
”Eu quero um rio de água viva!
Eu quero um sopro de esperança
Minh’ alma segue e não se cansa
De caminhar…”
Antônio Carlos Santini
Pedro é uma figura ímpar, dentre os apóstolos de Jesus. Amo esse apóstolo, porque era humano e mostrava toda a sua humanidade com os gestos e as palavras inusitadas ou inoportunas. Melhor dizendo, estava sempre falando pelos cotovelos. Errava, caia, levantava-se. Fraquejou na fé, ao andar sobre as águas, dormiu na agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras e negou o Mestre três vezes.
No Monte Tabor, Pedro lança uma de suas pérolas. Como relatam Mateus (17,1-8), Marcos (9,2-8 )e Lucas (9,28-36), após a transfiguração de Jesus, Pedro fica tão maravilhado que diz: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias”. Jesus não deu papo pra ele. Mesmo porque, de repente, veio uma nuvem luminosa e os envolveu, deixando todos com muito medo, como diz o Evangelho. Fico a imaginar a cara de Pedro. Estava tão bom, daí a pouco aquela nuvem estranha e aquele medo! Teve vontade de correr, imagino.
Mas foi o homem escolhido por Jesus para receber as chaves do Céu e o texto bíblico mostra a bela trajetória desse homem e o trabalho que realizou.
Gosto muito dessa passagem bíblica. Quantas vezes, não tive vontade de ficar quietinha, deixando tudo sem fazer? Naquele comodismo gostoso, de preferência num cochilo de uma cama macia ou que tal numa rede? Mas o caminho está a aí para ser percorrido. Não há tempo a perder.
Pensando nisso, lembrei-me de uma história (haja história nessa cabeça de velha), sobre o batismo. Contou um amigo que um padre idoso visitando Manaus, foi levado a uma Igreja linda e muito antiga. Os anfitriões disseram-lhe que havia um problema sério naquela igreja: os morcegos. Não sabiam como acabar com eles. O padre, tranquilamente, disse: batiza-os. Boquiabertos, os jovens padres perguntaram: Como? E, ele, mais do que tranquilo. Ora, se batizar, somem todos…
Claro que foi uma brincadeira, mas com toda razão. Somos muito solícitos e presentes, enquanto queremos algo. Quando conseguimos, não damos mais valor, por sabermos que teremos algum trabalho. Isso ocorre na Igreja, quando as pessoas levam seus filhos para serem batizados, na Academia de Letras, onde frequentam antes de ser acadêmicos, depois todos somem. Nos trabalhos voluntários, quando fazem a preparação ou a formação específica, acham uma maravilha, mas na hora da batalha, cadê? Até na diretoria de associações de classe. Entrar para a diretoria é chique, mas as reuniões são muito cansativas. Não vou, não.
E há quem diga, achando bonito: fui convidado, mas não estava “afim”. Ninguém quer trabalho. O bom é cair tudo do céu, prontinho. Diante de uma dificuldade, então, é que nos acovardamos. Sentimos vontade de armar uma tendinha, ou, quem sabe, uma rede, e ficar a balançar preguiçosamente…em suma: fugir da raia. Quantas vezes não tive sono, quando via que tinha muito a fazer? Só pra fugir da responsabilidade. Talvez Freud explique.
Como na música religiosa, todos queremos um rio de água viva e um sopro de esperança, mas o importante, mesmo, é o final da estrofe: “Minh’alma segue e não se cansa de caminhar…”
E vamos que vamos.
Maria Francisca – julho de 2017.

Para minha mãe
Não repare meus cabelos brancos
Não repare minha pele flácida,
Meu andar cansado, meu corpo curvado.
É tudo normal: envelheci.
Perdoe meu cansaço, minha voz pausada,
Meus olhos baços, as minhas dores.
O tempo passou depressa…
Envelheci.
Perdoe se sou lenta, se não o ouço.
Meus ouvidos são outros.
Minhas pernas trôpegas.
Envelheci.
Perdoe essa dinâmica morna
Experiência passada, desusada.
Meu tempo é outro, mais lento,
Mais difícil, mais descrente.
Perdoe minha história vencida
Minha autoridade perdida.
Já não corro, já não aprendo fácil.
Envelheci.
Nascer, florescer… morrer?
Com licença, tenho muito a fazer.
Ainda há tempo e sopra forte o vento.
Restam sementes.
Vou semear…
Maria Francisca


Quando conheci Brasília, a par da beleza da cidade, senti-me um pouco decepcionada. Talvez por ter idealizado demais a tão festejada BELACAP do Juscelino, do Niemayer e do Lúcio Costa. A construção foi uma polêmica, a vida dos moradores de periferia, outra polêmica, a corrupção, mais outra, até a inauguração, uma festa. E, depois, continuou uma festa. Para poucos, claro.
Demorei a conhecer a cidade. Talvez por inércia ou inépcia, mesmo. Eu sempre falava: conheço tantos lugares e não conheço Brasília. Até que criei “coragem” e fui conhecer a Capital da República. Isso em 1995, ou seja, 34 anos após a inauguração.
Que beleza! Tudo falava de grandeza. Largas avenidas, edifícios maravilhosos, igrejas lindíssimas, pura arte. Tudo chamava atenção. A Igreja Dom Bosco, então! Entrei lá e não tinha mais vontade de sair. Um ambiente de paz maravilhoso.
Mas, a decepção: Junto ao poder e à beleza, muita sujeira de camelôs, pedintes, moradores de rua dormindo ao relento. A contradição à mostra. E fiquei a imaginar se os poderosos de Brasília não pensam, ou, se pensam, fecham os olhos e os ouvidos, ao passarem por aquelas largas e belas avenidas. Talvez a película bem escura de seus possantes veículos oficiais já tenha este objetivo: tapar a pobreza. Se não vejo, não me preocupo.
E essa contradição está por todos os lados que se olhe. No início da semana, caminhando na Praia da Costa, vejo uma propaganda de construção: “Luxuoso apartamento de quatro quartos, três suítes. Visite decorado”. Em frente, na praia, muitas pessoas dormindo ao relento. Chamou-me a atenção uma família inteira na areia, enrolada em trapos, com sacos de outros trapos ao lado. Dois adultos e duas crianças. Parei, olhei, olhei para os prédios e segui meu caminho, como todos fazem. Olhei, mas não vi nada, porque, se visse, teria que fazer alguma coisa. E o que vou fazer? Levar para minha casa? Só se for, porque denunciar ao poder público, que é quem tem o poder, já cansei. Não fazem nada. Fico a esbravejar nos meus escritos, num arremedo de discurso em praça pública, talvez para espantar esses fantasmas, ou, mesmo, para não mudar de ideia sobre esses absurdos deste nosso mundo. Pra não me acostumar e passar a achar que está certo.
Elio Gaspari, no texto “O rolezinho pode acabar em rolão”, diz o seguinte: “Enquanto rolavam rolés, um grupo de trabalhadores foi barrado num centro comercial da Barra da Tijuca porque traziam poluição visual e mau cheiro. Isso na cidade onde o révellion da praia teve tenda VIP para convidados e, uma passeata, cercadinho para celebridades”. Aí está, mais uma vez, a segregação a olho nu.
Veríssimo, com sua verve crítica, afiança que a invasão planejada de xópis pela turma da periferia, que tem acontecido nos grandes centros, tem algo de dessacralização: a rua se infiltrando no falso primeiro mundo e, perigosamente, estragando a ilusão. Ancelmo Gois noticia que no Jockey Club o clima fechou porque duas babás entraram na piscina com as crianças de que cuidavam. Uma madame arranjou uma grande encrenca com o diretor.
Já a revista AG de 26.01.2014 trouxe uma reportagem sobre um beach club na Praia de Peracanga, Guarapari, onde se gastam cerca de dez mil reais por tarde, em champanhes e outras delícias. Uma das meninas que frequentam o clube, diz o seguinte: Eu prefiro aqui a estar na areia da praia. O público é selecionado e o ambiente é divertido. Aí, penso: Então tá: a praia não é mais um lugar democrático. Nem na praia querem mais se misturar com a plebe ignara.
Mas como disse Lúcio Manga no “errei na Mosca” de A Gazeta, a miséria está também no facebook. E diz mais: Tudo começou no orkut, mas como havia ficado popular, muitos jovens abastados migraram para o condomínio fechado do facebook, lembram? Completa o autor.
Pois é, então, está na hora de os jovens abastados saírem do facebook e irem para outro condomínio fechado. E isso já está acontecendo. No “A Gazeta” (03.02.2014), com o título Facebookcídio, uma psicóloga afirma que a popularização está afastando algumas pessoas que se sentem diferenciadas e que as redes sociais terão preferência, na medida em que forem exclusivas, ou seja, um condomínio fechado, na expressão de Lúcio Manga.
Daqui a pouco, vão arranjar um meio de isolar parte dos hoje denominados shoppings, que já são à prova de pedintes e vão passar a ser à prova de pobre. Espaço para cada qual. Já não fizeram isso com parte de algumas praias? Isso funciona com a moda e até com decoração de casas e apartamentos: quando fica popular, muda, porque ninguém quer ficar perto de pobres ter algo com eles.
Por fim, quando penso nessas contradições, relembro Gilberto Freire, com “Casa grande e senzala”. O que são a casa grande, senão os edifícios e casas luxuosas de Brasília, ou a moda para os ricos, os cercadinhos para os chamados Vips, os beat clubs, os shoppings fechados contra os tais rolezinhos? O que são as senzalas, senão os barrados nos shoppings, senão a rua como moradia, os farrapos, a fome e a miséria em geral?
Escrevi este texto faz tempo. Mas hoje, verifico que tudo está pior.
Em Brasília e no Brasil todo. A corrupção é endêmica, os números da roubalheira espantam e o desemprego assombra. Gente e mais gente dormindo ao relento. E os belos cachorrinhos peludos agasalhados em carrinhos de luxo nesses dias frios. A fome? A fome do povo? O que é a fome? Não posso ver, não quero ver.
Diz Drummond: “As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação”.
Maria Francisca – julho de 2017.

“Quando o rei eu vejo, bocejo”
Maria Francisca – “Uns são mais iguais”
Era dos direitos? E dos deveres? Nada?
Norberto Bobbio, em seu belo livro “A era dos Direitos” fala da dimensão desses direitos e da democracia, como sistema propício à sua realização. Já no livro “Diálogos em torno da República”, o filósofo Maurizio Viroli, pergunta a Bobbio: Você acrescentaria a esse livro um ensaio sobre a necessidade do dever? Ao que ele responde simplesmente que a reivindicação do direito foi uma resposta ao despotismo. Foi uma necessidade de defender-se da opressão e da prepotência. E complementa que, se ainda tivesse alguns anos de vida, tentaria escrever “A era dos deveres”.
E fico a pensar no nosso tempo. Uma época difícil. Mas estamos precisando nos defender de quê? Vivemos numa democracia. Mas vemos cada vez mais isto: só nós temos direitos. Os outros, não. E os deveres? Ora, os deveres. Será?
Isso me faz lembrar um senhor que foi meu colega no antigo INPS.
No final dos anos 60, o INPS pertencia ao Ministério do Trabalho e Previdência Social. Então, no mesmo local do INPS, funcionava o setor de emissão de Carteiras do Trabalho. Quem cuidava desse trabalho, era Serafim (de saudosa memória), um senhor muito cioso de suas obrigações. Espirituoso, gostava de brincar com as pessoas que atendia, gentil com todos, mas muito rigoroso. Só emitia a carteira, se os documentos estivessem todos em ordem. Se a pessoa insistia, dizendo que precisava com urgência da carteira, ele dizia: Você quer que eu seja bonzinho pra você, não é? Mas aí eu seria ruinzinho para mim e isso não vou ser.
E se alguém dizia, choroso, estou precisando, senão não vou conseguir meu emprego, estou em dificuldade, ele dizia: Você está abusando do direito de ser fraco. E não atendia o pedido, sem que estivessem cumpridas todas as exigências.
Nós queremos tudo, mas sem nos comprometermos com nada. Será isso? Será a hora de pensarmos na “Era dos deveres”?
E, novamente, o diálogo entre Bobbio e Viroli. À pergunta do segundo sobre o dever do cidadão, Bobbio responde: ‘O dever de respeitar os outros. A superação do egoísmo pessoal. Aceitar o outro. A tolerância aos outros. O dever fundamental é dar-se conta de que você vive em meio aos outros”. E quanto aos governantes? “O senso do Estado, ou seja, o dever de buscar o bem comum e não o bem particular ou individual”.
Então, como conviver com tantos problemas no Brasil, apesar de vivermos numa democracia? Nessa nossa democracia, onde mais vale ser amigo do rei? E há amigos do rei que enchem a boca para falar de assunto ou atitude que diz ser republicana (palavra desgastada pelo mau uso) que imagino: ele/ela nem deve saber o significado da palavra.
Nós, por outro lado, vamos nos acostumando com isso e também vamos buscando nossos jeitinhos de resolver tudo nessa base e queremos nossos direitos, sem pensar nos deveres. Passamos a considerar que, se precisamos de algo, vamos arranjar uma forma de consegui-lo, nem que seja vendendo nossa alma ao diabo: votando em quem não pensa no bem comum, para não dizer coisa pior, se esse “diabo” pode nos proporcionar algum favor. E a democracia e a república passam a ser a palavra da moda: a pós-verdade.
Precisamos, ora…E no beija-mão do rei, conseguimos. E se não conseguimos, continuamos chorosos, sem fazer a nossa parte.
Abusamos de nossa fraqueza, portanto, como dizia o Velho Serafim.
Maria Francisca – junho de 2017.
Com essa história de voos diretos reduzidos e preços de passagens proibitivos, tenho viajado de trem para Minas Gerais. No trajeto, além dos recados para os passageiros, nos monitores passam alguns filminhos, mas, sem fone de ouvido – nunca me lembro de os levar – fico sem conhecer o conteúdo das mensagens.
Desta vez, ao contrário, deixei os livros de lado, cansada, pois oito horas lendo sem parar, não há cristo que aguente. Coloquei os desconfortáveis fones e comecei a assistir aos filmes. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o título de alguns vídeos: “Que direito é esse?” Fui vendo e aplaudindo silenciosamente. Tratavam de assédio moral e sexual, acidentes do trabalho etc. Educativos e disso precisamos.
Hoje, diante da reforma trabalhista aprovada na Câmara dos Deputados, pergunto, aflita: Que direito é esse?
Acabo de assistir ao “Bom dia” da TV Gazeta e vejo dois juristas falando sobre as reformas. Claro, o que está a favor, diz, ao explicar a prevalência do negociado sobre o legislado: O empregado agora tem voz. Tem sim, doutor, para apenas dizer SIM. Como já disse o saudoso Millôr Fernandes, “Livre pensar é só pensar”, da mesma forma, a voz do empregado é apenas para dizer SIM. Qual o empregado, numa conjuntura perversa como a nossa, vai dizer não a uma proposta de redução do salário, de aumento de jornada ou qualquer outra proposta do empregador?
E, mais, disse ele que a reforma põe fim ao ativismo judicial. Desculpe, esse doutor deturpou o sentido do termo. Ativismo judicial é interpretação da lei de acordo com o seu espírito e não criação de lei pelo juiz, como declarou. Essa reforma vai amordaçar o juiz e a Justiça do Trabalho, isso, sim. Aliás, o que temos escutado são ataques cadenciados contra essa Justiça que trata dos Direitos Sociais. A propósito, a ministra aposentada Eliana Calmon, sentindo cheiro de desgraça, como o corvo de George Orwell, reapareceu para desferir seus ataques, seguindo, infelizmente, a cartilha de outros membros do Poder Judiciário. Mas ela ressurge das cinzas, também de olho nas eleições de 2018.
Por outro lado, o ex-ministro Ciro Gomes disse hoje, e nesse ponto concordo com ele, que estamos fabricando uma involução do Direito do Trabalho. Quando a China estaria tentando melhorar suas relações de trabalho, o Brasil está indo na contramão da história. E eu digo: quem precisar colocar sua força de trabalho a favor de outrem, daqui a pouco, retornará à senzala, porque a lei áurea é antiga e precisa ser reformada também, como a CLT que teimam em dizer que é de 1943, quando já passou por tantas reformas que nem é mais a mesma há muito tempo.
Sei que vão me dizer: o que adianta você escrever sobre isso, se não tem força alguma para mudar nada?
Lembro uma pequena metáfora que li faz tempo: Um homem circulava num tribunal, onde se desenrolava um julgamento que poderia levar o réu à cadeira elétrica, com uma placa que dizia: “Pena de morte é crime”. Disseram-lhe: Você acha que mudará alguma coisa com isso? E ele, tranquilamente: Eu sei que não mudarei esse estado de coisas, mas o que pretendo é que esse estado de coisas não me mude…
Então, continuo a perguntar: Que direito é esse?
Maria Francisca – 27 de abril de 2107.

“Psiu! Há vida do lado de cá
As árvores balançam
Tem sol, tem céu e tem mar.
Tem gente também,
Além de um cãozinho
E um celular.”
Logo cedo, recebi um vídeo com a voz a Carmem Miranda, cantando uma música que foi sucesso há muitos e muitos anos, de autoria de Assis Valente: “Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí, em vez de tomar chá com torradas ele bebeu parati (…) Tirou o anel de doutor para não dar o que falar (…)” … Acabei de ver o vídeo e saí para caminhar no calçadão, pensando naquela bela voz que durou pouco. Quanta gente gravou essa música depois!
Fui me encontrando com pessoas com seu cachorrinho pela coleira e um celular à mão, teclando ou falando. O cachorrinho cheira uma coisa, cheira outra, a corda estica, a corda encurta e lá vão eles, como se o mundo fosse só aquilo. De vez em quando, um esbarro, uma corda comprida que impede sua passagem, mas aqueles senhores, senhoras, ou senhoritas pensam que seus lindos totós são mais importantes do que as pessoas que por ali trafegam. Às vezes é o celular que atrapalha. A pessoa fica tão distraída teclando ou falando que se esquece de que está numa via pública. Correm até o risco de atropelamento.
Pior, mesmo, é quando não cuidam dos excrementos de seus pets. De vez em quando, perco tempo observando. Olham para um lado, para outro, ninguém olhando. Disfarçam e vão saindo de fininho e lá vão ficando os excrementos para desespero de quem, inadvertidamente, pisa naquela coisa. Sou cuidadoso, correto, se alguém estiver vendo? Sozinho, não preciso ter respeito ao coletivo? Há outros que nem se importam se alguém vê. Uma senhora, por exemplo, que passa sempre na minha rua com seu cãozinho, advertida pelo faxineiro de um prédio de que não poderia jogar o excremento ali, sob uma árvore, porque não era hora de passar o caminhão do lixo, respondeu, brava e “cheia de razão”: Pago meus impostos, então posso deixar o cocô onde quiser.
Uma amiga me disse que tem inveja dos americanos, porque queria ter nascido num país onde as pessoas cuidam do coletivo. Onde as ruas são limpas. Eu disse que a questão é que nosso povo ainda não se deu conta de que a rua é também dele. Nosso problema é pensar que a coisa publica é de ninguém. Então, pode-se fazer ali o que quiser e até vandalizar, como fazem com as lixeiras que não param. Furtam, riscam, estragam.
E os cachorrinhos, que de nada sabem, vão por ali, fazendo a parte deles, enquanto os donos não se “tocam” e deixam que eles emporcalhem as ruas. Só tocam nos celulares.
Andando e pensando, esbarro numa plaquinha no calçadão com os dizeres: “Cuidado! Cocô de um cachorro Porco. Obs. O dono”. Não tive dúvida: peguei o celular (que pra isso uso) e tirei a foto que posto acima.
Melhor, mesmo, é ir escutar de novo a música, porque cachorrinho e celular, dessa forma maluca, não são comigo. Prefiro vestir uma camisa listrada e sair por aí…
Maria Francisca – fevereiro de 2017

Já li diversos autores famosos, entre os quais Rubem Alves e Clarice Lispector, dizendo-se pobres quando crianças, mas felizes, porque não se davam conta de sua pobreza.
Eu sempre soube que era pobre, mas a pobreza não me incomodava. Estudava, tinha meus livros, minhas colegas, brincava. Tinha amigos ricos e eu sabia disso, mas transitava, tranquilamente, entre ricos e pobres.
Pesquisa realizada por Celso Athayde e Renato Meireles comprova que 95% das pessoas que vivem em favelas no Rio se sentem felizes. Um terço delas não sairia dali, nem que o salário dobrasse. Segundo os autores, 80% desses habitantes têm casa própria. Essa pesquisa está no livro Um país chamado Favela, da Editora Gente. Então, pobreza não é sinônimo de infelicidade.
A desigualdade nasce da comparação: alguns autores já o proclamaram e, em especial, Rousseau que coloca a propriedade como origem de todo o mal. O fato de os homens reunirem-se em uma sociedade deu-se por autopreservação, dissera o filósofo, visto que é mais fácil resistir e combater animais selvagens quando se está em grupo. Com essa convivência teria observado o primeiro passo para a desigualdade: distinção entre o mais belo, o mais forte, o mais destro, o mais eloquente. Daí originariam os sentimentos de vaidade, desprezo, vergonha e inveja, até então desconhecidos no estado natural, recrudescendo e fincando raízes na vida das pessoas, com a propriedade.
O belo, o forte, o eloquente e o inteligente causam, sim, inveja, mas a disputa pelos bens materiais é o que tem prevalecido e provocado discórdias maiores no mundo de hoje e, porque não, infelicidade. Claro que estou falando, aqui, de pobreza e não de miséria. O miserável não tem dignidade nem sequer para pensar. Se não pensa, não tem como fazer opção. O alimento é a única coisa que pretende e a única coisa com que se preocupa. Pão. Apenas pão. Beleza, nem se fala.
Cacau Rhoden diz que vivemos em uma sociedade em que as pessoas são infelizes. Por quê? Estaríamos colocando toda a fonte de satisfação no consumo, o que provocaria uma cascata. Nunca estarmos satisfeitos: uma vez adquirido algo, desejamos mais, numa cadeia infinita. Essa insatisfação, segundo o cineasta, está em nós mesmos. E Marcia Dessen, em recente artigo na “Folha” disse que a maioria de nós não sabe o que quer. Então, programamos o cérebro para olhar à nossa volta, em relação aos outros. Queremos o que o outro tem. Olhe a comparação aí.
Claro que nós passamos essa sede de consumo aos nossos filhos. Ficamos todos infelizes por um “homem de ferro” que nosso pai não pôde comprar. Nossos coleguinhas têm e nós, não. O pai consegue aquele tal “homem de ferro”, mas aparece outro, mais sofisticado, exibido ontem por nosso colega no recreio. A comparação parte, apenas, do material, do que posso ter. E, agora, com os jogos eletrônicos, com as redes sociais? E os telefones celulares, notebooks de última geração? Os amigos têm, quero também. Se assim for, a chance é do complexo de vira-latas (expressão cunhada por Nelson Rodrigues) e a infelicidade mora aí mesmo.
A educação tem um papel importante nesse contexto de desigualdade.
O jornal “A Gazeta” de hoje (domingo, 05.02.2017) trouxe uma entrevista com Sri Prem Baba, Guru brasileiro que mora na Índia. Numa de suas respostas, disse o seguinte: “ Talvez nosso principal erro seja a crença de que a felicidade está fora de nós”.
Pois é. Esses dias escutei uma frase interessante. Uma amiga dizia que determinada pessoa tinha vocação para ser infeliz. Claro que ela disse isso sem refletir, apenas porque a pessoa vive reclamando de tudo, mas eu fiquei pensando nisso. Será que eu nunca me senti infeliz, quando criança, mesmo sabendo-me pobre, porque tenho vocação para ser feliz? Quem sabe foi a Poliana quem me ensinou o jogo do contente? Ou foi a educação que recebi que me ensinou a me preocupar mais com outras questões da vida? Será que tenho o gene da felicidade?
Mas vale perguntar: Existe vocação para ser feliz ou infeliz? Quem sabe nascemos com um genezinho da felicidade? A pensar…
Maria Francisca – fevereiro de 2017.

Hoje, tentando arrumar o cantinho de livros religiosos de minha biblioteca, encontrei este livro muito antigo: “Minutos de Sabedoria”, de C. Torres Pastorinho. Foi só bater os olhos no tal livro e o túnel do tempo respondeu: presente!
Era a década de 70. Eu trabalhava no então INPS, que envolvia a área de benefícios previdenciários, arrecadação, pessoal etc.
Fui designada para chefiar o Serviço de Seguros Sociais, setor que cuidava de todos os benefícios previdenciários, inclusive de acidentes do Trabalho.
O serviço era tão volumoso que beirava a desumano. A equipe jovem e sem experiência, inclusive eu. Como lidar com tanto trabalho e ainda ter que orientar a tantos? Só com muita disposição, trabalho, broncas, jornada excessiva etc.
Naquela época, os universitários poderiam trabalhar em órgãos públicos, numa espécie de estágio, como participantes do Projeto Rondon. E no meu setor de trabalho havia alguns da área de engenharia, sem qualquer experiência administrativa ou social. Inclusive uma moça chilena que nem sequer dominava a língua portuguesa.
Eu passava o dia a ensinar aqui e ali e nem sempre tinha a paciência necessária.
Um dia, já cansada, à beira de um ataque de nervos, chega a chilena e pergunta, com aquele sotaque portunhol: Dona Franchesca, o que eu coloco na ficha? Era um caso de alta médica e eu disse: Data da cessação do benefício, mas você deve registrar a sigla DCB. Ela, sem saber o que era aquilo, perguntou: É B de burro ou B de bassoura?
Eu expliquei a ela o que era um B e um V em português e, cansada, atordoada, danada da vida de ter que responder até aquilo, abri a gaveta peguei o livro “Minutos de Sabedoria” com o objetivo de ler algo e acalmar-me. Abri aleatoriamente e li, mais ou menos isto: “Não se irrite. Tudo que sabe é dom de Deus. Então, ensine-o a seus semelhantes da melhor forma que souber”.
Fiquei mais danada, ainda, joguei o livrinho dentro da gaveta e comecei outro trabalho, mas ao fim do dia, refleti o que havia lido e contei aos colegas no dia seguinte. Eles riram e o livrinho mudou de nome. Era, agora, o livrinho abusado e todos me pediam, quando estavam cansados. Empreste-me o livrinho abusado…
Anos depois, juíza em Linhares, fui removida para Vitória. Lá, deixei um exemplar do livrinho para o colega que foi me substituir. Ele me ligou depois.
Francisca, você deixou um livro de pensamentos para mim, mas foi só abrir o tal livro e li: “Não julgueis para não serdes julgados”. Essa é boa, como é que faço, então?
Rimos juntos e contei a ele a história do livrinho abusado…
E, agora, abrindo o livro, leio e registro: “A vida é um canto eterno de beleza”. E acrescento: De aprendizado também.
Que assim seja!
Maria Francisca – janeiro de 2017.

Você já viu uma borboleta? Elas são lindas, não são? Coloridas, gostam de ficar voando pra lá e pra cá, pousando nas flores, e enfeitam qualquer jardim. Gosto muito de borboletas.
Mas há uma borboleta que dá medo. Você já teve medo de borboleta? Eu já. Até meu avô já teve medo de borboleta. Daquela borboleta preta que parece uma bruxa e é assim chamada: BRUXA. É grandona e dá medo.
Ontem, uma dessas borboletas bem grandona estava pousada no espelho do quarto de minha avó. Eu pensei que era um enfeite. Estava na hora de ir dormir e o vovô já estava bem deitado. Sossegado, quase dormindo.
Quando eu falei do enfeite, ele, olhou para a parede e, morrendo de medo, disse pra vovó: Tire essa borboleta daí?
Só aí foi que vi: não era enfeite. Era uma borboleta-bruxa. Enorme.
Minha avó pegou uma almofada e começou a perseguir a tal borboleta que, em verdade, é uma mariposa, esse bichinho que vive correndo atrás da luz. Mas a borboleta pulava pra lá e pra cá, em círculos, e a vovó não conseguia fazer com que ela saísse do quarto, mesmo depois que abriu a porta e acendeu a luz da varanda.
Correu tanto que pulou atrás da cama. Aí a vovó foi buscar uma vassoura e enfiou atrás da cama, mas a tal bruxa saiu voando e foi pro meu lado e vovó gritou: Corra, Leozinho. Pule em cima da cama. Corri, mais do que depressa, e pulei na cama do vovô e lá fiquei e, coitada da minha vovó, não conseguiu mais encontrar a bruxa, porque ela se enfiou debaixo da cama e ninguém achava onde ela estava.
Depois de algum tempo, resolvemos ir dormir, porque meus olhinhos já estavam se fechando de tanto sono, mas sabe o que aconteceu? Sonhei que a borboleta estava dentro da minha cabeça.
Mas acordei e vi que foi que foi apenas um sonho.
Será que ela voou pra fora do prédio e foi embora?
Será que ela tem casa? Será que há um borboletário?
Acho que precisamos pesquisar sobre isso.
Que tal, vovó?
Maria Francisca e Leozinho (5 anos) – 13/12/2016.

Sábado à tarde, Vila Velha é um deserto de pedestres. Ou de ideias, talvez.
As lojas fechadas. Só carros trafegam. Parece que todas as pessoas se escondem em casa. Não se vê viva alma andando na rua.
Justo nesse dia precisei ir ao supermercado a cerca de três quadras de minha casa. Comprei algumas caixas de leite e vinha subindo uma rua, puxando aquele carrinho pesado, até arrependida de ter ido a pé.
Ando sempre alerta. Como disse Rubem Alves, quando saio de casa, levo meus olhos para passear. Por isso, vejo tudo ao redor. De repente, observo um homem na calçada. Parecia inquieto. Fiquei um pouco cismada, pensando na violência diária, mas não havia jeito de passar ao largo, porque eu estava longe da faixa de pedestre, o carrinho pesado e o tráfego célere.
Arrisquei. Quando estava perto, ele me abordou: Senhora, senhora, por favor. Eu não tinha alternativa. Parei.
A seguir, o diálogo:
Moro perto do Shopping Praia da Costa.
Que foi que o senhor disse?
É que estou embriagado. Moro perto do Shopping Praia da Costa.
(Não estava entendendo nada, mas perguntei na base do palpite) O senhor está perdido?
Sim, não sei voltar pra casa.
Então, perguntei-lhe o nome da rua, se era mais perto da praia ou do shopping e, assim, pude indicar-lhe o caminho para casa.
Ele sorriu, agradeceu e disse:
Acredita que uns moleques tomaram meus óculos, jogaram no chão e tomaram meu dinheiro?
Puxa! O senhor ficou sem nada?
Sem nada, não. E a senhora?
(Ai, ai, ai, já vai pedir dinheiro! É a primeira coisa que pensamos, infelizmente).
Eu? O senhor continua sem nada! (Ri e ele riu também)
Não! Não é todo dia que encontramos pessoas tão gentis como a senhora. Garanto que todos conhecem a senhora. Vou perguntar na Banca de Revista, porque assino o Jornal de Brasil. Garanto que conhecem a senhora. (Não entendi o que tem a ver a banca de revista, com assinatura do Jornal do Brasil. E essa história de todos me conhecerem, se nem meu nome ele sabia.)
Conhecem nada, moço! Ninguém me conhece. Thau! E fui saindo bem depressa, para livrar-me daquela questão que já se mostrava um problema e com muita vontade de dizer-lhe, como diria, quando criança, diante de coisas estranhas: “Comigo, não, violão”!
Segui pensando naquele fato inusitado e lembrando do que sempre dizem meus amigos: Só com você acontecem coisas desse tipo.
Será?
Maria Francisca – janeiro de 2016.