Os marinheiros e a vida nossa de cada dia - Maria Francisca

 16 de julho de 2026 

 

Hoje sai de manhã para ver o sol. O friozinho teimava em atacar.

Fui andando pelo calçadão, devagar, com uma preguiça… Tão logo encontrei um banco diante do mar, sem jogos na areia ou qualquer ruído, sentei-me e fiquei ali a olhar para o infinito, como gosto, onde o mar encontra o céu. A pergunta: quem fez aquela beleza? Deus e seus mistérios encontram-se ali.

Em silêncio, faço minhas orações. Pessoas passam e nem olho. Em verdade, se olhasse, nem as veria, concentrada diante do mar e em suas ondas indo e vindo. Não escuto as conversas do calçadão, não ouço nada além do mar.

E meu olhar prolonga-se e alcança os navios que estão longe, muito longe, navegando devagar para entrarem no porto.  Eram 13 desta vez. Demorei a contá-los. Tão distantes… Pequeninos…

Sempre me pergunto: o que fazem esses marinheiros? Ficam tanto tempo no mar…

Fico ali a meditar sobre a vida diferente que eles levam. Sabe-se que ficam algum tempo embarcados e o mesmo tempo em casa. Imagino ficarem longe de tudo…Da família, principalmente, mas sei que muitos gostam, devido ao período que permanecem em terra.

À noite, costumo olhar da minha varanda, procurando as luzes dos navios. De madrugada, alguns ainda estão ali e suas luzes vão se apagando pouco a pouco, enquanto o pensamento nos marinheiros e nas suas famílias retoma.

Acordei daquele quase transe e assustei-me. O tempo passou depressa. Precisava voltar para casa. Inúmeros afazeres domésticos me aguardavam.

Mal me levantei, encontro um amigo que fazia tempo não via e começamos a conversar, enquanto andávamos.

Ele falava do trabalho, da vida e das lutas diárias. E eu falei dos marinheiros, cujos navios eu acabara de olhar.

Mas ali, no calçadão, mesmo, vemos a luta de muitos, nas barracas, nos quiosques e até mesmo tocando algum instrumento para ganhar o pão.

Estou lendo a biografia do Padre Zezinho, eu disse a meu amigo,  e comecei a contar para ele a beleza do livro e do trabalho do Padre.  Por coincidência, o que li, hoje, era sobre a sua vida de trabalho.

Num trecho, Padre Zezinho disse: “Por trás do que muitos enxergam como realização, existe um cotidiano exigente, cheio de entregas silenciosas. Nem sempre há tempo para viver plenamente os momentos mais íntimos. Nem sempre é possível estar presente, quando a vida acontece dentro de casa.”

Ele tem razão. Quando se está jovem, trabalha-se, trabalha-se. Muitas vezes não temos tempo para as coisas mais simples junto aos familiares. É partir, quando o coração pede para ficar. É seguir, quando a vida pessoal chama por permanência.

Ao final, a aposentadoria chega, as dificuldades continuam. De forma diferente, mas continuam. Muitos adoecem. A esposa do meu amigo, por exemplo, está doente. Médico, médico, exames, remédios… E, ainda bem que tem recursos, disse.

Para uns, falta dinheiro para plano de saúde e até para remédios, algumas vezes. Isso para muita gente, sabemos.

Fomos caminhando e conversando sobre o cotidiano.  Os filhos, os netos, como será o mundo deles daqui a alguns anos.  Ficamos pensativos…Como se tivéssemos combinado, naquele momento, paramos e fizemos uma oração silenciosa.

E seguimos em silêncio…

Maria Francisca – julho de 2026

 

 

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Maria Francisca Lacerda
Poeta e escritora.
Espírito Santo - Brasil.


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