Sempre houve alguém amante de notícias falsas perto de nós, ou, conforme a moda, de fakenews. Às vezes, o dono da mentira é o próprio divulgador.
Isso não é mais novidade. Ter olhos e ouvidos atentos para esse tipo de coisa é de suma importância, senão imprescindível.
Em época de eleição… Como há mentirosos! Na TV, nas ruas, nas falas…
No calçadão, hoje, vi tantos mentirosos… Os ditos santinhos são entregues a quem passa. Independente de se querer ou não. Estão à sua frente, interrompem sua passagem, enquanto alto-falantes gritam os nomes dos candidatos, muitos, que estão a pedir votos, como se fossem as melhores pessoas do mundo.
Uns já tão conhecidos pela inércia de anos e anos, dizendo-se corajosos para as mudanças necessárias. Outros, cansados de ganhar dinheiro à custa do povo, dizendo-se honestos. Outros, afirmando que sabem cuidar de pessoas, porque são médicos, cuidar? Outros querem colocar seu olhar a serviço da organização e desenvolvimento do Estado e, mais, para apoiar um candidato à Presidência da República. É sério? Apoiar em tudo?
A família nunca foi cantada nessas prosas como hoje. Deus, então…
Agora, mesmo, passa uma propaganda na rua. Aos gritos. Nem ouço mais. Cansada que estou de tanta baboseira. Desiludida? Não. Cansada. Quando é que vamos ter pessoas sérias, que pensam no País, nosso pobre país, cheio de pobreza e miséria?
Não voto em alguém porque é católico ou evangélico, porque crê em Deus ou é ateu. Dizer-se católico nada significa para mim, da mesma forma que dizer-se evangélico. Quantos batem no peito, como está no Evangelho, para dizer Senhor, Senhor e nada fazem pelo povo?
Uma questão difícil é que muito brasileiro ainda vota por interesse pessoal. Já ouvi: vou votar nele, porque está fazendo ligação de trompa nas mulheres pobres do meu bairro. Voto nela, porque vai ajudar muita gente se eleita. Voto nele, porque prometeu emprego ou bolsa de estudo pro meu filho. E muita gente que ali está ajudando nas propagandas está de olho num futuro emprego.
Agora, é a hora da mentira. Acolhem os pobres com marmitas de comida, com colchões, roupas, ligaduras de trompas, promessas de um país melhor, de um Estado melhor.
Quero ver onde estarão e o que estarão fazendo, quando chegar a hora da verdade.
Nem vão olhar para o povo. Recolhem-se, como se tivessem medo do que irão pedir seus eleitores.
Comida? Acabou. Merenda nas escolas? Só biscoito e suco, e olhe lá. Salário de professores? De fome. Segurança? Passa longe. Ninguém cuida disso. Tanto é que os professores, quando podem, já correm de escolas onde o perigo é constante.
É, minha gente. A hora da verdade é terrível.
Você vota em Fulano, em Beltrano? Então, fique atento, porque, quando for eleito, seja que for, você precisa cobrar.
Não sei como, porque ele vai fugir de você, como diria minha mãe, como capeta foge da cruz.
Algum desses há de ouvir. Então, corra atrás e cobre. Cobre, sempre.
O tempo da mentira acaba e a hora da verdade chega, ora se chega!
E eu vou cobrar! Aguardem!
Maria Francisca – setembro de 2022.
Meu hábito nas manhãs: após minhas orações, abro o site do UOL, vejo as manchetes, avalio o que ler, passo para a Folha e leio o que desejo. Recebo jornais locais, faço o mesmo.
Às vezes, umas manchetes tão idiotas, no meu ponto de vista, que nem deveriam estar ali. Algumas apenas tentam chamar atenção para a notícia que nem sempre é como está na chamada. Outras, nem abro, tão esquisitas.
Outras, ainda, penso, não valem a pena. Por exemplo: “Casal compra casa e, ao chegar com a mudança, encontra mais de 16 gatos”.
Também, para que preciso saber quantos maridos teve uma atriz ou quantas namoradas teve um ator, cantor, celebridade qualquer? Se é gay, lésbica, trans etc. Isso vai fazer diferença em minha vida? A vida é deles. Cada um sabe como viver. Suas escolhas não são da minha conta. Não me acrescenta, nem me reduz como pessoa saber e, pior, opinar sobre certas questões.
Exibir-se nas redes sociais é outra “exigência” moderna. Ninguém quer ler nada sério. Diz Nuccio Ordine (A utilidade do inútil): “Num contexto social em que se dá mais atenção ao aspecto exterior que à dignidade interior não é de se admirar que a ignorância mais grosseira tenha assumido a aparência de instrução”. Basta ver a atenção que se dá aos ex-BBB e aos atuais, aos atos extravagantes de certas celebridades, e que são acompanhados por muitos, procurando imitar as roupas, os cortes de cabelo, o estilo etc. Aliás, o que se tornou inútil para o grande público foi o conhecimento.
Há anos, li um conto, que falava da colonização americana, quando chegaram lá os “peregrinos” e formaram colônias que, posteriormente, estados do sul e do norte, protagonizaram a famosa guerra de Secessão.
Pena que não me lembro o autor/autora. Tratava-se de Colônia do Norte, que trabalhava com manufatura (mais importante) e agricultura, mas agricultura familiar, ou quase familiar, já que tinha empregado.
Resumo da “ópera”: Uma menina da família de agricultores saiu a caminhar e encontrou um empregado que cuidava da plantação. Criança gosta de conversar, sabemos. E começou um papo com o trabalhador. Ali ficou divertindo-se com as histórias do homem. A mãe, ao sentir falta da criança, começou a chamar: Ellen, Ellen… Encontrou a filha a conversar e chamou-a para casa. A menina disse: Mamãe, espere, o Mr. James está me ensinando a cuspir longe. A mãe, surpresa com a situação, virou-se para o trabalhador e disse, gentilmente: Mr. James, o senhor acha que é relevante ensinar uma criança a cuspir longe? Ou seja: para que serve isso?
Hoje, quando vejo algo que não me trará acréscimo algum, seja totalmente inútil ou inaproveitável, lembro-me desse conto e digo:
É tão importante como aprender a cuspir longe.
Maria Francisca – agosto de 2.021.
O calçadão coalhado de gente e de cachorros, aliás, talvez mais de cães do que de gente. Para atrapalhar um pouco mais, um enorme caminhão descarregava alguns equipamentos ali, com um estreito espaço para a passagem de quem se arvorava a andar por aquele vespeiro, já inchado de pessoas que assistiam a jogos de um campeonato.
Daí a pouco, ouço gritos. Babaca pra lá, babaca pra cá… FDP é você sua… E assim se seguiram xingamentos e palavrões. Duas moças, nas suas respectivas bicicletas, brigavam com um pequeno grupo sentado na beira da praia.
Escutando aqui e acolá, fiquei sabendo tratar-se de um cachorro grande que atacou um cão pequeno de uma senhora idosa e, não satisfeito, teria atacado as moças também.
Em Brasília, certa feita, segundo um amigo, uma pesquisa teria apurado que havia mais carros do que pessoas em determinada área daquela cidade. Lá, carros, aqui, cachorros, porque acredito que se não hoje, mas daqui a uns poucos dois anos, a Praia da Costa e Itapuã terão mais cachorros do que pessoas. É só prestar atenção. Há quem ande com 2 e 3 cachorros. Ou cada dia com um diferente. Isso já reparei muitas vezes.
Pior de tudo é que os cachorros têm preferência em relação aos humanos. Cachorros grandes sem coleira (ou focinheira, mais adequado), soltos (o que ocasionou a briga, por exemplo). Se você reclama do cachorro solto, a primeira coisa que dizem: É mansinho. Ora, mansinho para o dono. Outros levam os cachorros com grandes cordas, o cachorro fica pra lá e pra cá, atravessa a corda na nossa frente…O jeito é parar e esperar a vontade daquela “coisa linda” me deixar passar. Se reclamar, é briga na certa. E quando deixam o cocô na calçada? Cedinho, dia de semana, é comum ver essa excrecência no chão. Voltei pra casa outro dia com o tênis em pandarecos.
Hoje é obrigatório ter cachorro, ou, pelo menos um animal de estimação qualquer. Se não tem, imediatamente vem a pergunta: não gosta? Ora, simplesmente não quero. Hoje, não quero mais. Quem gosta que crie um, dois, vinte.
Já tive cão e gato. Gostava. No tempo em que eram bicho. Cachorro ou gato (principalmente cachorro) que viram gente ou mais bem tratados do que gente…
Uma senhora vivia me pedindo ajuda para uns tais cachorrinhos abandonados. Um dia, exasperei-me. Tanta criança abandonada… Por que essa senhora só cuida de cachorro? Um dia, após um pedido por WhatsApp, lancei a pergunta: A senhora só pede para cachorro? Há muitas crianças precisando de ajuda também. Nunca mais recebi mensagem dela e achei muito bom. Que ela cuide de seus cachorrinhos e eu, do meu canto, só cuido de dar ajuda para crianças necessitadas. Cada um no seu quadrado, como se diz por aí.
Não estou dizendo que os cachorros devem ser abandonados. Claro que não. Quem tem qualquer animal deve cuidar dele, óbvio, veterinário, limpeza e, principalmente, impedindo que ataque as pessoas.
No retorno, vim andando pelas calçadas em frente, parando a cada esquina, ora nos sinais de trânsito, ora nas faixas de pedestres, esperando a fila de carros, já que motoristas não respeitam as regras de trânsito.
Por fim, digo que não teria reclamação alguma em relação aos cachorros no calçadão. Uns são muito bonitos e interessantes. Mas é preciso que as pessoas passeando com os bichinhos sejam educadas e cuidem para não incomodar os passantes.
Do jeito que as coisas andam, antes de sair de casa temos que nos armar de um saco de paciência!
Em verdade, caminhar no calçadão nos domingos ensolarados virou um desafio.
Maria Francisca – julho de 2022.
Na década de 70, visitei uma fábrica de refrigerantes em Minas Gerais e achei uma maravilha a automação.
A minha memória registrou assim: um empregado ia colocando as garrafas numa esteira. A esteira ia passando, parava debaixo de um funil, que colocava um líquido, parava de novo, mais um líquido, depois, passava por um empregado, que balançava as garrafas e misturava tudo. E assim por diante, até terminar aquele trabalho e o processo recomeçava, incessantemente, até o fim do dia.
Nas fábricas de chocolate, também vivenciamos isso. E era sempre uma maravilha
Essa maravilha mostrou-se doentia. Na década de 80 já começamos ver o estrago que essa automação causava na saúde dos empregados. A famosa LER, lesão por esforço repetitivo, que deixou muita gente com problemas crônicos e até com perda de movimentos nos braços, nos dedos etc.
Charles Chaplin, lá nos idos de 1936, retratou, de forma bem-humorada, no filme “Tempos Modernos”, o desastre que seria o trabalho daquele tipo. A adaptação do homem às modernas técnicas de administração no pós-guerra foi difícil e sofrida. Quem não se lembra da cena de Carlitos, personagem de Chaplin, saindo pela rua querendo parafusar a todos que encontrava?
E, hoje, como está a automação? Cada vez mais “adiantada”. Nas empresas, nem se fala. E as doenças, também, “adiantaram-se”.
Na vida, no dia a dia, tudo é automático. Nos cafés e restaurantes, não temos mais aquele belo cardápio, encapado e com desenhos dos alimentos oferecidos. Temos, sim, uma placa, com o tal de QR Code, para você acessar e ler o cardápio. Até nos bancos das Igrejas aqui de Vila Velha, estampado está o desenho “mágico” pra você ler o que precisa, e dar a sua contribuição.
Outro dia, uma amiga a quem eu acompanhava num café, pediu o cardápio ao garçom, mas ele, gentilmente, mostrou o pequeno cartaz sobre a mesa e brincou: quem não vier com celular, fica com fome…
Pois bem. Nos prédios, residenciais, pelo menos, está acontecendo a mesma coisa. Quando não é o porteiro virtual, que já critiquei numa crônica anterior, os moradores devem portar uma pequena placa, simulacro de chave, que, ao ser colocada à frente de um pequeno aparelho, aciona o portão de entrada. Há, também, uma senha que deve ser digitada nesse tal aparelho, para quem não quiser carregar a chave. Em suma, quem esquecer a senha e não tiver a tal chavinha, fica na rua. A menos que você tenha, e tome automação, a fechadura biométrica.
Enfim, tudo para reduzir o valor das taxas de condomínio, ou, o caso das empresas, para aumentar os lucros. Sempre o vil metal.
Hoje, ri de mim mesma: Fiz como Carlitos, de Chaplin. Cheguei ao prédio, precisei acionar a chave duas vezes, pois são dois portões de entrada. Abri um, andei uns poucos metros, acionei o outro e entrei. Quando chequei perto do elevador, saquei a chave e apontei-a para o botão de chamada. Só quando o elevador se manteve na posição, “cai na real” e comecei a rir.
Entrei em casa, imaginando como seria a minha vida se tivesse um trabalho repetitivo. Não me adaptaria. Claro que faria pior do que Carlitos e seria despedida do emprego no segundo dia.
A modernidade, quando exagerada, acaba por matar a pessoa dentro de cada um de nós.
Maria Francisca – 15 de julho de 2022.
Hoje, acordei mais tarde que de costume, com aquele escurinho do inverno que ainda nem começou e já esfria tudo, pelo menos em nossa opinião. Acostumados com calor…
Tão logo saí da cama, vi a claridade despontando em tons vivos no horizonte e notei que luzes dos navios se apagavam pouco a pouco.
Distraí-me e o sol já brilhava no mar. Na varanda, as buganvílias brancas entrelaçaram-se com as vermelhas, formando um lindo cacho. Claro, tirei foto.
Olhei para a rua. O calçadão já estava movimentado e lá fui eu para a caminhada de sempre.
Andava, andava, e nada de ver algum daqueles velhos conhecidos. Comecei a ter saudade de todos que eu encontrava naquelas minhas caminhadas, há mais de vinte anos. Muitos já se foram. Envelheceram e partiram. Outros se mudaram daqui. O bicho-covid levou muitos. Entristeceu outros, adoeceu muitos. Alguns ainda nem se recuperaram.
Passei perto do prédio onde morou um colega. Senti saudades do tempo em que íamos, sem cerimônia, à casa dos amigos. Recebíamos da mesma forma, sem nos preocupar com coisa alguma. Um café, um suco, coisa simples, e estava tudo bom, porque o melhor, mesmo, era a amizade, o contato, os papos agradáveis. Às vezes, aparecia um violão, uma música agradável.
Caminhava, mas a saudade corria, corria.
Saudades até de mim.
Aliás, essa saudade é recorrente.
Não pergunto como Cecília Meireles: “Em que espelho ficou perdida a minha face?” Mas pergunto: Em que momento passei a ser essa velha? As pessoas gostam de enganar-nos, mas o corpo, a cabeça e a mente não mentem… O espelho está aí, para quem quiser se expor, bem como as fotos sem retoque.
Mas não há, hoje, tantos recursos para melhorar a aparência? Tratamento nos dentes, cirurgia plástica e a tal de harmonização facial que virou moda. Mas de que adianta? Farei nas pernas, nos braços, no abdômen? Teria que fazer uma mudança radical. Isso pensando apenas no corpo.
Imaginemos: Se eu pudesse mudar todo meu corpo? E a cabeça? Voltaria a ser cabeça de jovem? E minha memória? De um click estaria ótima, aprendendo tudo depressa, como era anos atrás? A saúde seria de ferro, como antes? A imunidade idem? Eu iria me adaptar a todas as modernidades, desde tecnologia até novos costumes?
Tudo vai mudando de forma vertiginosa. Uma correria desenfreada de todos. As pessoas não têm mais tempo pra nada. Só uma mensagem aqui, outra ali, até telefonar ficou difícil para muitos.
Ninguém manda telegrama, telefone fixo está acabando, e-mail só em alguns casos, a carta também se foi, mas dela tenho saudade. Como tenho saudades das serestas. Era tão bom receber uma carta…Carta de amor, então! E escutar uma música debaixo de sua janela…Mas isso faz tempo…
Entretanto, de outras tantas coisas não tenho saudades. Das sentenças à mão, de datilografar contratos enormes, com 4 vias, carbono, tentando não errar, da geladeira que gerava pedras de gelo e tinha que ser lavada sempre, do mimeógrafo, dos meios de comunicação deficientes… E haja lembrança!
Nos anos 70, um professor disse “Haverá um tempo em que quem correr vai ficar no mesmo lugar. E quem caminhar apenas, vai ser atropelado.”
Achamos graça quando ouvimos isso, mas ele tinha razão.
Afinal, o bom da vida é passar por ela e viver. Não ser apenas uma sombra. Ter história. Envelhecer? Da vida. Como nos últimos versos de um antigo poema, “Tenho história/Tenho, sim/Escondida nos sete véus.”.
Se tenho história, tenho saudades, sim.
Mas de algumas coisas, não. Digo, apenas: Já foram tarde.
Maria Francisca – junho de 2022.
Liguei a TV. Uma enorme e desordenada fila. É só o que vemos. Pessoas chegando de madrugada em determinados lugares, por um prato de comida. Muita tristeza.
Mas a notícia que seguiu era diferente e causou-me ainda mais espanto: Uma grande multidão invadiu um condomínio. Gente que não acabava mais. Homens, mulheres, crianças…
À medida que se desenvolvia a reportagem, a tristeza retornou. A construção dos apartamentos foi paralisada e a Caixa Econômica não agilizara a retomada dos trabalhos. Os invasores acharam uma beleza terem onde dormir, porque moravam na rua.
Em princípio, dei-lhes razão. Já que os apartamentos nunca acabavam de ser construídos, tomariam posse assim mesmo e veriam como fazer depois, pois não tinham onde morar.
Mas a história não terminava ali, porque aqueles que invadiram não eram os que concorriam aos apartamentos, no Programa “Minha casa, minha Vida”. Então, como ficam?
Não sei como terminou essa confusão. Mas a história vive repetindo e o Poder Público de olhos fechados para a miséria do povo. Daqui a pouco, virá ordem judicial de desocupação e será um Deus nos acuda.
Li, faz tempo, uma crônica do Cony: “O barril e a esmola”. Ele diz que o Filósofo grego Diógenes morava num barril e pedia esmola às estátuas. Por isso, zombavam dele. Mas ele dizia que, como as estátuas não tinham olhos para ver, nem coração para sentir, não ficava aborrecido por não ser atendido.
Cony, na mosca, quando registra: “É mais ou menos uma imagem que pode ser usada para definir as relações entre a sociedade e o poder. Tal como as estátuas gregas, o poder tem os olhos vazados, só olha para dentro de si mesmo, de seus interesses de continuidade e de mais poder.”
Aquele povo da notícia não mora num Barril, como Diógenes. Mas já se cansou de pedir esmolas às estatuas, digo, ao Poder Público.
Por isso, a invasão.
Não sei se todos, mas uma senhora que foi entrevistada tem situação pior. Não tem casa, nem barril, tem uma rua, a areia da praia (quando não é expulsa porque incomoda), tem o frio, a fome e a sede.
As Igrejas e agremiações e muitas pessoas fazem campanha do agasalho, do alimento, mas não dão conta de tanta pobreza.
E o Poder Público? A Caixa respondeu que está tomando as providências junto à construtora que abandonou o serviço, para contratar nova empresa. A burocracia, essa Majestade que ignora todos em volta porque é grande e poderosa, impede tudo, sabemos. Como os governantes não têm olhos nem coração, nada veem, nada sentem, a não ser na época das eleições.
Prometem o que podem e o que não podem, nessa eterna enganação.
O desemprego aumenta, a doença e a fome não esperam, mas estamos com um fundo eleitoral imenso, com inúmeros partidos políticos, nanicos que nada representam, mas a eleição vem aí e as campanhas gastando rios de dinheiro.
A população em situação de rua?
Que procurem um barril!
Maria Francisca – junho de 2022.
Hoje quero silêncio
A vida exige. A morte está perto.
A luta, o trabalho, a conta, a porta
Tudo em vão?
Onde está aquela força?
Por onde aquele abraço?
Quem freou aquela corrida
Para o pão?
O pão que alimentou vidas
Em risco, sem teto, sem eira
Nem beira, na estrada, largadas
Implorando o irmão?
Cadê o irmão?
Agora, sem prumo, calado, sofrido
Num canto qualquer.
Maria Francisca – fevereiro de 2022
Para Matheus Pertence
Vou à varanda e fico admirando aquela chuvinha fina. Sempre tive uma espécie de fascinação por esse tipo de chuva. Fico ali a cismar. Revendo minhas memórias. Repassando lembranças amigas. E começo a pensar nos amigos que partiram, como disse, Rolando Boldrin, “antes do tempo combinado” e de muitos que ainda estão por aqui, mas sumiram. Uns, por puro esquecimento. Outros, porque eram simplesmente nossos conhecidos. Há, também, os amigos da onça, como bem expressava o chargista Péricles, na antiga revista “O Cruzeiro”.
Quando exercíamos um cargo dito importante, os “amigos”, aqueles com “aspas” mesmo (da onça), aproximavam-se para ficar perto do poder. Então, somem, sem deixar lembrança ou herança. Os rapapés começam pelo cargo e terminam com o cargo. Não fazem falta alguma.
E a vida segue.
Quando terminamos um curso, seja de graduação, mestrado ou outro, nossos interesses mudam. Nem sempre são os mesmos dos nossos ex-colegas. Então, normal que muitos se afastem depois de um certo tempo. A mesma coisa quando nos aposentamos.
Aqueles amigos de infância e colegas de escola, de faculdade, cuja amizade ficou para trás, cada qual no seu caminhar, onde não cabem mais aqueles colegas de outrora. Às vezes aparecem, para, em seguida, sumirem de novo.
Quanto aos amigos que fizemos e que nos fizeram…Bem. Esses são eternos.
Alguns, depois de longa data, surgem por encanto. Um reencontro para a amizade há muito adormecida, que renasce, pura e bela. Porque eram amigos, mesmo. Não meros colegas.
Eu tenho amigos de todas as tribos, de todos os jeitos. Uns mais falantes, outros mais calados, todos muito queridos. Mas tenho um tipo que eu chamo de Cometa Halley. Brilham muito quando aparecem, mas apenas a cada 75/76 anos.
É uma festa. Uma alegria só. Digo aparecem, mas não é aparecer fisicamente, não. É responder a uma mensagem, pelo menos.
E, ainda, têm a “coragem” de dizer: Estava morrendo de saudades… Aí, começo meu discurso de brincadeira: Saudades? Sei… E se não tivesse saudade, então?
Mas muitos têm atividades mil e, realmente, não têm muito tempo. Outros, porque são mais desligados, mesmo, ficam na deles, esquecem os compromissos.
Amizade para eles é presença, mesmo na ausência.
Mas são amigos. Pessoas com quem você pode contar e que contam com você, quando se trata de oferecer um conforto ou um aplauso. Se você chora, choram junto. Se você sorri, sorriem junto. Não estão perto de você porque você lhes é útil, mas porque gostam de você de verdade. São pessoas lindas, queridas e amadas.
A amizade é discreta, uns dias intensa, outros de longe, só aguardando a vez, sem possessividade, sem insistência. É um amor suave.
É preciso compreender: cada um tem o seu jeito de amar, de ser amigo.
Como disse Padre Zezinho, “Amizade talvez seja isto: Um jeito discreto de amar!”
Maria Francisca – maio de 2022
Era uma festa. Com direito a banda de música na porta, além de cantores sertanejos. Cheguei a distinguir a música “Eu, a Viola e Deus”. Diversas pessoas vestidas de branco, cantavam, e todas tinham asas. Só podiam ser anjos. Fui olhando… Opa! Alguns têm rostos conhecidos. Mas não conheço anjos… Que é que estou vendo?
Abri os olhos e vi que sonhava acordada, pensando na minha mãe e como teria sido a chegada ao céu, depois da sua longa caminhada, numa vida cheia de amor.
Depois disso, tentei dormir, mas nada de sono acontecer. As histórias foram chegando devagar e tomando conta dos meus pensamentos.
Minha mãe era uma rara figura feminina. Alegre todos os dias. Muito inteligente (sem ter estudado quase nada), “pescava” no ar o que poderia estar acontecendo. Ninguém conseguia enganá-la. Nunca entendemos como ela sabia tanta coisa. E conseguia ajudar a resolver as questões que os filhos e outras pessoas lhe apresentavam
Rogério conta que, quando criança, estava com muito medo de morrer, porque soube da morte de alguns meninos de nossa rua. Não conseguia dormir à noite e falava alto com minha mãe, que o ouvia do seu quarto, pela parede, porque a casa não era forrada. Mamãe, não consigo dormir. Estou com medo de morrer. Resposta: Criança não morre. Ele: Muitos meninos morreram. Ela: Mas você não vai morrer. Como você sabe? EU GARANTO! Falou com tanta certeza, que Rogério ficou calmo e dormiu.
Conquistava a todos com sua prosa. E como tinha histórias…
Uma exímia costureira. Fazia até roupa de homem. Na festa de “Dois de Agosto”, aniversário da Cidade, ela costurava até de madrugada. E nós, quando crianças, dormíamos em esteiras perto dela. Ao sair para dormir, ela ainda tinha que ir acordando ou carregando a todos, filhos, parentes e aderentes.
Mas quero falar de suas qualidades humanas.
Nossa casa, desde a minha infância, era povoada de gente de todos os cantos, das roças daquela região. Comadres e compadres a mais não poder. Iam chegando e ficando por ali, tranquilamente, sem pedir licença. Gente pobre, gente não muito pobre… Sem distinção. Se não tinha cama, dormiam em esteiras. Almoçavam, jantavam, tomavam café, tudo muito simples, claro (era assim em nossa casa), como se morassem ali. Até doidos se hospedavam conosco. Noivas da roça iam para nossa casa para se arrumar…Nós ajudávamos com as roupas, a maquiagem. Era até divertido.
Católica, participava ativamente do Apostolado da Oração, tanto em nossa Cidade Natal como em Coronel Fabriciano.
A Capelinha São José, em frente à nossa casa, em Itambacuri, funcionava como velório, muitas vezes, principalmente de pobres. Como antigamente as pessoas eram veladas na própria casa do falecido e nas casas dos pobres mal cabiam os filhos, tantos eram, o jeito era arranjar outro local para velar o morto. Até certa hora da noite, muita gente caridosa ou curiosa ficava lá. Depois, só ela e eu, ainda criança, fazendo companhia a ela, diferentemente das crianças da minha época e idade, que tinham medo de defunto. Por isso, ela dizia que eu sempre fui corajosa.
Até na Pastoral Carcerária ela ajudava. Quando jovem, eu atuava nessa Pastoral. Ela ajudava fazer comida, nas visitas aos presos, nas festas que fazíamos no presídio.
Crescemos, vendo minha mãe ajudando a todos. Onde estivesse, sempre aparecia um pobre para ela ajudar. Ninguém saía com fome de sua casa.
Havia lá no bairro dois irmãos que trabalhavam como garis. Eles passavam na porta, ela chamava para tomar café. Sentava-se na sala, tomava café e comia pão com eles, como se fossem visitas. Já tivemos presença de um gari e esposa, numa festa de Natal da família.
Uma coisa que ela fazia que me intrigava, quando criança. Ela costurava “mortalhas” e guardava-as no armário. Para quê? É que muito pobre morria e não tinha nada adequado para vestir. Ela, então, “sacava” uma mortalha do armário e doava à família. Fazia outra, e guardava. Quando eu perguntava, ela dizia que era para quando ela morresse.
Há histórias hilárias, porque ela doava o que tinha e o que não tinha.
Uma delas. Meu pai queria vestir uma calça, procurava a tal roupa e nada de encontrar. Perguntou a ela: Sebastiana, cadê minha calça azul-escura? Ela, mais do que depressa, com outra calça na mão: Marcelino, vista esta! Meu pai: Não! Quero aquela azul… Falou, parou, olhou pra ela e disse: Garanto que você deu minha calça para alguém. Ela: Eu faço outra pra você. Ele só balançou a cabeça e disse, mansamente: Você não tem jeito, mesmo…
Um dia, estávamos reunidos em sua casa, os filhos adultos, algumas visitas, era alguma comemoração. A porta da sala sempre aberta (bairro sossegado), surge uma mulher suja, cambaleando, malcheirosa, e desaba numa poltrona, ao lado das visitas. Um silêncio caiu na sala. Minha mãe, rápida, levantou-se, chamou a mulher pra cozinha, deu-lhe comida numa vasilha pra levar pra casa e acompanhou a mulher até à porta. Respiramos, aliviados.
Na casa dela tinha uma pequena área, onde costumava receber os pobres. Um dia, um idoso estava lá com um espinho no pé. Ele não estava conseguindo andar para pedir suas esmolas, e mamãe chamou minha irmã para tirar o espinho do pé daquela criatura sofredora, porque ela tinha glaucoma e não conseguia enxergar para libertar o pobre daquele sofrimento. Geraldinha disse que olhou para aquele pé sujo e inchado e não teve coragem nem de chegar perto. Foi logo arranjando uma desculpa: Vou levá-lo à farmácia, porque tenho medo de infeccionar. Mamãe, claro, captou a desculpa esfarrapada, e, mais do que depressa, pegou a agulha e o álcool e disse: Quem sabe Deus me ajuda! E tirou o espinho do pé do idoso, que saiu agradecido. E Geraldinha, com cara de tacho, muito envergonhada, segundo ela própria comentou depois.
Quantas e quantas vezes tomou o ônibus no Bairro Amaro Lanari para ir ao Bairro de Nazaré, em Cel. Fabriciano, ajudar no asilo de idosos. Costurava para os velhinhos, ajudava nos banhos… Nada a impedia em suas andanças para outros bairros, principalmente no “Mangueira”, para cuidar de seus pobres.
Engraçada uma polêmica dela com um senhor muito mandão, que costumava tomar o mesmo ônibus que ela e suas amigas, rumo ao asilo de idosos. Esse senhor, muito prepotente, tirava quem estivesse sentado na cadeira que ele dizia ser dele, mesmo se, sentado, estivesse um idoso como ele. Minha mãe via aquilo, ficava danada da vida, e prometeu resolver a questão. Um dia, ela tomou o ônibus, a tal cadeira estava vaga e ela, mais do que depressa, sentou-se. Daí a pouco, chega o “dono” e foi logo dizendo. Sai daí, essa cadeira é minha. Não saio, cheguei primeiro, tenho direito de ficar nela. Eu uso bengala, ele disse. Ela apontou a dela pra ele: Eu também. Não está vendo? E pare de dizer que a cadeira é sua, porque não é. Todos riram e o idoso ficou sem graça.
Minhas irmãs, Geraldinha e Ducarmo, dirigiam uma creche comunitária. A felicidade de nossa mãe era conseguir arrecadar doações para essa creche. Quando as cestas básicas eram entregues às famílias atendidas, ela ficava feliz da vida. Nos dias de festa, então… Orgulhosa por suas filhas estarem à frente daquele belo trabalho. Certamente, pensava: seguem meu exemplo.
Suas andanças só reduziram, quando suas pernas já não aguentavam mais, mesmo de bengala. Ficava mais difícil sair de casa.
Não usava maquiagem, simples no vestir, mas tinha uma vaidade: o cabelo. Estava sempre bem penteada. Fez permanente diversas vezes e voltava toda contente da cabeleireira de Teófilo Otoni (quando morávamos em Itambacuri). E demorou para deixar os cabelos brancos, quando mais velha.
Geraldinha lembrou-se de outra vaidade dela. Queria furar a orelha para colocar brinco, mas ficava tirando onda. Gloriosa, dizia: Nunca vou furar minha orelha. Você furou porque sua madrinha levou-a e deu-lhe o brinco, quando ainda bebê, mas não gostei. Mas essa minha irmã entendeu que ela queria sim, e disse, um dia: A senhora quer furar a orelha? Ainda dá tempo. Ela topou, minha irmã levou-a, deu o brinco, e ela ficou feliz da vida. Passou até a usar anéis. A vaidade reacendeu.
E, já bem velhinha, como seus quase cem anos, enxergando quase nada, ainda não se deixava enganar. Eu chegava, ela perguntava: Quem está aí? Eu dizia: Sua filha preferida. A resposta: todas as minhas filhas são preferidas…
Os genros tinham uma brincadeira. Cada um dizia que era o genro mais bonito. Ela sempre respondia: Todos são bonitos.
Se eu fosse falar toda a história dessa mulher, ficaria falando, falando, ou melhor, escrevendo, escrevendo. Como ela dizia, repetindo um compadre, “se fiar no gosto, converso o dia inteiro”.
Era assim a dona Sebastiana: alegre, risonha, caridosa, contadora de histórias, sábia. Que mais? Não é preciso dizer mais nada, porque aí está a história de uma mulher forte, decidida, que soube educar os filhos com firmeza e amor.
Num poema que escrevi em 2017, dedicado a ela, nos versos finais, está:
“Nascer, florescer… morrer?
Com licença, tenho muito a fazer.
Ainda há tempo e sopra forte o vento.
Restam sementes.
Vou semear…”
Faleceu dia 3 de abril deste ano de 2022. Semeou até o fim da vida. A semeadura acabou, mas cremos na Vida Eterna, portanto, sabemos que está ao lado de Deus.
Maria Francisca – 8 de maio de 2022, Dia das Mães.
Resolvi fazer um curso de Provas digitais. O mundo é digital. Nada há nesta terra que não seja digital. Então, para conhecer melhor esse “admirável mundo novo”, resolvi estudar mais.
E estou vendo coisas do “arco da velha”, como diria minha mãe.
Conheço esses meandros faz tempo e já falei sobre isso numa crônica do ano passado, mas agora observo que nada sabia. Às vezes, fico boiando, fora de órbita, tamanha a sofisticação dessas redes. Elas nos enredam de tal forma que, inertes, pasmos, diante de tanta novidade, pensamos num labirinto sofisticado, difícil de ser vencido.
O pior é que se não nos atualizarmos, vamos morrer atropelados, como diria um antigo professor, quando falava dos novos tempos.
Então, vamos lá, aprender tudo que for possível e entrar nesse mundo louco, digital, mesmo correndo o risco de nos tornarmos apenas um robô, tal nosso engajamento nessa loucura.
Uma coisa é certa, como falou um expositor, somos, agora, leitores- navegadores. Temos baixa paciência para refletir e analisar o que lemos. Temos apenas o sentido heurístico, ou seja, procuramos o lado que nos pareça ser correto, sem pesar os dois lados da questão. Isso, no decorrer do tempo, pode afetar nossa visão da realidade. É um risco.
Pois é. Nem sabemos mais o número dos telefones de nossos amigos. Está tudo à mão. Isso não afetará nossa memória, com o passar do tempo? Não nós, que já temos uma vivência, eu, por exemplo, mas nossos netos. Diz-se que a nova geração tem QI menos elevado do que a anterior, não sei se procede, mas há pesquisas nesse sentido. Já se fala que os filhos são menos inteligentes do que seus pais.
Em verdade, nós não nos damos ao trabalho nem de telefonar para as pessoas. Falamos pelo WhatsApp, mensagens de voz que são mais rápidas, mandamos uma figurinha para agradecer, outra pra concordar, e assim, vamos levando com os antigos hieróglifos. Daqui a pouco, nem vamos mais saber ler, nem escrever.
Fabi Gomes, colunista do UOL, hoje, 22.03.2022, pergunta: “Já botou reparo naquele buraquinho ali na parede? Não, não se trata daquele reparo que demanda correção, não me refiro às obras. Tô falando de reparar no sentido de olhar demorado, se dar conta, observar atentamente.”
Para não cair nesse marasmo de ler e não saber o que estou lendo, não reparar em nada, com um olhar atento, quando deparo com aqueles vídeos que viraram uma praga, dando aulas (?) sobre determinado assunto, sempre pergunto ao remetente: quem é esse? Ou: de onde é isso? Foi filmado quando?
Muitos não gostam de minhas perguntas. Falam secamente: não sei. Recebi e repassei.
Bem. Estou a estudar, para conhecer, atualizar-me, mas com todo cuidado para não cair nesse enredo, sempre analisar o que leio, não me tornando apenas leitora-navegadora.
Faço esse esforço todo, para, ao final, quando sabem que estou fazendo esse curso, dizem: Você não para!
Uns apenas querem elogiar, mas, para outros, significa a pergunta: pra quê? Como a dizer: Você já está aposentada, quer aprender sobre provas digitais pra quê? Nem advoga… Ora, porque quero. Quero aprender, porque gosto, porque ainda estou aqui, forte e valente. E pronto.
Não chegou a hora de ficar num cantinho, como disse nestes versos de antigo poema (do livro: Sal, pimenta e ternura):
“Vou ficar velhinha,
De cabelos branquinhos,
Caladinha, no meu cantinho.
Só olhando, e sorrindo.
Todos pensarão:
Ela é bestinha…”
Maria Francisca – março de 2022.