Maria Francisca - Blog da Maria Francisca Lacerda, escritora e poeta. - page 9

 23 de maio de 2020 

Olha isso aqui tá muito bom

Isso aqui tá bom demais

Olha, quem tá fora quer entrar

Mas quem tá dentro não sai. Pois é…

(Dominguinhos)

 

De repente, máscaras, álcool em gel, sabões e desinfetantes transformaram-se em bens de primeira necessidade.

Ordens dos novos tempos: Fique em casa! Use máscara! Lave as mãos! Mantenha distância!

Se você, idoso, resolve ir à esquina, porque precisa de um analgésico, há sempre alguém que lhe diz: Vai pra casa! Ou, desaforadamente: Vai pra casa, velho! Cuidado, implicância, ou medo?

Todos com medo de todos? Gente com medo de gente?

Na letra da música de Dominguinhos ninguém quer sair e todos querem entrar, porque está tudo muito bom. Só que não. Hoje, ninguém sai por medo e ninguém entra por medo. Está tudo muito ruim. Só a quietude do lar nos conforta.

Há algum tempo, escrevi uma crônica, que ainda não publiquei, sobre o uso de redes sociais, minha mais nova implicância, por considerar que todos vivem numa bolha e nem vêm o que se passa ao seu redor. Cada um por si. Por isso, apelidei a rede social de repelente de gente. “Estou conectado, não me incomode”, parece dizer.

Neste momento de pandemia, entretanto, as redes sociais, ao invés de bolha, ou repelente, ganharam status de ponte, por onde nos conectamos com o mundo ao redor, por absoluta impossibilidade do “olho no olho”.

As festas, as reuniões, as compras e muito tipo de trabalho estão sendo realizados dessa forma. Como fazer compra de mantimentos, como viajar, como reunir as pessoas?

As redes sociais fazem ponte, ainda, com a solidariedade. Pessoas arrecadam bens, materiais, alimentos e dinheiro para os necessitados. Ah se não fosse esse repelente elevado a ponte… Ponte sobre o caos…

Como realista esperançosa que sou (no dizer de Suassuna), espero um mundo em que não necessitemos de pontes movediças. Mas que os humanos sejam suas próprias pontes, para ir ao encontro do outro.

Na crônica “Recado ao Sr. 903”, Rubem Braga fala da reclamação do vizinho do 903 sobre barulho do 1003 (ele) e diz que tem razão. Não se conhecem e, portanto, estão reduzidos a números, ninguém procura ninguém e a vida só é tolerável, em ambiente assim, quando ninguém incomoda ninguém.

E arremata lindamente:

“Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou. E o outro respondesse: Entra vizinho, e come do meu pão e bebe do meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela.

“(…) e os dois ficassem entre os amigos (…), entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz.”

 

Maria Francisca – 29 de abril de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 22 de abril de 2020 

Há algum tempo, num evento de juízes aposentados, um palestrante, também juiz, explicava a tramitação de uma Proposta de Emenda Constitucional. Quando ele começou a falar, pensei: Será que ele pensa que nós, por sermos aposentamos, ficamos imbecis? Quem não conhece a tramitação da chamada PEC?

Na hora do debate, uma colega soltou o verbo. Por que as pessoas gostam de infantilizar o idoso? Se vamos fazer um exame de sangue, a técnica diz: Cadê o bracinho? Se vou comprar sapato, levante o pezinho…Agora, esse colega a ensinar-nos coisas que aprendemos antes do nascimento dele. Será que não estamos apenas velhos? Não lemos nada? Estamos todos bobos e infantis?

Gerou um clima constrangedor. Uns riam diante do estresse, outros concordavam com ela… Outros achavam que ela fora mal-educada.

Talvez o jeito de dizer não tenha sido o mais adequado, mas ela estava coberta de razão, eu disse na época.

Quando encontramos uma criança, normalmente, dizemos: Que gracinha! Com os velhos, a mesma coisa! Ninguém fala com uma jovem senhora dessa forma. No máximo: Você está muito bonita! Por quê? O velho é infantilizado, sim. Eu disse isso para uma médica, quando ela me pegou a mão, dizendo: Dê-me a mãozinha. A resposta: Você tem razão. Vou pensar sobre isso. Acostumamo-nos tanto a falar assim que nem percebemos.

Muitos dizem que é uma forma de carinho. Ser carinhoso com o idoso é respeitá-lo, falar uma linguagem adulta, de forma que ele entenda. Atentando para a idade, meio social, saúde etc.

É muito comum, também, perguntar a idade do idoso. Após a resposta, diz-se: Que gracinha! Ou, você está ótima, corpo de menina! Que gracinha o quê? Que corpo de menina, o quê? No máximo, bem arrumada e magra! Outro dia, na Farmácia (outra coisa: estão sempre oferecendo ao idoso: ômega 3, cálcio…), após a moça me oferecer um monte de coisas e eu recusar, ela perguntou: Quantos anos você tem? Eu disse: Não vou falar, porque já sei que vai dizer: Nossa! Está ótima, ou que gracinha... Ela riu muito…

Em recente artigo (https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao), Rodrigo Moraes faz o seguinte comentário: “Imagine-se em um encontro com o maestro João Carlos Martins e perguntando se ele vai tocar seu “pianinho” esta noite. Faz sentido? Que tal sugerir ao ex-atleta Edson Arantes do Nascimento, sim, ele mesmo, o Pelé, a brincar de “bolinha” com ele. Parece normal?”

Outras atitudes que demonstram falta de respeito ao idoso, citadas no mesmo artigo, podemos ver sempre. Por exemplo, se o idoso está acompanhado, seja na rua, em lojas, ou hospitais, pessoas dirigem-se ao acompanhante, como se o idoso não estivesse presente, ou seja, ignora-se o idoso; desconsiderar os seus conhecimentos, como ocorreu no Evento mencionado no início; fazer um convite à família e excluir o idoso.

A psicanalista Eloah Mestieri, citada no artigo acima, disse o seguinte: “A infantilização do idoso é um mal que pode fazer com que os idosos se sintam diminuídos e tenham sua autoestima severamente afetada. Na medida em que minimizamos sua autoconfiança e sua autoestima, o idoso é levado a ter um olhar sobre si mesmo como alguém frágil e incapaz”.

E isso, com certeza, pode levar ao adoecimento ou agravamento de alguma doença.

Então, minha gente. Eu tenho pé e não pezinho, tenho mão e não mãozinha, tenho braço e não bracinho e, graças a Deus, ainda penso, leio e escrevo. E não vou mais dizer a minha idade, pode crer.

Quando eu não puder, não puder, mesmo, fazer nada disso, podem me infantilizar à vontade.

Por ora, não, por favor.

Maria Francisca – fevereiro de 2020.

 14 de fevereiro de 2020 

Você quer ir para o céu?
Ninguém quer morrer, isso é certo.
Medo de morrer? Muitos têm. Por que esse medo? Será pela incerteza do que será depois? E quem crê na Vida Eterna? Tem medo?
Rubem Alves publicou diversas crônicas sobre a morte. Numa delas, ele diz que morte súbita é ruim. Precisava de tempo para escrever seu haikai. Noutra: Já teve medo de morrer; não tinha mais, só pena. E outras e outras.
Steve Jobs teria dito que a morte era a melhor coisa da vida, porque faz as pessoas cuidarem mais de si, pensarem mais nos objetivos a realizar, antes que seja tarde. E que todos querem ir para o céu, mas ninguém quer morrer.
Clarice Pierre (A arte de viver e morrer) afirma que à medida que nos conscientizamos de nossa mortalidade, fragilidade, poderemos mais intensamente valorizar a vida e viver sem desperdício de um só minuto de nossa existência. Diz, ainda, que diversos filósofos já teriam se dedicado ao assunto, como Platão e Sartre, pois vida e morte fazem parte de um mesmo enigma e de um mesmo resultado: a finitude.
Eu leio e penso bastante sobre a vida e a morte, mas sei disto: a finitude incomoda-nos a todos. Mistério insondável, constrangedor.
Nossa cultura trouxe-nos a repulsa ao tempo como limitador e à impotência diante desse fato. Por isso, silenciamos. Não estamos preparados para falar de tema tão intrigante. Quando alguém fala, os que estão em volta logo pedem para mudar de assunto.
Já tive medo de morrer. Pensava nos filhos pequenos. Hoje, não mais. Vão sentir minha falta? Talvez, saudades por um tempo, depois, a vida segue seu rumo, cada um cuidando de seus afazeres e, como disse Drummond sobre Itabira, se restar alguma coisa, é apenas um retrato na parede.
Penso que a preocupação com a ideia da morte é também a dúvida de como será esse final. Com dores, sofrimento, humilhação? Nesse caso, a tristeza é maior, tanto para quem está partindo, como para os que cuidam do doente terminal.
Em “Sobre a morte e o morrer”, Rubem Alves conta a seguinte história: “Dona Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. ‘Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa…’”
Pois bem, minha mãe tem 99 anos. Sempre foi uma pessoa forte, lutadora, de uma religiosidade à toda prova, solidária com todos, daquele tipo que costura para quem precisa, vai ao asilo dar banho nos idosos, coloca na sua mesa qualquer pedinte e acolhe qualquer pessoa em sua casa.
Hoje, acamada. Sofre há dois anos. E, como a personagem do Rubem, não enxerga mais nada. Mas tem uma sede de vida incrível. Vive pedindo a Deus para tirá-la da cama. Quando está sofrendo muito, fala que morrer é muito difícil. Se melhora, levanta as mãos para os céus pedindo para recuperar a saúde. E, às vezes, questiona: será que vou morrer hoje?
Ninguém sabe o dia, nem a hora do fim.
Na crônica “Ficar pra semente?”, eu disse: “E é bom que eu não saiba o dia, nem a hora, porque não teria a sabedoria e a aceitação da Clara, de Isabel Allende.”
Por que não sabemos? Há quem saiba? Há quem vislumbre o momento, como a velhinha do Rubem, mas saber, mesmo, ninguém sabe.
Esses dias, reli a notícia dos radares nas estradas, aquela discussão inócua, e pensei: Ainda bem que ninguém sabe o dia da morte. Se soubéssemos, faríamos as maiores loucuras e só nos preocuparia com o bem, quando o momento estivesse chegando. Seríamos como o motorista que corre desenfreadamente na estrada, ultrapassando todos os limites e reduz a velocidade somente quando vê a placa anunciando o radar, ou o aplicativo dá o alerta. Só por medo da multa – o castigo eterno.
E só queremos o céu!

Maria Francisca – fevereiro de 2020.

 1 de dezembro de 2019 

Quando vim para o Espírito Santo, escolhi trabalhar em Linhares, porque estava cansada de trabalhar em capital. Mas muitos espantaram-se. Em Linhares? Lá é perigoso. Matam por qualquer motivo.
E, claro, notícias de assassinato de juízes já tivemos muitas. De ameaças, nem se fala. Tantas… No Espírito Santo, por exemplo, tivemos o caso do Juiz Alexandre Martins, assassinado no meio da rua. Esses dias, um colega de São Leopoldo noticiou o assassinato de um reclamante de 27 (vinte e sete) anos.
Em Linhares, naquela época, então, havia muitos casos de assassinatos. De vez em quando, uma notícia de alguém morto, estatelado num canavial. Crimes impunes, em verdade, insolúveis. Não sei se fato ou boato, ou, como se diria hoje, se eram fake News.
Tão logo cheguei àquela cidade, penso que era praxe naquela região, foram escalados dois policiais para as audiências. Ficava mais tranquila, porque ali, sentia-me protegida, como via que as pessoas também assim o sentiam.
Mas nem tanto. Certa vez, acabei de interrogar uma testemunha e recebi a notícia: fora metralhada no meio da rua. Fiquei um pouco assustada: seria pelo testemunho? Mas não. Tratava-se de “queima de arquivo” de um antigo e rumoroso caso do Estado.
Um dia, comecei uma audiência e vi dois homens sentados no fundo da sala. Perguntei ao servidor se não seriam testemunhas. Se fossem, claro, não poderiam ficar ali, antes de serem ouvidas. Não. Eram, segundo souberam, pistoleiros, filhos do reclamante, empregado de uma fazenda. Mas estavam desarmados, garantiram-me os policiais presentes.
Não aceitas as condições para acordo, a instrução foi realizada, ouvidas partes, testemunhas, como era meu costume, em que pese a defesa pífia apresentada pelo empregador.
Deixei para decidir depois, para não atrasar as demais audiências do dia. Mal cheguei ao gabinete, Sr. Ilson Pessoa, classista dos empregadores (ou meu anjo da guarda naquela cidade) disse-me: Doutora, aquele fazendeiro da audiência de hoje, mandou pedir que a senhora o condene bem depressa. Por quê? Ele está com medo de morrer. Ele foi ameaçado de morte, por aqueles rapazes, filhos do reclamante, presentes à audiência, caso o pai perca a ação. E por que ele não fez o acordo? Não seria mais fácil? Por puro medo. Medo de ser menor o valor que o pai espera receber, respondeu o Sr. Ilson.
Achei esquisito. Pedir para ser condenado, nunca vi. Além disso, ouço é notícia de ameaça ao juiz, se a pessoa perde a ação, mas, naquele caso, era muito mais fácil. Já ia ser condenado mesmo…
Sentenciei em seguida, a decisão foi publicada, o empregador realizou o depósito e o dinheiro foi liberado, tudo no mesmo dia.
Depois dizem que a Justiça é lenta (e é a pura verdade…), mas rapidez como essa, só essa.
O que não faz o medo…

Maria Francisca – julho de 2019.

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 31 de outubro de 2019 

Vestiu-se de coragem e foi
Estava nas nuvens…
Chegou, bateu à porta, tímida.

Uma voz sonora em resposta:
Entre, a porta está aberta,
Pé ante pé, foi entrando.
Ninguém…

Por fim, outra voz: Elza!
Assustou-se: sabe meu nome…

Vim aqui, porque, porque, por…
Oferecer meus serviços.

Sou professora!
E sei fazer bolo, salpicão, carne,
Ah! E bombons finos.
Calma Elza, você já serviu muito.

Sente-se ali e descanse
Chegou o tempo de PAZ.

Sentou-se num cantinho florido.
Pouco a pouco, as estrelas
Acenderam-se, uma a uma.
Elza viu que, no céu,
Nunca é noite.

Maria Francisca  – outubro de 2019

 15 de outubro de 2019 

Meu riso fácil costuma atrair piadistas. Claro, sou uma boa cliente. Rio de tudo. Acho que sou a única pessoa que ainda ri de Renato Aragão. Mas não me venha com piadas “sujas”, que ofendem pessoas. Aí, fecho a cara. Nesse caso, quem fica engraçada sou eu, como dizem meus amigos.
Neste mês, estive em Santa Catarina, mais especificamente em Balneário de Camboriú, para um evento. Lá encontrei muitos amigos, abraços, carinho, lembranças e andanças pela cidade, não tanto porque a chuva não dava trégua.
E encontrei minha amiga Marama Carneiro. Resolvemos andar, com chuva mesmo. Aonde ir? Claro que num shopping qualquer, andar pelas lojas, ver coisas, na esperança de serem diferentes de outros shoppings.
Tomamos um “UBER” e lá fomos nós. Começamos nossa diversão com os papos do motorista. Falava sem parar. Contou da família, entrava em nossa conversa, dava palpite… Depois, começou a reclamar do aplicativo que mandava entrar em rua tal e tal: Ele está me mandando entrar por aqui, mas não vou, de jeito nenhum, senão vou ter que dar uma volta enorme. E, agora, me manda passar ali, não vou, não vou. Eu ria e Marama dava corda: não vá, não. Esse aplicativo está atrapalhando o senhor. E assim fomos rindo até o shopping.
Andamos, andamos, vimos as lojas e suas mercadorias, compramos sombrinha, subimos e descemos escada rolante como crianças, rindo de tudo, até que resolvemos tomar um café.
Chegamos numa lanchonete pegamos o cardápio. Vimos, “café com casquinha e chocolate”. Os olhos encheram-se na mesma hora: novidade! Vamos experimentar.
As xícaras chegaram. Achamos uma beleza e resolvemos fazer um brinde para uma foto, claro, como não registrar um momento desses?
Chamamos a atendente para o registro. Levantei a minha xícara, mas, ai, quando Marama pegou a dela, a asinha desmanchou-se, e foi-se o café, o chocolate e tudo pela mesa. Não imaginamos que a casquinha, com o quente do café, iria derreter-se.
Era uma casquinha como de sorvete. Comestível. Eu sempre adorei sorvete de casquinha. Aliás, mais da casquinha do que do sorvete.
Apareceram, daí a pouco, outros amigos, sugerimos aquele café e todos aderiram com gosto.
Rimos do incidente, mas não desistimos da foto que ficou registrada como o dia em que tomamos o café e comemos a xícara.
E foi uma delícia.

Maria Francisca – setembro de 2019.

 29 de setembro de 2019 

Assis Chateaubriand, segundo Fernando Morais (in Chatô: Rei do Brasil) costumava publicar diariamente um artigo em todos os seus jornais.
Um dia, chegando a Belo Horizonte, escreveu no hotel, e, a caminho de um evento, passou na redação, deixou o escrito para que o linotipista decifrasse seus garranchos, de forma a possibilitar a publicação.
Quando retornou ao hotel, assustou-se, pois encontrou parte do rascunho num dos bolsos, cerca de um terço do que escrevera. Ficou aflito e, logo de manhã, pediu a um mensageiro para buscar numa banca próxima um exemplar do seu jornal, preocupado com o que tivesse saído, ou não saído nada. Ambos os fatos eram preocupantes.
O artigo estava lá, completo. Saiu danado da vida, foi ao jornal, xingou o linotipista de tudo quanto é nome feio, antes de despedi-lo, ao argumento de que tivera a ousadia de escrever um pedaço do artigo assinado por ele, o dono do jornal.
O rapaz tentou explicar, mas nada o demoveu.
Passada a tempestade, acalmou-se e foi ler o artigo, confrontando-o com o que escrevera. Estava tal e qual. Nenhuma palavra, letra, ponto ou vírgula, diferentes do que estava em seu rascunho.
O resto não precisa ser contado. Todos já imaginam.
Relembro essa história, porque nunca me esqueci de um fato parecido que aconteceu comigo.
Trabalhava em Linhares. Naquele tempo, escrevia à mão e a secretaria datilografava tudo. Eu não tinha a habilidade de meu irmão, também juiz, de escrever direto na máquina, de forma a entregar as sentenças prontas.
Como eu ficava em Linhares a semana inteira, e morava num micro apartamento na parte de trás da secretaria, ao lado do gabinete, trabalhava até a hora de dormir e ia empilhando processos e mais processos nas cadeiras para, dia seguinte, serem datilografados os textos das decisões.
Um dia, quando o trabalho retornou, como de praxe, fui conferindo e assinando. Deparei-me, entretanto, com uma decisão de embargos à execução, cujo rascunho não encontrei e, pior, não me lembrava de ter lido a matéria daqueles autos. E eu tinha uma memória excelente. Li todo o processo, vi que a decisão estava correta, mas o fato de não me lembrar do caso, tampouco encontrar o rascunho, me deixou curiosa, pra não dizer aflita: como e por que não me lembrar?
Chamei o diretor de secretaria e perguntei: Cadê o rascunho dessa decisão? Ele, timidamente, disse: Dra., eu tomei a liberdade de fazer essa minuta, mas peço desculpas pela minha ousadia. Não deve estar boa.
Menino, está igualzinho ao meu estilo… Como, em tão pouco tempo, você assimilou isso? Ficou ótima.
E ele nem tinha terminado o curso de Direito.
Eu não sou nem pretendia ser um centésimo do que foi Chateaubriand, por isso, não fiz, nem faria como ele., claro, mesmo porque, a minha primeira atitude foi ler o processo. Aliás, e iria imaginar que não fora eu a autora daquela decisão? E estava ótima.
Marcos Louzada era um excelente servidor e isso ficou constatado nos longos anos que trabalhamos juntos, até minha aposentadoria.
Hoje, quando me lembro daquela decisão tão bem-feita, com uma pontinha de inveja e de saudade, digo em pensamento:
Não fui eu…
Maria Francisca – final de setembro de 2019.

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 25 de setembro de 2019 

Gente que vem, gente que vai
Ladeira acima, ladeira abaixo
Ladeira de pedras, ladeira de asfalto
Carro passa, gente passa
Depressa, passo a passo.
De qualquer jeito, de qualquer arte
Respiração suspensa, quase morte.

No alto, fim de pedras, fim de asfalto
Falta força, falta fala, falta gala
Sobra fé, sobra reza, sobra terra, sobra guerra
Pra chegar ao cume, ao lume
E ver de perto o Convento
E tudo que tem dentro,
Minha gente.

De lá, vê-se o céu, vê-se o mar
Os navios a singrar.
Da penha de Vila Velha,
Vê-se o mundo.

E dá uma saudade…

 15 de setembro de 2019 

Hoje, 21.07.2019, a Folha de São Paulo publicou uma notícia com a manchete: “Processo leva 63 anos para ser julgado no STF, e até advogados já morreram”. O intuito do autor era ser reconhecido filho de José Cândido de Almeida, morto sem deixar descendentes reconhecidos e, assim, ter direito à herança. Não imaginava a via crucis que teria que passar. O processo chegou ao fim, com a vitória do autor, que, se tiver vivo, terá 87 anos. Os advogados já morreram, segundo a reportagem.
Por isso, ir à justiça cobrar algum direito virou piada. “Vai. Teus bisnetos receberão o direito que pleiteias. Se receberem”. Dirá.
Já me perguntei diversas vezes, diante de situações desse tipo: que direito é esse? E cada dia surgem mais casos e, pior, perto de nós.
Uma amiga falou-me, recentemente, sobre um inventário de sua família, ajuizado há 17 anos, dezessete anos, nem acredito, até hoje sem sentenciar. Caso simples: o falecido deixou três terrenos. São três filhos. Já está resolvido entre eles: um terreno para cada um. Se fosse hoje, nem precisaria dessa ação. Faria em cartório. Maiores todos, de comum acordo sobre os bens…Não se sabe o motivo de tanta demora, mesmo porque nem controvérsia há.
Na maioria dos casos, se há controvérsia, quem pode pagar advogado procrastina o processo até não poder mais. Primeiro grau, Tribunal, TST, STJ, STF, retorna, retorna, retorna…Pobre é sempre pobre. Em qualquer área do Direito. Não vemos todos os dias alguém pagar fiança e responder em liberdade? E quem não tem dinheiro vai para a prisão e lá fica esquecido, se não tiver um filho de Deus que o descubra preso e o ajude.
Mas como diz a música, o pensamento é uma canoa, lembrei-me de um caso ocorrido no TRT-ES, que durou 25 anos.
Posso contar à vontade, porque está no livro “20 anos de Trabalho”, em comemoração aos 20 anos do TRT do Espírito Santo.
Tratava-se de uma invenção de um empregado da antiga Vale do Rio Doce. A ação foi ajuizada em 1986. Ele reivindicava o direito de autoria e queria receber metade do proveito que a empresa pretensamente teve com seu invento. A Vale não concordava, claro. Não havendo acordo, as provas necessárias foram realizadas. A perícia durou muito tempo e contou com 92 quesitos do empregado e 92 da empresa. A sentença só foi proferida em 1999, ou seja, 13 anos depois.
Aí, recomeçaram as idas e vindas. Recursos e mais recursos. Até a incompetência da Justiça do Trabalho foi invocada e rejeitada. Só em 2011, o inventor conseguiu receber seu dinheiro, depois do último recurso ao STF e após refeitos todos cálculos.
Lembrei-me desse processo, por 3 motivos. O primeiro deles, porque foi muito difícil e demorado, mas houve mais duas situações pelo menos interessantes.
Princípio de 2005. Eu presidia a sessão no Plenário. O secretário da Presidência chegou lá apressado e me disse que havia um senhor fantasiado de palhaço na porta do prédio do TRT. Por quê? Ele não sabia dizer. Pedi para chamar aquele senhor para falar comigo. Ele não estava mais lá, disseram. Ficara com medo e fugira.
Pedi para fazer contato com ele. Chamei-o para uma conversa. Expliquei sobre a tramitação do processo, dos recursos, dos prazos. Ele agradeceu e saiu, mas fiquei frustrada e, por que não dizer, com muita vergonha.
Por fim, saiu o dinheiro. Em 2011. Vinte e cinco anos depois do ajuizamento. Não é que a ex-mulher do reclamante conseguiu atrasar mais um pouco? Entrou na Justiça, postulando metade do dinheiro… e levou.
Depois de tanto tempo, o inventor acabou por ficar com uma das mãos abanando…
Assim caminha nossa Justiça. Justiça? Tenho dúvidas.

 

Maria Francisca – julho de 2019.

 17 de agosto de 2019 

Hoje, dia do escritor (25/07) lembrei-me de muitos e, principalmente dos que se foram, ficando imortais com seus escritos. Um dos meus preferidos, Drummond, está eternizado não só em poemas, crônicas e contos, mas na praia de Copacabana, sentado num banco, de óculos, pensativo, como costumava ser.
E recebe muitos visitantes que passam horas ali na Av. Atlântica, em sua companhia, tirando fotos e mais fotos e alguns parecem conversar com ele.
Eu tenho belas fotos sentada ao lado dele e adoro olhá-las.
A estátua fica quietinha, esperando as pessoas, talvez tentando se redimir do silêncio anterior já que, por ser muito tímido, não era de muito papo, tampouco de fotografias ou de entrevistas. Então acolhe os visitantes e aceita todo tipo de exposição.
Pena que nunca puxei conversa, porque ficava tímida perto daquele grande poeta.
Mas Ruy Castro garante que testemunhou inúmeros colóquios de visitantes com ele. Um chega cedinho e o diálogo é muito importante, a julgar pelos gestos. Às vezes, encosta-se na estátua, como se estivesse falando baixo ou tentando ouvir o que Drummond estaria dizendo. Será que ele respondia? Outro vai ao fim do dia, levando agasalho e guarda-chuva para protegê-lo dos dias frios ou chuvosos. E fica ali grande tempo, cuidando dele. Outros vão lá só para roubar os óculos do coitado que, já velhinho, não consegue reagir.
Aí, a curiosidade toma lugar: o que será que conversavam?
Ah, se eu soubesse disso antes! Teria tentado uma conversa. E a primeira coisa seria um pedido de desculpas. Sim, porque a primeira vez que ouvi o poema “No meio do Caminho” morri de rir. Coisa mais sem pé nem cabeça, pensei. Aliás, todos que se encontravam no teatro Santa Clara, riram. Foi uma gargalhada geral. Todos jovens, ora.
Eu não sabia nada de nada, nem conhecia a história do poema, mas poderia ser desculpada pelo Drummond, porque o poema, em verdade, sofreu sérias críticas de especialistas, pela repetição, principalmente.
Depois, pouco a pouco, conheci grande parte de sua obra, e tomei-me de amores por ele. Li e reli seu poema, publicado logo depois do falecimento de seu filho, 1928, na Revista de Antropofagia. Eu nunca poderia imaginar. Essa era a pedra no seu caminho, o sofrimento por que passara. Com o poema ele processou esse acontecimento triste em sua vida, dizem os analistas.
Se pudesse, outra conversa que teria com ele seria sobre o poema “Para sempre”, maravilhoso, singular, publicado em 1965, cujos versos finais nunca esqueço, porque além de belos, são verdadeiros: “Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho”.
E a canção que (…) “faça acordar os homens e adormecer as crianças?” E o poema que cito sem parar, talvez para servir de incentivo a mim mesma: (…) “prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação”. Em “Os ombros suportam o mundo.
E crônicas? Falaria apenas de uma pra não encompridar muito o papo: “A menininha e o gerente”. No final, a menininha fez o gerente sentir saudade da filha. Sinto a saudade junto com o gerente todas as vezes que leio a crônica. E fico emocionada.
Teria muito mais coisa para conversar com ele. Mas só se ficasse ali grande tempo. Os visitantes costumeiros deixariam? Os que cuidam do frio e da chuva?
Por fim, pelo menos mais um poema eu lembraria antes de desocupar o canto.
Já citei esses versos até em sentença, tratando da terceirização. “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.”. O nome do poema: “Quadrilha” (sem trocadilho, por favor).
É, Drummond, perto de minha mãe e de sua obra, sou um grão de milho.
Maria Francisca – 25 de julho de 2019.




Maria Francisca Lacerda
Poeta e escritora.
Espírito Santo - Brasil.


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