
De vez em quando deparo-me com uma bicicleta em situação desconfortável, para não dizer outra coisa. Estou saindo da garagem de casa e, zás! Surge uma bicicleta (na contramão). Um susto! Por pouco não há um acidente. É sempre assim. Ora quase sendo atropelada por uma, ora andando em disparada na calçada, ora na área de pedestres no calçadão com a ciclovia ao lado. Puxa! Estou sempre perseguida por bicicletas.
Interessante que os ciclistas querem sempre o melhor dos mundos, porque passam nas faixas de pedestres devidamente acomodados no selim e pedalando, não param nas faixas de ciclovias para pedestres, trafegam junto aos carros, nas ruas e avenidas e, muitas vezes, o que é pior, na contramão.
Afinal, são veículos, ou não? O que é uma bicicleta?
Aí, fui ao Dr. Google, ou seja, à “obra lítero-musical” de Paulo Bonates (segundo afirmou numa crônica) e encontrei: “Veículo composto de um quadro (‘conjunto de tubos metálicos’), assentado sobre duas rodas iguais alinhadas uma atrás da outra e com raios metálicos, das quais a da frente é comandada por um guidom e funciona como diretriz, e a de trás, ligada a um sistema de pedais acionados pelo bicicletista, funciona como motriz”.
Pois é. E nenhuma autoridade toma providência quanto a esses veículos. Aliás, o que se vê, noite e dia, é propaganda para incentivar o uso de bicicletas. Há até um parquímetro de bicicletas em Vitória, o que é louvável, mas ações são necessárias para balizar o uso, em respeito aos demais transeuntes.
Ontem, caminhando para os lados de Itaparica, vejo placas com avisos do tipo: “Pedestres, não andem nas ciclovias”. Fiquei danada da vida! Ah, é? Os ciclistas podem andar junto aos pedestres? Só os pedestres é que devem respeitar o espaço dos ciclistas?
Fui caminhando e ruminando essa raiva, quando vejo outra placa, com o desenho de uma bicicleta. Já fui ler com prevenção, mas que surpresa! Lá está: “Ciclistas, parem nas faixas de pedestres ”. Oba, até que enfim, resolveram instruir os ciclistas!
Alvíssaras! Neste domingo, outra coisa boa acontecendo. Escuto um som característico de passeata, corro à varanda e vejo a avenida toda colorida de sol, apesar do dia nublado, com muitos e muitos ciclistas de camisetas amarelas, atrás de um carro de som que falava sobre o respeito no trânsito. Pena que não consegui uma boa foto da grande passeata.
Então, está resolvido: Bicicleta é veículo e como tal vai ser usada.
A ver.
Maria Francisca – julho de 1016.

Para Paulo e Francisco (in memoriam)
Meu trem partiu de repente
Não tive tempo de me despedir
Mas parou na estação das flores
E senti saudades dos meus amores.
Eu queria ficar mais um pouquinho,
Mas uma voz suave me falou baixinho
Que eu deveria partir enquanto tempo
Pois meu tempo se encerrou neste caminho.
Viajo saudoso de tudo
Não sei quando ao destino chegarei
A primavera já se fez faz tempo
Desde que o outro caminho deixei.
Mas sigo certo na esperança
De que há na luz das estrelas
A paz que procuro e anseio.
Que flores nascerão nas veredas
De um mágico lugar onde mora
O Princípio, o Fim e o Meio.
Maria Francisca – abril/2014.

O sol já ia alto, quando resolvi sair para uma caminhada. Ia me esquivando aqui e acolá, procurando proteção numa sombra qualquer, naquele dia claro e belo.
De repente, vi um homem, típico morador de rua: com um saco às costas, sujo, barbudo, de tênis zurrado, descabelado. Andava devagar. Depois, parou perto de uma daquelas árvores com frutos verdes e tentava tirar algo de bolso (Uma arma, talvez?). Em estado de alerta, estaquei. Era um pedaço de pau que, com certeza, usa para defender-se à noite. E ali, para quê? Para cutucar uma daquelas castanhas verdes, de que nem se sabe o gosto ou, mesmo, se são comestíveis, se venenosas, derrubou e começou a comer. E quem tem coragem de parar e perguntar se está com fome, coragem (e até temeridade) de levar para casa para acolher, como fazia minha mãe? E a violência? E o medo? E assim vamos levando essa vida absurda, nesse mundo absurdo, sem qualquer solidariedade com o próximo. Cada um por si, onde Deus não é por ninguém, claro.
Aí, passo perto de um outro barbudo, sentado frente a uma esteira, com alguns pequenos objetos decorativos que, penso, pretendia vender. Só que ele, a cada passante, gritava, Fulano é pedófilo! Fulano é pedófilo! Citava cada hora um nome de um apresentador de TV. Agora, quando vejo na TV uma das pessoas citadas, lembro-me do barbudo e penso: qual seria a intenção dele? Só loucura?
Mal acabava de pensar numa figura, aparecia outra. Uma moça loira, bonita, entrava debaixo do chuveiro, saia correndo, gritando: Água, água, quem paga a água? Água, água, quem paga a água?
Será que ela estava pensando no desastre da água do Rio Doce ou alegre por estar debaixo do chuveiro e com aquele desperdício todo?
Na volta, sentada num banco, com uma bolsa ao lado, uma senhora magrinha, singelamente vestida, chamou-me: Moça, senta aqui comigo um pouquinho! Entre curiosa e temerosa, relutei um pouco, mas sentei-me.
Ela começou a falar baixinho, com o olhar distante, como se estivesse sozinha. Pois é. Fui muito, muuuuiiiitoooo rica. O tempo passou e eu ficava pobre. Até que empobreci de vez. Pobre, só pobre. Não. Miserável, não. Mas resolveram que estava caduca e me colocaram num asilo. Fugi. Acharam-me. Viram que eu não era caduca… Deixaram-me em paz… Filhos…sumiram todos. Ninguém vem me ver. Continuou assim, cada vez mais baixo…Eu mal conseguia entender. Quando senti que ela dormia, levantei-me e sai devagar.
Vim para casa pensando naquilo tudo que vi, todos solitários, e, principalmente, naquela senhora idosa. Não parecia doente, tampouco moradora de rua. E os filhos, por onde andariam? Seria devaneio?
No meio de uma multidão e sozinhos. Sinal dos tempos?
Maria Francisca – janeiro de 2016.

Não tracei planos pra tantos abraços,
Nem pensei ter tantos braços.
Não contei quantas horas dormi,
Nem me dei conta de tanto cansaço.
Não tracei planos pra dias de glória,
Nem pensei nas lutas sem tréguas.
Não tentei fugir das ventanias,
Nem quis mudar a curso das águas.
Não li cartas pra saber o destino,
Nem pretendi interpretar a vida.
Não me livrei de angústias e desditas,
Só desfraldei bandeiras pra seguir na lida.
Não pensei quantos anos viver
Nem quantas ondas vencer
Não vi instalar-se o silêncio,
Nem senti chegar o entardecer.
Hoje olhei o mar. Vi ondas calmas
Fazendo espumas entre as brumas leves,
Lavar meus pensamentos graves,
Pra esquecer os ventos, esses dias frios,
E esta vida breve.
Maria Francisca – maio de 2016.