Está na hora de parar? - Maria Francisca

 2 de agosto de 2026 

 

É importante saber a hora de parar.  Leandro Karnal, na crônica de ontem (https://www.estadao.com.br/cultura/leandro-karnal), disse que um antigo professor, aposentado, vivia na Universidade, dando conselhos a quem não pedia…

E ele não queria ser assim. Já há dez anos publica suas crônicas e se perguntava no artigo: Está na hora de parar?

Eu, aposentada, falo pouco nos grupos, justamente por não querer dar palpite em questões já fora do meu dia a dia, como o fazia o velho professor. Digo que estou na fase da escutatória, utilizando termo do escritor Rubem Alves.

Eu brincava com os servidores que trabalhavam comigo: “Vocês não vão me ver cochilando no plenário”, justamente porque via colegas idosos, cansados, não só aqui, também em outros tribunais, segurando o cargo, por puro medo de perder o poder? Não sei. Talvez por uma vida solitária, por não terem outros interesses…

Nunca me esqueci de um alerta de um colega mais antigo, numa palestra, quando eu ia começar minha atividade judicante em Minas Gerais. Ele disse: Não vamos ser juízes em tempo integral. Sejam pais, mães, amigos, filhos… Ou seja, há vida fora da magistratura. E há vida na vida em tudo que você quiser dar vida. Depende de você. É preciso olhar e ver ao seu redor.

Quando passei a coordenação do TJC (Programa da Anamatra: Trabalho, Justiça e Cidadania), pensei nisto: não se pode tratar uma coordenação como se fosse algo seu. É importante que outros assumam os trabalhos, gente mais moça, com ideias novas. Eu costumava brincar assim: há tanto tempo coordeno esse programa que, daqui a pouco, vão usar minha foto como logomarca. Sinto falta, claro, mas não fico me lamentando, porque tudo na vida tem seu tempo.

A única atividade a que não renunciei, ainda, é escrever as minhas crônicas e meus poemas, porque tudo é sem compromisso algum. Escrevo quando tenho vontade ou quando surge algum tema que me interesse.

Claro que se eu me preocupar com leitores, vou parar de escrever, porque a cada dia eles ficam mais escassos. Mas como escrever me dá prazer, sigo por um tempo, enquanto permanecer lúcida.

O que jamais deixarei de fazer é ler. Se eu não conseguir, encontrarei alguém para ler para mim. É minha esperança.  Ler é minha melhor distração. Leio tudo que me cai às mãos.  Depois, vejo que se vale a pena guardar ou jogar fora o que captei.

Ainda há pouco, chegou um novo livro: “A Oligarquia dos Poderes e a Crise da Democracia”, de Joaquim Falcão. Sei que vai aparecer alguém e dizer: Está lendo esse livro? Com aquela cara de desconfiança. Às vezes a pessoa nem leu e já dá palpite. Não me incomodo. Tenho senso crítico e leio o que quero. Como disse o neurocientista Roberto Lent “Existo, logo penso”.  E duvido… Duvido de tudo…

A dúvida é o fundamento da pesquisa, do senso crítico. Ainda mais hoje com tantas notícias falsas.

Voltando à questão de parar de escrever, Leandro Karnal disse que se os amigos disserem para ele parar, ele para. Eu disse que só vou parar quando não tiver mais lucidez, mas como vou saber se estou lúcida? É preciso que alguém me diga.

Espero que um dos filhos ou um neto digam, da forma gentil, como sempre me tratam hoje, que é melhor eu parar, porque falta coerência no que escrevo.

Nesse dia, encerro meu ciclo de escritora, sem qualquer sofrimento., porque tudo tem início, meio e fim.

Digo: É hora de parar.

Maria Francisca – julho de 2026.

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Maria Francisca Lacerda
Poeta e escritora.
Espírito Santo - Brasil.


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