A utilidade do inútil - Maria Francisca

 16 de agosto de 2026 

 

Hoje, a manhã já ia alta, quando sai para a minha caminhada matinal, mas um frio de arrepiar arruinava os cabelos bem-cuidados das mulheres que iam para o trabalho, ou aquelas tão vaidosas que necessitavam sempre de um cabelo bem arrumado. Os meus poderiam arruinar-se à vontade, porque estava numa simples caminhada sem compromisso algum.

Comecei a ouvir o solo instrumental de uma música religiosa. Mas perto, vi um jovem em pé, na esquina da Av. Champagnat com Gil Veloso, tocando violino. Tocava lindamente.

Lembrei-me de uma crônica que lera no jornal A Gazeta e, quando cheguei em casa, fui à estante, e tirei o livro “A utilidade do Inútil, de Nuccio Ordine. Ali estava uma inutilidade, segundo o pensamento de alguns, porque não valorizam um trabalho assim.

Quando li esse livro, sugerido pela minha querida amiga, de saudosa memória, Jeanne Bilich, primeira coisa de que me lembrei foi um fato ocorrido quando resolvi fazer mestrado. Contei para uma amiga que eu estava concorrendo a uma vaga e ela perguntou: Você vai ganhar mais fazendo o mestrado?

Eu apenas ri e ela ficou quieta. Talvez pensando que eu ganharia dinheiro com aqueles estudos. E eu queria apenas aprender mais.

“O que não produz lucro é realmente considerado um luxo supérfluo”, teria dito Rouseau. Já Diderot afirmara que “uso do tempo é precioso demais para perdê-lo com especulações ociosas”.

Hoje, então, para ganhar dinheiro, há os famosos influencers. Esses seriam úteis?  Tenho minhas dúvidas…

Eu sou escritora. Para meu deleite, porque, aposentada, tenho meio de vida. Gosto de escrever e publicar. Mas vejo amigos lutando para se firmarem como escritores e não conseguem. O jeito é arranjar um emprego de professor para poder sobreviver, enquanto escrevem. Vejo isso por todos os lados.

No livro “Solo de Clarineta”, Erico Veríssimo luta para conseguir sucesso como escritor. Aliás, o sucesso não aconteceu de noite para o dia para nenhum dos famosos.

Arte, em geral, é inútil, como inútil é um livro. A música, por exemplo. Viver de música…

Voltemos ao músico da esquina. Não era tão jovem e tocava lindamente ali na esquina, aguardando que alguém desse valor à sua música e o ajudasse a ganhar algo para a sobrevivência.

Por isso, fico com pena quando vejo uma mocinha cantando em eventos, como exemplo, na abertura musical da Academia de Letras, e sendo aplaudida por todos. Fico a imaginar a luta dessa menina, para conseguir ganhar dinheiro, para sobrevivência, com a música e sua linda voz.

Hoje, li a crônica da Michele Prazeres, em que ela pergunta: “Existe tempo improdutivo? Será que o tempo improdutivo é importante? Será que ele tem um valor? Deveria ter?”

E mais, disse ela: “Em tempos acelerados e que demandam que nossa existência seja orientada ao trabalho, ao consumo e à vida nas plataformas, passa a ser razoável dedicar todo nosso tempo a estas atividades.”

(  ) “passa a ser inaceitável, quase um crime ou um desvio de caráter, dedicar tempo ao descanso. Este seria o tempo improdutivo, para o qual tratamos de atribuir uma condição pejorativa. Se é improdutivo, não serve para nada”.

Por isso, quando me aposentei, cansei-me de responder à pergunta: O que vai fazer agora? Nada… Descansar, ora. Não posso? Só faltava dizer assim.

Dizem que perguntaram ao Gilberto Gil: O que você mais gosta de fazer? Ele teria respondido: Dormir. O que causou um susto no entrevistador.

Pois é, precisamos de dormir, descansar, tudo isso é útil, como a leitura de um bom livro.

Ou não?

Maria Francisca – agosto de 202

 

 

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Maria Francisca Lacerda
Poeta e escritora.
Espírito Santo - Brasil.


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