Maria Francisca - Blog da Maria Francisca Lacerda, escritora e poeta. - page 6

 11 de março de 2022 

Estou relendo “O tempo e o vento” de Érico Veríssimo.

Quando, ao pesquisar na biblioteca pessoal, encontro algo de que gostei muito, tenho esta mania: pego para ler de novo. Érico Veríssimo é mestre em me fazer reler seus livros.

Fico a imaginar como era aquele mundo ali descrito: o povo vivia num lugar tão distante do resto do mundo, sem escolas, sem nenhum povoado por perto, sem socorro médico, sem relógio nem espelho (pra quê espelho? Coisa do diabo!, dizia o velho Terra), que contava o tempo pelo vento. Vento demais, sol demais, frio demais, calor demais, florescer… E as guerras? Guerras e mais guerras, além de bandidos que matavam, pilhavam e deixavam todos mais pobres ainda. Esses pobres, muito pobres, miseráveis, não eram considerados cidadãos, viviam em bairros imundos. Claro que, nos volumes seguintes, já se falou de progresso, mas muita coisa continuou e continua igual, ainda hoje. A pobreza e a política do poder, por exemplo.

Na era do metaverso, uma realidade virtual, onde já é possível até o assédio, o toque virtual, como li hoje, num artigo, os homens continuam se matando pelo poder. Uns se matam literalmente, como nas guerras, assassinatos encomendados, controle de tráfico de droga. Outros, com palavras caluniosas, frases ofensivas nas tais redes sociais, e ainda conseguem seguidores. E a miséria humana continua em todos os lugares.

Voltando ao livro de Erico Veríssimo, observei que não lera tudo, pois o romance histórico, se é que posso denominá-lo assim, tem 3 grossos volumes e eu lera apenas os livros esparsos: Ana Terra, Um certo Capitão Rodrigo, o retrato etc.

Os dois últimos volumes trazem, além de outros fatos ficcionais, a história do médico Rodrigo Cambará, da família Terra Cambará, de Santa fé, cuja saga mistura-se com os eventos históricos do Rio Grande do Sul e do Brasil no período de 1626 a 1945.

Rodrigo foi o único daquele clã que terminou o curso superior. Era  médico. Volta para sua cidade cheio de alegria e coragem. Abre seu consultório e começa a atender pacientes da periferia, como era de seu interesse, desde sempre, porque sabia da pobreza do povo, e se compadecia deles.  Só que, saber de uma coisa por ouvir dizer, saber de pobreza por ler nos livros, sem nunca sentir na pele, é uma coisa completamente diferente.

“Rodrigo comovia-se até as lágrimas diante da miséria descrita em livros ou representada em quadros”, mas diante dos miseráveis que iam ao seu consultório, sentia repugnância. E achava difícil amar aquela “humanidade sofredora”, porque era feia, suja, malcheirosa. E, quando saiam do consultório, ele tratava de abrir as janelas, para entrar o ar, dava um jeito de tirar aquela roupa, tomar um banho, tamanho o asco que sentia. Isso, apesar de tratar com todo cuidado aquelas pessoas. Era uma caridade fria, uma piedade sem calor humano.

Não tive como não relacionar essa ficção sobre o Rodrigo com a história verdadeira de Jose Falero, também daquele Estado, cujo livro “Em que mundo tu vive?”, acabei de ler. Segundo sua biografia, era pobre, muito pobre. Agora, escritor requisitado. Há, nesse livro, suas experiências como trabalhador, auxiliar de construção, repositor de supermercado, como estudante da EJA e, claro, de fome. Numa das crônicas, ele diz que muita gente acha que passar fome é não ter o que jantar um dia, apenas. Ele viveu a vida de pobreza, sabe o que é a pobreza de senti-la no corpo e na alma. E conheceu a fome.

Como é sempre uma ideia chamando outra, lembrei-me do que minha mãe dizia. Éramos muito pobres, mas sempre tivemos o que comer.  Então, se alguma de nós falava: Mamãe, estou com fome, ela dizia: Menina, você não sabe o que é fome! Falava isso tão brava! E completava: Você pode estar com vontade de comer e não com fome!

Ela, sim, vivia no meio daqueles pobres de minha cidade, e, muitas vezes até os trazia para dentro de nossa casa, sempre dando um jeito de oferecer comida para os famintos. Ela sabia, sim, o que era a fome, por estar ali com aquelas pessoas, e sentir empatia por eles. E não a fome que sentíamos ou a fome de um jantar. José Falero também sabia o que era fome e expôs a situação em diversas crônicas.

A história do Dr. Rodrigo Cambará passa-se no século 20, mas, neste nosso Brasil, a fome ainda impera. No ES, segundo o noticiário, 10% da população vive em extrema pobreza: nas periferias, nas ruas, bem pertinho de nós, muita gente vivendo em condições indignas, pedindo socorro.

Se você não sabe disso,  vale a pergunta-título do livro de José Falero “Em que mundo tu vive?”.

Maria Francisca – Fevereiro de 2022.

 

 

 13 de fevereiro de 2022 

Hoje li uma bela crônica do meu amigo Quixote das Gerais sobre “O silêncio mais gostoso de ouvir”.

Fui lendo e relembrando as lindas músicas que falam de silêncio, dentre elas, “O silêncio está cantando”, do Padre Zezinho (“O silêncio está cantando uma canção de amor e paz”).

E um “silêncio gostoso de ouvir” se fez sentir no mais profundo do meu ser.

Eu me despedia da Presidência do TRT.  Acabara de participar da última reunião do Colégio de Presidentes, em Brasília, mas meu voo de volta pra casa seria apenas à noite.

Então, lembrei-me de despedir de Brasília com uma visita à Igreja de Dom Bosco. Já era minha intenção fazer essa visita há muito tempo. Acessara o google para ver algo sobre a Igreja (Os vitrais da igreja Dom Bosco (Brasília) | Patrimônio belga no Brasil (belgianclub.com.br). Lera, mais ou menos, o seguinte:

O Santuário Dom Bosco, construído em homenagem ao padroeiro de Brasília, São João Belchior Bosco, é uma obra de luz. Suas paredes são formadas por altas colunas que se unem no alto em arcos góticos. Os vitrais com tonalidades de azul com pontilhado branco, partem de tons claros num suave degradê, até atingirem tons mais escuros. Colunas de vitrais róseos complementam a suavidade do local. Do lado de dentro, a sensação é a de se estar sob um céu estrelado. A combinação róseo-azul cria um ambiente de mistério interior.

Pois bem. Tinha tempo, por isso, fui caminhando por aquelas ruas e praças apinhadas de gente trabalhadora, uns cortando cabelo, outros consertando roupas, gente simples, de periferia, penso, diferente daquelas pessoas elegantes que habitam os belos prédios e frequentam os shoppings, perto do hotel onde eu me hospedava.

Brasília é um poço de contradições, como já dissera numa crônica faz tempo.

Caminhei, caminhei, e cheguei à Igreja Dom Bosco. Belíssima! De tirar o fôlego. Entrei pé ante pé, como se estivesse com medo.  Uma música suave tocava, não sei saindo de onde. O resto era silêncio. Um silêncio acolhedor, que me obrigou a parar no meio da nave, quieta, como se algo me tolhesse os movimentos. Fiquei ali a olhar para o belo altar, a luz azul fluía, coando raios que se encontravam distantes, nas paredes opostas. Realmente, um ar misterioso tomava conta do ambiente e a sensação era, mesmo, de estar sob um céu estrelado.

Fiquei ali por um bom tempo. Depois, caminhei devagar e fui sentar-me num dos bancos, extasiada, os olhos fixos naquela luz, minha alma sentindo o silêncio que parecia cantar, pedindo paz, como na música do Padre Zezinho.

Ninguém apareceu. E eu, agradecida por estar sozinha, sem perceber, comecei a rezar em voz alta, suavemente, para agradecer a Deus pelos dons que recebera em toda a vida.  Minha voz saia entrecortada, como se eu tremesse, tamanha a emoção de estar diante do Mistério. Fiquei naquela postura longo tempo, perdida nas minhas orações, o coração alegre e agradecido, tanto, tanto, que mal observei que os tons azulados começavam a modificar-se.

Acordei daquele êxtase, quando percebi que o dia estava escurecendo e daí a pouco eu estaria num voo, de volta ao Espírito Santo. Saí apressada, ainda com aquela gostosa sensação de paz que só se desfez quando entrei no avião, em face do vozerio dentro da aeronave.

Não mais retornei a Brasília, mas uma lágrima teima em escapar quando me lembro desse meu silêncio naquela bela igreja.

Maria Francisca – Fevereiro de 2022.

 

 

 5 de fevereiro de 2022 

POCOU, CHEFE!

– Pocou, Chefe!

– Anda, anda! Lerdeza!

– Tô procurado o que pocou, chefe, pera aí.

– Ô, Ô, anda, que bosta é essa?  Vem trabalhar…

Diálogo que ouvia hoje, enquanto fazia alongamento no final da Praia da Costa, perto do antigo Clube Libanês.

Um senhor chegava com um carrinho de mão, cheio de coco, de cima do calçadão, despejava lá embaixo, na areia.  Espalhavam todos. Uns “pocavam”.

Um jovem ia pegando, jogava um por um perto de uma barraca que vendia coco na praia, levantando a areia pra todo lado, na maior displicência.

Um outro senhor vinha de outro lado e gritava com o que estava jogando os cocos, falando palavrões…

Fiquei por ali, pensando nesses trabalhadores e não pude deixar de lembrar de uma dessas histórias pra ensinar a viver, como gosto de apelidar certos contos.

Um trabalhador chega em casa muito chateado, porque levou uma bronca do patrão. À primeira palavra da esposa, dá-lhe uma boa “patada”. A esposa vai fazer o jantar, o filho chega choramingando e ganha uma palmada. A criança vai para o quintal da pequena casa, chorando, o cão começa a lamber-lhe o pé, e ganha um chute.

Só não sei quem era o mais frágil na história do coco. Penso que todos.

Tive vontade de entrar na “briga” e dizer: Parem… Por que se ferirem assim?  E já que todos estão no mesmo barco, por que não se ajudam mais? Mas me acovardei, nem sei por quê. Talvez por medo de “barraco”, ou para não desagradar às pessoas, como disse Falero na crônica “Passe livre”, ou como ouvi numa palestra, com medo de me mostrar out.

Sei não. Penso que eu fiquei foi a desculpar aqueles três: Num dia de sol e mar, muitas pessoas na praia… Por que não estou na praia aproveitando essa beleza? Por que eu tenho que dar duro, enquanto outros estão se deleitando?

Será que estariam pensando assim, já que agiam com tanta rudeza uns com os outros?

Quantas vezes, eu também já não pensei assim… Mas quem garante que a pessoa que está na praia está bem? Tem saúde, emprego, família? Muitos ali estão, porque não têm casa. Outros, estão em férias, doentes ou aposentados. Todos com seus motivos.

Ter um trabalho, é ter dignidade. Além disso, com tanto desemprego… Quem tem trabalho, deveria pôr as mãos pro céu. Por isso, esses trabalhadores que ouvi hoje deveriam estar bem consigo mesmos e com os outros. Mas cada pessoa é uma pessoa. Uns atrelam o trabalho a uma bênção, outros a uma missão, outros a uma sina, outros, ainda, a um castigo.

E quem encara o trabalho como sina ou castigo não tem como estar feliz, mesmo.

Voltei para casa desanimada.

Eu pensei que a pandemia iria melhorar as pessoas, mas qual! Acho que pioramos nossos relacionamentos. Aliás, não pioramos, estamos iguais. Só que muitos perderam a vergonha e fazem o que querem à vista de todos, e nas tais redes sociais.

Estou me transformando numa pessimista chata…Afe!

 

Maria Francisca – Fevereiro de 2022.

 

 31 de dezembro de 2021 

Esses dias, li uma crônica da Martha Medeiros (“Quem está ‘on’”?).  Ela fala sobre a cultura do já, do agora.  Antes, liam-se livros, depois, pequenos textos. Agora, nada mais. As frases são lidas pela metade e são esquecidas rapidamente e, em seguida, vêm perguntas para o que já foi explicado à exaustão, a exemplo de uma postagem com sua foto no instagran, tomando vacina e, na legenda, informando que se tratava da terceira dose. Mas, mesmo assim, vieram perguntas. E a terceira dose? Quando vai tomar? Estamos nos comunicando miseravelmente, diz.

Tem razão. As pessoas querem ver fotos, curtir rápido, sem nem ver direito de que se trata e pronto.

E a escrita também está ruim. Quem não lê, não escreve. No Natal, por exemplo, raras as mensagens escritas. Quase todas que recebi foram de figurinhas, de repasse. Muita gente manda tanta mensagem desse tipo, que nem sabe para quem está enviando. Uma dessas pessoas, por exemplo, quando eu respondi, mandou uma mensagem de voz, demonstrando surpresa. Disse que há muito tempo não falava comigo e agradeceu a mensagem. Nem viu que eu estava retribuindo. Achei engraçado e fiquei quieta.

As abreviaturas de palavras nas redes sociais são interessantes. Às vezes, nem sei traduzi-las. Se eu já era ruim em siglas, imagine abreviar as palavras. Algumas já aprendi, de tanto ler as mensagens dos netos.

Conversando com um colega mais ou menos da minha idade, lembramos das letras de algumas músicas que têm frases erradas, o que não ocorria, antes, nem nas propagandas. De lembrança em lembrança, chegamos àquelas propagandas mais antigas, ouvidas nos bondes, nos rádios etc.

Fiquei curiosa com essas lembranças e fui pesquisar. No Jornal Opção, encontrei uma reportagem de Hélio Rocha, falando o seguinte: “Nos tempos remotos da propaganda no Brasil, ela era às vezes meio ingênua, mas nunca vinha com erros”. E cita os seguintes versos que eram circulados nos bondes: Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado. /E, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite. /Salvou-o o Rhum Creosotado”

Realmente era um outro tempo. Um tempo mais calmo, sem rede social, sem tanta exigência do consumismo, sem telefone celular. Entrava-se num bonde, como disse o colega e, vagarosamente, caminhava-se pelas ruas, sem muito trânsito, até o destino. Fiquei a imaginar como seria isso naquele tempo e, mais ainda, hoje. Alguém teria paciência para ouvir propaganda?

Queremos voltar a esse tempo? Você perguntaria. Não, claro.  A tecnologia, a rede social, vêm a serviço do homem. O problema é o homem ficar a serviço da tecnologia: o dia inteiro no instagran, no facebook, no spotify, em qualquer lugar: na rua, na escola, na mesa do almoço ou jantar. Essa “necessidade” de fazer tudo ao mesmo tempo mina nossa atenção e salve-se quem puder, de tanto erro e trapalhadas.

Muitas vezes, estamos tão atarefados, ou mesmo apressados, fazendo uma coisa e pensando em outra, que fica tudo como se uma tecla tivesse sido digitada e as ações entraram no sistema automático.

Martha Medeiros disse que não é a pressa, é falta de foco. Para mim, é a pressa, a falta de apreço ao outro, e aflição para acessar tudo ao mesmo tempo, o que, sem dúvida, prejudica o foco. Por vezes, estou nesse mesmo barco, tentando dele sair, fugir.

Então, que tal aproveitar esse período de festas e dar uma pausa, como nestes versos da música de Vicka:

“Será que existe cura pra toda essa loucura? (…) Talvez seja hora pra pensar Nem tudo se pode controlar (…) Calma, o mundo precisa de pausa”.

Maria Francisca – Final de dezembro de 2021.

 

 

Maria Francisca – Final de dezembro de 2021.

 

 21 de novembro de 2021 

Depois de “longo e tenebroso” recolhimento, resolvi ir a São Paulo, para o aniversário de um neto. Alegre e contente, levantei-me antes do cantar do galo, porque o voo estava marcado para 5h10 da matina. E, como se sabe, mesmo com o check-in antecipado, despacho de bagagens, fila, revista etc tomam muito tempo, antes do embarque.

Mal entrei no aeroporto de Vitória, ouvi pelo alto-falante:

– A pandemia ainda não acabou.  Use máscara! Não aglomere! Colabore!

Vou andando e ouvindo esses alertas. Entretanto, nas lanchonetes lotadas, todos sem máscara, conversando…

Entro na fila para a revista da bagagem. Tiro as botas, coloco no cesto, tiro relógio, bolsa, tudo ali para passar no raio x.  Opa! Algo não deu certo. A moça me chama e diz: A senhora tem um guarda-chuva dentro da bolsa. Pode abri-la, por favor? Lá vou eu procurar o tal guarda-chuva que nem me lembrava de estar ali. Revirei tudo e encontrei uma sombrinhazinha de nada. Abri. Nada dentro. OK, obrigada, disse a moça.

Essa história de revista é uma piada. Eu sempre sou revistada. Por isso, já chego tirando os sapatos e colocando na cesta.  Mas nem sempre basta. Tanto que viajo com calça comprida sem zíper, blusa sem botão etc. Mas ainda assim, acontece algo e tenho que ser revistada. Um dia, de tanto procurar o que apitava na minha roupa, exasperada, disse: se quiser, tiro a roupa aqui. Puxa vida, sou alguma bandida? Estão procurando alguém parecido comigo?  A moça ficou assustada e me deixou em paz. Saí dali a pensar se não estariam a revisitar a teoria de Lombroso (estrutura do cérebro assim, assado…). Vá entender.

Interessante que passam tantos bandidos, drogas etc. Estamos sempre vendo essas notícias na TV. E o problema sou eu.

Bem. Entro no avião, vejo que as fileiras estão todas cheias. Nem sequer uma cadeira vazia. Eles também não têm que cuidar dos passageiros? Eu tenho que evitar aglomeração? Como evito, se eles que determinam o lugar das cadeiras? Por que podemos ficar juntinhos no avião? Ali dentro, a pandemia acabou? Se acabou, por que preciso de máscara?

Vejo muita hipocrisia nessa história. Não servem nem um café por causa da pandemia, mas posso ficar ali, juntinho das pessoas? Por sinal, a moça que estava no canto da minha fileira estava tomando um suco que não acabava mais. Sem máscara, óbvio

Na saída do avião, “não aglomere”!

Sai todo mundo correndo, no aeroporto aquela confusão de gente…

Hipocrisia é pouco!

Maria Francisca – novembro de 2021.

 

 

 23 de outubro de 2021 

Você veio para ser servido?

Assistindo à Série “Crown”, fiquei a imaginar a vida daquela família. Um mundo à parte, em que tudo lhes chega com facilidade, sem qualquer esforço. Um batalhão de empregados servindo às majestades e elas recebendo reverências por onde andam ou mesmo em casa, pelos empregados e visitantes.

É o que transparece daquelas cenas.

Muita gente acha bonito ser servido. Esperar sempre alguém para  atendê-lo, até  em  atividades corriqueiras, como abrir uma porta.  Talvez por pensar que servir significa ser servil, inferior. Não. Quem serve é uma pessoa solidária, educada e gentil.

Alguns dias antes do início da pandemia, eu estava na Academia de ginástica, lá com meus pesos e minha preguiça de sempre, quando vi uma senhora caminhando com dois enormes pesos à perna.

Perguntei: Precisa de ajuda?  Ela, em tom aborrecido: Chamo, chamo, a professora não aparece.  Preciso tirar esses pesos. Eu abaixei e tirei os pesos da perda dela. Ela nem olhou pra mim e foi saindo. Livre, leve e solta, sentou-se numa bicicleta ergométrica, começou a pedalar na maior desenvoltura.

No primeiro momento, imaginei que ela não pudesse abaixar-se.  Depois, foi servida como queria, e nem um agradecimento dirigiu a mim.

Eu fiquei pensando o que espera da vida uma pessoa desse tipo.

E isso começa cedo, com a educação. Se os pais são sempre servidos, claro, os filhos vão seguindo o exemplo. E nem agradecem como se tivessem nascido com uma estrela na testa.

Há homens, por exemplo, que se sentam em frente à televisão e vão pedindo tudo à esposa. Traga um café, traga um copo etc. Às vezes, depois de um dia de trabalho, ambos chegam em casa. O homem está cansado. A mulher nunca está?  Machismo? Pode ser.

No trabalho, tem sempre algum folgado. Espera que o colega, a colega, faça o que esse folgado deveria fazer. As menores coisas, como lavar uma xícara para tomar café, um copo de água etc.

A vida exige serviço a outrem. O próprio poder do Juiz é para servir. É um poder-dever. Seu poder é apenas para servir à comunidade onde atua. Sem o poder, ele não pode exercer sua função. Ele não é o Poder. Está apenas investido dele, enquanto exerce o múnus.

Em questão de servir, vale lembrar o exemplo de Jesus: “O próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir (…)” (Marcos 10.45). É o serviço do Cristão. Promover a vida, auxiliar na construção de um mundo melhor.

Ser útil, entretanto, prescinde de religião, espiritualidade, crença, mas educação, gentileza. Viver é conviver. A vida fica melhor quando todos são gentis.

Mas se não quiser servir, pelo menos não faça de outra pessoa seu servidor.  Você não veio para ser servido, foi?

 

Maria Francisca – fevereiro de 2021.

 

 

 

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 10 de outubro de 2021 

“Quando me caía nas mãos uma obra ordinária, ficava contentíssimo:  – Ora, muito bem. Isto é tão ruim que eu, com trabalho, poderia fazer coisa igual.

Os livros idiotas animam a gente. Se não fossem eles, nem sei quem se atreveria a começar”, dizia o personagem Luís da Silva, de Graciliano Ramos, em “Angústia”, livro que, segundo consta, escrevera na prisão, em 1936.

Luís escrevia e escrevia. Vendia contos e poemas, como um ghost writer, para sobreviver, já que, funcionário público, ganhava muito pouco. Lia, lia muito, e se vangloriava. Quando alguém perguntava sobre um livro que não lera, dizia: muito ruim.

Li esse trecho e ri sozinha, porque foi assim que comecei a publicar os meus escritos.

Eu escrevia há muito tempo, mas não tinha coragem de publicar e, muitas vezes, jogava fora.  Um dia, andando pelas ruas de Belo Horizonte, entrei, por acaso, em uma livraria e dei de cara com um livro de poemas e crônicas de um famoso apresentador de TV.  Em casa, fui ler o tal livro. Ruim, a mais não poder.

Então, pensei: Eu também posso!

Mas após meditar sobre esse trecho de Angústia, pensei: quem sabe estou incentivando outros escritores, com minha pobreza literária e minha coragem (ou temeridade) de publicar meus poemas e crônicas?

Pode ser isto: leem meus escritos e, da mesma forma que aconteceu comigo e registrado pelo personagem de Graciliano Ramos, a pessoa pense: também posso, e passe a publicar seus trabalhos.

De vez em quando, alguém me pede para ler algo que escrevera. Se eu elogio, tudo bem, mas se faço alguma consideração do tipo: você pode escrever assim e assado, ou, seria melhor se colocasse desse jeito, essa pessoa nunca mais me traz nada para ler. Todos só queremos elogios. É da nossa natureza.

Alguns escritores principiantes seguiram minhas sugestões e até publicaram livros excelentes. Muito, mas muito melhores do que os meus. E eu fiquei muito orgulhosa do trabalho deles.

Eu também caí nessa armadilha de querer só elogio. Seguindo o exemplo de um colega escritor, arranjei um leitor-beta. A questão foi que ele nunca gostava de nada que lia. Então, deduzi que não valia a pena. Será que era tão ruim assim, tudo? Desanimei e fiquei um tempão sem escrever nada.

E quando participo de concursos literários e meu trabalho nunca é escolhido?  Já aconteceu muitas vezes.  E não era nenhum prêmio Jabuti. Aí, sim, o desânimo bate. Não participo de mais nenhum, prometo, e penso não escrever mais nada… Pura vaidade!

Entretanto, depois do episódio da aula de pintura que abandonei por causa de uma crítica áspera, que já virou crônica, não quis repetir a decisão de desistir do que gostava de fazer, mesmo sabendo das dificuldades. E prometi a mim mesma nunca mais fazê-lo. Labirintos são, mesmo, para desanimar.

Passado algum tempo, recomecei. Aprendi que teria que conviver com todo tipo de leitor, se eu quisesse sobreviver. Uns gostam, outros não, uns muitos, outros quase nada, outros sentem-se ofendidos…Segui, entretanto, escrevendo minhas historinhas e meus poemetos. E, de vez em quando, tomando uma pancada nos concursos literários.

Li, há pouco tempo, uma entrevista do Vinícius de Morais (In “Escritores do Brasil, n.10). Ele disse que ficou muito vaidoso quando publicou o primeiro livro, foi muito elogiado e premiado, mas alguns críticos o colocaram direitinho em seu lugar. Disse mais: não gostava de nada do que lia ultimamente. Tudo estava muito ruim.

Então, vejamos, mesmo de escritores famosos lemos coisas boas e não tão boas, segundo nossa visão, às vezes até no mesmo livro, como num caso de um superpremiado, cujos contos são, na maioria, ruins para meu gosto.

Vargas Llosa disse, na apresentação do livro A linguagem da paixão: “Não festejo nem lamento essas críticas aos meus artigos: eu as considero como provas da independência e da liberdade com que os escrevo.” Só que, mesmo dizendo-se independente, fez questão de desclassificar os opositores, numa clara demonstração do ensinamento de Shopenhauer, de “Como vencer um debate sem ter razão”.

Além disso, muitas vezes, nós mesmos achamos péssimo o que escrevemos e temos vontade de deletar tudo, mas nem sempre é possível. E se vem a crítica severa, somos obrigados a aceitar.

 

Afinal, se nem Vargas Llosa se livra de críticas. Eu que vou me livrar?

Então, vou costurando minhas palavras. Se elogiam, alegro-me. Se criticam, entristeço-me, para, em seguida, enfrentar o labirinto…

Maria Francisca – setembro de 2021.

 

 19 de setembro de 2021 

Esses dias, lavava um casaco de frio do meu marido (sim, eu também tenho meus momentos de prendas domésticas), cujas listras brancas das mangas estavam encardidas.  Esfreguei, esfreguei, e nada de sair. Fiquei ali batalhando com aquelas manchas até conseguir, porque sou persistente e teimosa a mais não poder.

Enquanto esfregava, comecei a pensar na dureza da vida de muitas mulheres.  De um tempo ou de cidade sem energia elétrica, sem máquina de lavar roupa, ferro elétrico ou qualquer outro equipamento para ajudar nas tarefas domésticas, que cabiam a elas, só a elas.

A vida moderna trouxe algumas facilidades, apesar de trazer muitas dificuldades de outra ordem, mas isso é outra história. Hoje, ninguém se priva de uma máquina de lavar roupa ou, ao menos de um tanquinho. Quem não tem um ferro elétrico? E muitos têm até robô para limpar a casa. Claro, é tudo muito caro. Então, é sempre a vez dos mais iguais.

A tecnologia, a internet, trouxeram muita coisa boa. E coisa ruim, também. Umberto Eco teria dito que, embora valioso instrumento, a internet teria dado voz a muitos imbecis. Nada é perfeito, claro. Um celular, ai, ai, ai. Todos são “obrigados” a ter. Quem não tem sofre, porque não pode postar fotos no instagran, no story do facebook, no whatsapp, e por aí vai.

Imagine esse tempo de pandemia sem a rede social!  As aulas virtuais, alunos e professores nessa lida pela internet. No período de lockdown foi o que salvou a todos para os contatos, os vídeos… Ninguém podia ver ninguém. Tudo virtual. E ainda estamos aguardando esse tormento passar.

E se houvesse um apagão?  Como ficaríamos? Sem luz elétrica, sem tv, sem internet, sem celular… Foi do que tratou Don Delillo no livro “O silêncio”.  As pessoas que, antes, até esbarravam nas outras, porque nem olhavam para frente na rua, distraídas com os celulares, agora, andavam a esmo, perdidas, sem rumo, mergulhadas na correnteza de gente.

Imaginemos esse silêncio de que fala Dom Delillo neste tempo de pandemia. Lá, como aqui, aliás, no mundo inteiro, o desenvolvimento humano não acompanhou o da tecnologia que está anos luz da nossa vã filosofia. Não saberíamos lidar com isso. O caos se instalaria. Restaria um vazio total e, por que não, o fim do mundo!

Sempre amei silêncios, pausas, como na música. Gosto de lugares tranquilos, praias, montanhas. Nada melhor para repor as energias, retornar para casa com o coração leve, como se a vida recomeçasse daquele ponto. Um silêncio que conduz à paz na alma e no coração. Não esse silêncio vazio, de andar a esmo, solto pela rua, e, ainda, por ser obrigado, já que nada é mais possível.

Seria como a catástrofe narrada por Saramago em “Ensaio sobre a Cegueira”?

Felizmente, estamos em paz. A guerra da pandemia está passando e, breve, poderemos respirar, aliviados. E o silêncio, o silêncio suave, da pausa, poderá ser comemorado à altura do bem que faz a todos os corações.

Maria Francisca – Setembro de 2021.

 

 5 de setembro de 2021 

No meio do caminho tinha uma pedra

Não era a pedra do Drummond…

Era uma chuva, mas não era Maria que chovia

Daquele caso, daquele pluvioso…

Ou seria Maria (Francisca)?

 

Mas essa pedra, essa chuva

Cai aqui devagar, uma pedrinha de nada

Mas cai em cada lugar…

Alaga, destrói e chega a matar.

 

A chuva que senti era uma

As que vi por outras lentes

Eram outras, torrentes.

 

E uma moça, vestia, carinhosamente,

No meio da chuva que vi,

O casaco de frio numa velhinha triste.

 

Maria Francisca – julho de 2021.

 

 

 

 

 1 de agosto de 2021 

 

Hoje realizei uma das minhas proezas infantis prediletas. Tomei uma enorme chuva. Sem premeditar, só que não, porque as nuvens escuras anunciavam algo além de um solzinho tímido que teimava em aparecer.

Antes que alguém pergunte se não derreti, digo, como sempre: Sou de sal grosso, inteira. Moída, ainda sobram partículas de mim. Derreter? Só com muito esforço.

Pois bem. Voltava pra casa, naquela chuva grossa, já toda ensopada, andava pela calçada em frente para me livrar das poças do calçadão, quando, ao passar perto de um prédio, vi uma senhora com um pacote às mãos e reclamando ao interfone:  Moço, depressa, por favor, está molhando o bolo!

Parei para tentar ajudar e vi que se tratava de portaria remota. O porteiro, lá das calendas, dizia à senhora que não estava conseguindo acessar o apartamento chamado. Enfim, a portadora do tal bolo resolveu ir embora com seu pacote, se era bolo, já tinha virado outro bolo.

Continuei minha caminhada, pensando nessa profissão de porteiro, uma classe quase em extinção.  Sim, porque esse da portaria remota parece mais um profissional da antiga telefonia do que porteiro. É um ser invisível… Nada mais chato do que chegar a um prédio, à noite e ficar ali, plantado, esperando. Coisas da modernidade. Só edifícios enormes, aqueles com diversas torres, ainda têm porteiros do sistema antigo. Os prédios menores, como o meu, têm um interfone e pronto. Redução de custos é a palavra de ordem.

Eu sempre tive uma ‘birra” com porteiros. Aliás, eles é que sempre tiveram birra comigo. Uns me mandam pela porta de serviço, outros me prendem no prédio, com raiva porque “burlei” as suas normas de pobre (já disse que tenho cara de pobre) ter que entrar pelo elevador de serviço em prédio chique e, outros, ainda, me vigiando o horário de sair e chegar, como se fosse um juiz dos meus atos.

Eu trabalhava em Ubá, a 120 Km de distância. Era Auditora Fiscal do Trabalho.  Normalmente retornava por volta de 20 horas. Ia e voltava de ônibus. Morta de cansada, com minha pesada pasta às mãos, o porteiro respondia ao meu cumprimento e acrescentava: Ainda trabalhando, Doutora? Sim, Seu Olímpio. O Ministério está aberto até essa hora? Sim, Seu Olímpio. Eu rapidamente entrava no elevador, ele atrás, com sua bisbilhotice, tanta, que quase prendia o pescoço na porta.

Era só ele estar em serviço e a história se repetia.

Um dia, acabou a festa. Tinha ido fazer um desses trabalhos difíceis, com uma equipe, acompanhada da Polícia Federal. Quando cheguei ao prédio, um policial todo equipado, saiu do carro da polícia para abrir a porta para mim. Seu Olímpio ficou tão assustado, que mal respondia ao meu cumprimento quando eu chegava. Eu me livrei, sem querer, da bisbilhotice dele.

Quando me lembrei dessa história, até comecei a rir, sozinha, na rua. Ainda bem que, de máscara, ninguém percebeu minha doidice. E toda molhada daquele jeito…

Hoje, alguns desavisados, chegam aos prédios sem porteiro, como no meu, e ficam, por ali, tocando o interfone sem parar. E, às vezes, resmungando: Cadê o porteiro?

 

Maria Francisca – 05.06.2021.

 

 

 




Maria Francisca Lacerda
Poeta e escritora.
Espírito Santo - Brasil.


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