão-duro, canguinha, unha de fome, mão de finado, Tio Patinhas – são alguns dos apelidos para os sovinas.
Fica-se pensando o que faria a pessoa ser assim. Por que muitos gastam até o que não têm, outros são generosos, mas prudentes e, outros, ainda não conseguem dividir nada?
Li o seguinte na Revista Super Interessante que “A ciência segue em busca dos motivos para esse comportamento antinatural. O que se pretende saber é se existem áreas do cérebro capazes de desencadear a cobiça e, consequentemente, o desejo de ter mais e mais.”
O biólogo Michael Soulé lembra, no mesmo artigo, que “pelo menos dez diferentes centros no cérebro são ativados quando a pessoa tem impulsos para praticar inveja, orgulho, ódio, gula, preguiça, luxúria e avareza, a maior parte deles localizada no sistema límbico, responsável pelas emoções.”
Mas a avareza, segundo a psicologia, pode ser desencadeada por um medo, nem sempre real. Se a pessoa passou fome quando criança, rico, quer sempre guardar, com medo de lhe faltar comida no futuro. Será?
Mas vejo ricos avarentos, pobres avarentos, e isso pode ir passando de pai para filho. Não de forma genética, mas pelo exemplo, penso.
Claro que precisamos de dinheiro para nossa sobrevivência e ter dinheiro não é pecado. Ter uma poupança para os momentos de aperto é louvável. O pecado é o apego excessivo aos bens materiais, e viver, muitas vezes, de forma precária, com pena de gastar o dinheiro, simplesmente pelo apego. E ajudar algum necessitado? Nada. Isso, sim, é triste.
E há, ainda, aqueles que só querem receber elogios, mas não dão atenção ao que os outros fazem. Hoje, então, com o mundo digital…Muitos só querem like, mas não dão a mínima atenção para o que os outros postam, mesmo amigos. Isso, também, é egoísmo.
“A Humanidade está precisando de colo”. Assim começa uma entrevista do cantor e compositor Renato Teixeira, no caderno 2 da Tribuna de 18.08.2020.
Disse que a solução para resolver o problema do mundo é maternal. Deve-se ter compreensão, afeto e carinho, porque o formato do mundo que conhecemos acabou.
Complemento com meu pensar: quem espera só receber colo, nunca o terá. Pode receber por um tempo, depois…Minha praga? Não! Vivência. Como em para-choque de caminhão: “Os egoístas morrem sozinhos…”
Queremos colo, sim, mas vamos também dar colo, sorriso, a mão, ajuda financeira, quando pudermos, que o mundo ficará melhor.
Maria Francisca – agosto de 2020.
O jornal “A Gazeta”, do Espírito Santo, numa de suas últimas edições impressas, traz uma matéria em que o entrevistado fala de algo “que não vende, não troca nem doa”, pelo apreço que tem por aquele objeto, que, nem sempre, é algo de valor material ou comercial. É uma lembrança, de valor, digamos, espiritual.
Leonardo Boff explica muito bem esse valor, que denominei espiritual. Diz ele (in ‘Os Sacramentos da Vida e a Vida dos Sacramentos’): “Toda vez que uma realidade do mundo, sem deixar o mundo, evoca uma outra realidade diferente dela, ela assume uma função sacramental. Deixa de ser coisa, para se tornar um sinal ou um símbolo. Todo sinal é sinal de alguma coisa ou de algum valor para alguém. Como coisa, pode ser absolutamente irrelevante. Como sinal, pode ganhar uma valoração inestimável e preciosa.”
Por isso, quando um filho ou neto faz um desenho para nós, guardamos com um carinho que não se pode medir. Pode ser um desenho tosco, mas feito para nós. Ali não está um desenho apenas, está o amor do filho ou do neto.
É o sinal do amor, do carinho.
Quando ganhamos flores de alguma pessoa especial, sentimos um bem-estar muito grande, porque as flores não são apenas flores, são a amizade, o amor e o carinho da pessoa que nos presenteou. E ficamos com pena quando murcham. Eu, por exemplo, tiro aquelas florezinhas e guardo numa caixinha. De vez em quando, olho. É uma coisa, mas é um sinal. Por isso, vira sacramento e rememora a gentileza daquela pessoa que nos ofertou.
Só não se pode fazer como meu marido. Comprou as flores e, para fazer-me surpresa, colocou o ramalhete debaixo da cama. Murcharam todas, que pena… Mas eu gostei, assim mesmo. Guardei as flores, mesmo murchas.
Um livro com dedicatória de um amigo, mais um exemplo, é pérola a ser guardada debaixo de sete chaves.
Há pouco tempo, um amigo viu um livro, autografado, num sebo. Ele me perguntou: Você já viu alguém mandar para o sebo um livro dedicado a ele? Eu, na maior tranquilidade, respondi: Já vi até um meu… Ele riu e nada disse.
As pessoas não pensam da mesma forma. Talvez, foram ao lançamento por gentileza, apenas, talvez não tenham gostado do livro, não gostam de ler. Precisavam do espaço etc. Aconteceu até com Reinaldo Polito, conforme contou na sua coluna uol , de 07.07.2020. Deu seu primeiro livro, o primeiro exemplar, com autógrafo, para Martha Rocha, a bela Miss Brasil, recém falecida. Depois de um tempo, encontrou-o num sebo.
Eu guardo meus presentes, com muito carinho, seja o que for.
Ano passado, entretanto, doei todos os meus livros de Direito para a UFES. Para não voltar atrás na doação, apegada que era a eles, fui tirando todos da estante, sem olhar, colocando numa caixa, fechando e levando para a biblioteca. Só depois lembrei-me dos livros de afeição que estavam juntos. Alguns eram absolutamente impossível não guardar, tamanho o amor por eles. Deu-me uma tristeza enorme, vontade de correr lá, abrir todas aquelas caixas e retirar os livros-sacramentos. Mas como fazer isso, sem passar vexame?
Pensei: E, agora, José? Doei e arrependi-me.
Resta-me olhar para a estante, sentir saudades deles e pedir perdão aos meus queridos amigos que me fizeram o presente.
Maria Francisca – julho de 2020.
Cansada de olhar pela varanda, resolvi sair de casa hoje. Queria vencer o marasmo e a inquietude. Pensei, assim, retomar a compostura habitual. Andei devagar, subi 16 degraus, mais devagar ainda, e cheguei. Ao terraço.
De lá, olhei pra longe. Só se via prédio, porque uma grade de proteção impedia a visão do mar, das ruas, dos carros, apenas navios pequenininhos ao longe.
Mas via o céu. Não tinha uma nuvem. Limpo e azul este céu de Vila Velha. O sol, aproveitando-se da liberdade, brilhava o quanto podia. E podia muito, porque daí a pouco eu já sentia calor.
Fiquei um tempão olhando pra cima. Cansei. Resolvi caminhar ali mesmo. Dei voltas e mais voltas. Cantei baixinho, rezei dois terços, recitei poemas, inventei versos (que esqueci um minuto depois).
Então, comecei a dar corda à imaginação. Respirei fundo, inspirei, expirei diversas vezes, tentando entrar no clima. Nada.
Cantei, ora esganiçada, ora rouca, tentando vozes e vozes distintas. Nada. Nada adiantava.
Retornei do meu “grande” passeio e abri o whatsapp. Comecei a rir, da primeira coisa que vi. Uma mensagem de um colega, em que uma pessoa dizia que estava com uma mancha amarela no corpo (já fiquei atenta) e, depois de exames e mais exames, descobriu-se a doença da inércia: mofo.
Então, lembrei-me de um fato acontecido nos idos anos 80. Morávamos em Salvador. Uma senhora de outro Estado estava na casa do filho que morava naquela cidade. Um dia, ela foi visitar-nos, agradável surpresa, e, quando ia embora, fui levá-la até a portaria do prédio. Ao entrar no elevador, cuja luz era bem forte e clara, ela olhou-se no espelho e disse: Puxa! Como envelheci nesta Cidade. Olhe como estou cheia de rugas. Nossa! Estou horrível. Eu disse: Não, a senhora está ótima. Ela apenas riu.
Em verdade, eu precisava ter dito é que ela estava tal qual havia chegado à cidade, porque estava ali há menos de uma semana. Mas seria grosseiro de minha parte.
Ontem, aconteceu comigo algo parecido. Tive que ir à portaria receber um objeto que uma amiga comprara para mim, e vi que ela me olhou com estranheza. Na hora, não entendi, mas não dava tempo de perguntar, porque estava parada na rua e teria que ser rápida. Em casa, olhei-me no espelho e vi. Estava péssima. Com uma roupa velha, horrível, o cabelo preso com um grampão e com a tintura vencida, um corte mais do que tosco (feito por mim), de chinelo velho, enfim, da pior forma. Depois, ri. Minha amiga deve ter pensado que eu estava muito velha e mofada.
Pois é. Fiquei muito velha, feia e mofada nesse isolamento.
Culpa do bicho-corona.
Maria Francisca – Final de Junho de 2020.

Tenho uma palavra na ponta da língua.
Herança de minha mãe, último tom, numa casa sempre cheia. Ora crianças, ora compadres, comadres, afilhados, parentes, todos juntos, e mais quem viesse. E a palavra se fazia ouvir de cada canto da casa. O barulho do mundo estava lá.
A palavra dava-se em brados, como se fora um profeta a alertar o povo para o fim do mundo. Poeta algum naquele meio, tampouco orador ou juiz. Mas a palavra era a arma de todos naquele ambiente alegre e ruidoso.
Se um pequeno silêncio se fazia, quem estava fora do grupo acorria, como se um acidente ocorrera. Palavra, palavra, palavra, tudo era palavra. Cantada, falada, discursada, armada ou desarmada.
Palavras escritas iam e vinham em cartas e mais cartas.
Meu pai, ao contrário, era a pausa, o intervalo de silêncio naquele vozerio sem fim. Sua palavra silenciosa era o olhar. Olhar calmo, bondoso, ou zangado, que obedecíamos como se fora um grito.
Eu amava o silêncio do meu pai. Eu queria seu silêncio, eu precisava do silêncio de meu pai, para mim. Só não conseguia alcançar seu horizonte, porque eu sentia e via tudo à altura dos meus olhos. Por isso, herdei a palavra de minha mãe, seu tom e sua destreza no dizer. Às vezes, quero silenciar, mas a palavra sai. Não é minha, não a conduzo, ela simplesmente é a palavra.
A família tornou-se ruidosa por essa herança. Quando se juntam, é sempre festa, alegria, risadas, palavras, palavras… Tudo vira piada, sempre lembrada e relembrada por todos, passando de geração em geração. As mesmas. Usadas, usadas, sem perder a substância.
Um conclave? Poderia pensar alguém que chegasse na hora.
Não, apenas reunião de família. Família de palavras. Nada de açoites. Palavras leves. Carinho, apenas carinhos ruidosos.
Carinho em palavras.
Maria Francisca – maio de 2020.