Maria Francisca - Blog da Maria Francisca Lacerda, escritora e poeta. - page 10

 19 de julho de 2019 

Na novela da Rede Globo, “Chocolate com Pimenta”, transmitida anos atrás, havia uma personagem com mania de grandeza. Achava-se superior e, por isso, vivia repetindo: Sou chique, Bem!

Esse bordão caiu no gosto popular e há sempre alguém repetindo isso por brincadeira, porque, em verdade, era muito engraçado, em face do contexto, já que a moça em questão nem era pessoa importante, tampouco chique.

Ouvi esse bordão esses dias e lembrei-me de situações engraçadas que, embora os autores não verbalizassem o termo, queriam dizer a mesma coisa, como se fosse um deboche para com pessoas próximas.

Na minha Terra Natal, nos anos 60, era comum as pessoas procurarem trabalho em São Paulo. Sejam empregadas domésticas, sejam trabalhadores rurais, ou qualquer outro trabalhador que não estivesse encontrando trabalho e sustento na sua cidade. E muitos vinham passar férias com suas famílias, trazendo presentes, alegria, o que era muito bom, e aquele sotaque carregado do paulistano que faziam questão de exibir como um troféu. Era muito engraçado vê-los falando deforma diferente.

Pois bem. Joana, trabalhadora doméstica, fez esse percurso e deixou a filha com a mãe, nossa vizinha, uma mulher excelente, simples, quase analfabeta, nossa amiga. A menina tinha a idade da minha irmã e as duas brincavam juntas.

Um dia, a Joana veio de férias e, numa tarde, começou uma chuva fina, bem fina e a filha estava brincando do lado de fora. Joana, então, numa casa da frente, conversando, viu a filha na chuva e gritou de lá para a mãe: Mãããiiiêê! Chame a Martinha pra dentro, está garoandôôô… A mãe: O quê, Juana? Está garoandôôô! O quê, Juana? Está garoandôôô! O quê, Juana? Está chovendo, ora! Enraiveceu-se a “Juana”.

Nós, ali perto, rimos a valer.

Alguns anos depois, chegou a vez de pessoas migrarem para os Estados Unidos. Da mesma forma, retornam bonitos, alegres, contando tantas vantagens que chegamos a pensar que não passaram perrengue algum por lá. Como os pseudo paulistas, adquiriam um pouco de conhecimento do Inglês e gostavam de exibi-lo. Aí, acabavam sendo protagonistas de situações engraçadas, como a “Juana”.

Muitas pessoas de minha relação pessoal fizeram essa experiência, mas uma delas fez-me rir. Ficou lá uns três anos e retornou pensando que era americana, achando-se o máximo, ou seja, “a dona da cocada”, debochando dos brasileiros e falando mal do Brasil, como é comum acontecer.

Um dia, num grupo de pessoas conversando, perguntaram-lhe se era ela quem levava o neto pequeno para a aula. Ela disse: Não. Ele vai de Veen, para em seguida, dizer: Van, como dizem vocês, naquele tom caraterístico.

As pessoas presentes fizeram simplesmente um “ah” eu, na mesma hora, lembrei-me da “Juana”, com seu “garoandôôô”.

Hoje, em todos os lugares, e até em redes sociais, nas discussões, sempre aparece um mais inteligente e mais culto do que os outros, e até o próprio dono da verdade. São os egos em ebulição.

Eu só faço rir, quando vejo ou ouço essas coisas, lembro-me da expressão e tenho vontade de dizer ao “pavão”: Sou chique, Bem!

Maria Francisca – julho de 2019.

 9 de julho de 2019 

Leozinho tem sete anos. Estuda o 3º ano do Ensino Fundamental.   Vejam como escreveu:

Um cachorro foi resgatado pela PM no Morro da Piedade em Vitória no dia 09 deste mês.
A PM foi cumprir um mandado de busca e apreensão e encontrou o cachorro.
O animal não era alimentado, sofria maus tratos e vivia acorrentado.
Os suspeitos estão foragidos e o nome deles não foi divulgado até o fechamento desta edição.

 23 de junho de 2019 

Amigos, fui dar uma arrumada no blog e, sem querer, limpei diversos comentários. Alguns ainda sem minha resposta. Peço desculpas . Um abraço a todos.

 11 de junho de 2019 

Meus netos pequenos sempre gostaram de brincar na banheira. Gabriel e Daniel, muito amigos, hoje rapazinhos, jogavam água pra todo lado e eu comprei uma seringa daquelas grandes, de plástico, descartáveis, para desafios. Um jogava água no outro e adoravam. Um dia, a seringa sumiu. Procurei, procurei e, então, perguntei a eles: Cadê a seringa? Um olhou pro outro (já vi que havia coisa errada) e o mais velho disse: Dani jogou pela janela. De imediato, Dani disse, apontando o dedo para o Gabriel, enfático: CULPA SUA!
Lembro-me dessa história e penso ser uma atitude natural de defesa atribuir a outrem, num primeiro impulso, algo errado ou inadequado que fazemos ou que nos acontece.
Outro dia, andando pelo centro de Vila Velha, tropecei, e um “engraçadinho” logo disse: “Levante o pezinho”… Claro, se ele não dissesse isso, eu já ia dizer que a culpa era do buraco, como já disse Leandro Karnal: Até quando tropeçamos, atribuímos nosso percalço ao piso irregular.
Como já aprendi a lição, não digo mais que é culpa da “calçada cidadã”, quando dou de cara com um poste e saio com braço e pernas ensanguentados, mesmo numa beira de calçada toda quebrada. Tropecei e quase caí, porque estava olhando para uma moto e me distraí.
E se não temos as coisas, culpa do Estado, porque o hábito de querer tudo fácil está em nós. Ora, tão bom quando os bens de que precisamos está ao nosso alcance, sem esforço, não? De preferência, quando vem do Poder Público. Pagamos imposto, ora. A eterna mania.
Lembro minha infância no Curso Primário, correspondente, hoje, à primeira parte do Ensino Fundamental. Os alunos compravam uniformes, livros, cadernos etc. Somente os muito pobres, quase miseráveis, é que ganhavam a merenda (palavra hoje fora de moda, substituída por lanche). Eu tinha muitos colegas nessa situação. Eu era pobre, mas não miserável. Então, meus pais compravam tudo.
Hoje, em escola pública, alunos ganham uniforme, material e lanche.
Há pouco tempo, no trabalho voluntário que realizava nas escolas, acompanhava alunos a uma visita ao TRT e vi que não estavam com a camisa do programa. Questionada, a professora disse que não havia recebido o fardo com o material (e não havia, mesmo). A Escola também não recebeu os uniformes. Mas muitos meninos usavam camisa de marca e celular de última geração. Podiam comprar camisas caras e celulares, mas o uniforme o governo tem que dar. Não tinham uniforme por culpa do Governo Municipal.
E a enchente? Vila Velha sofreu, em maio, com uma chuva torrencial e demorada, com alagamentos terríveis em diversos bairros, principalmente em Cobilândia, onde até o hospital é vulnerável e os pacientes tiveram que ser retirados às pressas.
Criticamos as autoridades, claro, elas têm sua parcela de responsabilidade. Inclusive, há pedido de investigação ao Ministério Público, mas devemos pensar na nossa quota de culpa.
Praia da Costa e Itapoã foram bairros que ficaram debaixo d’água em diversos pontos.
Façamos nosso exame de consciência.
O lixo jogado em locais inadequados é culpa do poder público? A sujeira que os lindos cachorrinhos fazem nas calçadas e nas ruas é culpa do poder público? O lixo no valão é culpa do poder público? Até sofá jogam no valão… Quem jogou foi o Prefeito? Quando os bueiros entopem, quando a maré sobe trazendo sujeiras e mais sujeiras, a culpa é de todos nós, que não cuidamos da casa onde moramos.
É só passar bem cedo, na segunda feira, pelo calçadão, que se vê a quantidade de lixo nas calçadas, na areia da praia e até cocô de cachorro, apesar do brado de alguns voluntários, na areia, aos domingos, pedindo às pessoas para recolherem seu lixo.
Como diz Leonardo Boff, o homem continua acreditando que é o centro do universo e que o conjunto de seres da natureza somente possui razão de existir na medida em que serve ao ser humano, que pode dispor deles ao seu bel-prazer.
E assim vamos caminhando, porque não tenho que me responsabilizar por nada. Nem pelos percalços da vida.
Agora, se você não gostar do que escrevi, CULPA SUA!

Maria Francisca – Junho de 2019.

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 31 de maio de 2019 

Rubem Alves afirmou, certa vez, que fomos educados para ser ferramentas. E tem razão. Não se pode simplesmente ficar sem fazer nada. Quando pedi aposentadoria, muitos me perguntavam: O que você vai fazer quando aposentar-se? Nada, claro, eu respondia, para espanto das pessoas. Aposentou-se tão cedo! Por quê? Quando não pensam que estamos doentes e passam a dúvida pra frente: Será que está doente?
Agora me perguntam: Tem viajado muito? Não, não tenho viajado. Por quê? Às vezes respondo: Porque não tive vontade ou por pura preguiça. E sempre causo espanto. Nossa, seu filho mora na França e você ainda não foi lá? Aproveite…Dizem.
É que, se não estivermos trabalhando, temos que viajar, dançar, ir a festas, em suma, badalar e, de preferência, postar tudo muito bonito nas redes sociais. Ninguém lembra que podemos ter outros interesses, como um trabalho social, escrever, ler, ou, simplesmente, ficar em casa sem fazer nada ou fazendo algum serviço doméstico. Se alguém disser que não está fazendo nada, Deus me livre! É um espanto só.
Esses dias, conversava com uma amiga que estava em férias. Ela disse: Optamos por ficar por aqui, mesmo. Estávamos cansados, com pouco dinheiro...Eu disse: Olhe, às vezes você descansa muito mais ficando em casa, do que viajando. E viajar nas férias virou obrigação. Tudo que vira obrigação deixa de ser lazer.
Hoje, a palavra de ordem é “qualidade de vida”. Temos que ter qualidade de vida, de qualquer jeito. E isso vem a ser o quê?
Um amigo contou-me que fez um curso na empresa onde trabalha e que a facilitadora foi separando os grupos: quem tinha algum hobby, quem praticava esporte, quem fazia exercício físico. Ao fim, sobraram três, ao que um deles perguntou: Não vai ter um grupo de quem gosta de ficar à frente da TV vendo jogo de futebol e comendo batatas fritas, não? E, diante da cara de espanto de uns e das gargalhadas de outros, emendou: Já joguei futebol, fui mergulhador, nadador, lutador de judô…Em suma: já fiz isso tudo. Agora, não faço mais. Decidi dedicar-me à minha carreira. Gosto do meu trabalho, trabalho muito, chego cansado e quero ver meu futebol na TV e comer minhas batatas. É pecado? Não sou um workaholic, mas worklovers. A facilitadora sacou o plano B de script, desconversou, e levou o grupo para uma atividade lúdica.
Claro que devemos cuidar do nosso corpo e de nossa saúde. Como disse o Padre Helder, o nosso corpo pede espaço, tempo, atenção, alimento e, sobretudo, nos pede descanso e bem-estar, inspiração e contemplação. Mas tudo depende de cada um. Das escolhas. E nenhum de nós pode saber o desejo do outro, o interesse que cada atividade ou ação desperta nas pessoas que nos cercam. Seja de quem escolhe ficar em casa nas férias, sem fazer nada, seja de quem quer “badalar” por aí, viajar ou internar-se numa mata, fazer retiro ou coisa que o valha. Não por estar na moda, mas porque avaliou e conhece suas vontades e necessidades.
O Eclesiastes já nos dá a lição de que há um tempo para tudo debaixo do sol. Tempo de plantar, tempo de colher, tempo de guerra e tempo de paz, tempo de falar, tempo de calar.
Eu fui aprendendo a viver segundo meus desejos e minhas necessidades, sem me preocupar com a ferramenta, porque se fosse pensar nisso, aposentadoria, nunca. Nunca, não. Há a expulsória…
Penso, sigo, passo.
Cedo espaço
Pros que hão de vir.

Maria Francisca – maio de 2019.

 10 de maio de 2019 

Um cheiro forte impregnou a sala. Assustados, corremos para fora.
Não demorou, viu-se uma nuvem escura sob a luz do poste, na rua. E tudo se encheu daquela horrível fumaça que tanto mal faz ao nosso já corroído pulmão.
Busca daqui, busca dali, e apareceu: alguém colocou fogo num sofá que outro alguém teria colocado na rua.
Dia seguinte, o estrago daqueles dois: o incendiário e o desleixado, ambos mal-educados, para não dizer coisa pior. Flores e folhagens daquele canteiro, que a duras penas tinham crescido, simplesmente pelo carinho e a dedicação de um morador, jaziam retorcidas, mortas, caídas no chão. Sem tempo de receber socorro.
A vida já pede socorro todos os dias, mas, mesmo assim, aparecem esses seres insensíveis, que só vêm para destruir.
Em volta das plantas, os vizinhos olhavam desconsolados e silenciosos. A tristeza era patente. Todos num só pensar: quem teria sido o autor de tamanha excrescência?
Pouco a pouco, foram retornando aos lares, de cabeça baixa. Amanhã, deverão replantar as flores e folhagens e tentar recuperar a beleza de outrora daquele espaço.
Esse fato aconteceu em Cel. Fabriciano, à beira da mata ciliar, que contorna todo o Bairro Amaro Lanari, onde mora minha mãe.
Não houve vítimas humanas e o espaço pode ser recuperado facilmente.
O que dizer do incêndio que devorou parte do Museu Nacional? Um acervo centenário virou cinzas. Sem vítimas humanas, mas, mesmo assim, uma tristeza. Será restaurado? Ninguém sabe como, nem quando, se falta dinheiro para tudo neste País.
E a bela Catedral de Notre Dame? Essa, sim, será restaurada a toque de caixa, porque pessoas ricas farão gordas doações para que isso ocorra.
O que houve? Todos ficam a perguntar.
No Espírito Santo, como nos dá notícia “A Gazeta”, fogo destrói 3 lojas em prédio histórico no Centro de Vitória, um outro incêndio atinge dois galpões de uma empresa, em Vila Velha e, mais outro, em Aracruz, na área de suprimentos de uma empresa. Todos no mesmo dia. Felizmente, não houve feridos. Na UFES, com tantos percalços pelo corte de verbas, prejuízo com incêndio ocorrido na manhã de 03.05, deixa sem energia e sem o restante das atividades, portanto, toda a Universidade.
Ninguém sabe por que, nem como se deram esses incêndios.
Mas tragédias humanas, com vidas e mais vidas ceifadas, não nos faltam: Mariana, Brumadinho, Muzema… E se tudo isso fosse um desastre anunciado, como muitos estão a bradar? Nem gosto de pensar. Tamanha insensibilidade seria um pecado imperdoável. E quem recupera a vida humana?
E quando o fogo é de bombas, de armas letais, pela maldade das pessoas, como ocorreu no Sri Lanka? Morreu tanta gente…
Enfim, a fumaça que nos sufoca é a mesma fumaça que anuncia a desgraça e previne destroços. O fogo que dá vida e aquece, é o mesmo fogo que destrói vidas, cidades e florestas.
Deveríamos ficar atentos, mas humanos, demasiado humanos, todos somos, como diria Padre Fábio de Melo.
Maria Francisca – maio de 2019

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 1 de maio de 2019 

Esses dias, assistia à palestra “Educação e Empreendedorismo Social, no Teatro da UFES, e a palestrante falou de uma pergunta de um aluno: Professora, você não trabalha? Só dá aula? Ela, então, lembrou-se do significado da palavra “trabalho”, e, partir daí, prefere dizer que é só professora.Fiquei pensando nisso, mas discordando dela.
Realmente, o trabalho foi concebido, no início, como um castigo, uma dor. Vemos, no Gênesis, que, quando Deus expulsou Adão e Eva do Paraíso, disse: “[…]maldita a terra por tua causa. Tirarás dela, com trabalhos penosos, o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos e tu comerás a erva da terra. Comerás o pão com o suor do teu rosto (3, 17-19)”.
Em verdade, conforme os linguistas, a palavra trabalho tem a mesma raiz da palavra latina poena; veio no sentido de tortura, ou tripaliare, torturar com tripalium, máquina de três pontas.
E assim foi durante anos e anos. Trabalho era coisa de escravos e servos, os quais pagavam seu sustento “com o suor de seus rostos”. Trabalhavam em troca de comida que era ruim e pouca.
O tempo foi passando e o sistema foi mudando, até chegarmos ao contrato de trabalho, mas, ainda assim, penoso, sofrido, explorado. Longas horas por dia, para ao fim do mês, o trabalhador receber um salário que mal dava para alimentar-se.
Com a encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, em 1891, é que a Igreja revisitou a frase famosa “comerás o pão com o suor do teu rosto”. O Papa alertou que ‘É vergonhoso e desumano tratar os homens como mero instrumento de lucro e disse mais: Ao Estado cabe velar para que, nas relações de trabalho, não sejam lesados nem o corpo nem a alma do trabalhador, pessoa humana”. Como revela João Paulo II, a Igreja está convencida de que o trabalho constitui uma dimensão fundamental do homem sobre a terra, porque o homem, como imagem de Deus, recebeu o mandato de seu criador para dominar a terra.
É interessante como o texto da Rerum Novarum é atual. Fala sobre a proteção do trabalho dos operários, das mulheres e das crianças, das horas de trabalho, do descanso, dos trabalhos penosos, dos salários. Esses, segundo a encíclica, devem ser suficientes à manutenção do trabalhador e de sua família. Parece até que estamos lendo uma lei, em face da modernidade de tais exortações.
A conclusão é que o trabalho é a afirmação do homem como criatura. Qualquer trabalho que se realize, em dependência ou autonomia, coloca o homem como parceiro na obra da criação. Ele domina o mundo e o transforma com seu trabalho. Então, não existe trabalho que não tenha dignidade.
Entretanto, vemos, hoje, trabalhadores mutilados, doentes, porque os homens utilizam os homens como mero instrumento de lucro, ao contrário da pregação da Rerum Novarum. Aí o trabalho se torna um castigo e não um caminho para a libertação.
Muito se tem falado sobre a crise do trabalho, da sociedade salarial, do enxugamento das empresas, dos serviços públicos, do desemprego. Enfim, vemos, cada vez mais, a precarização das relações de trabalho. O trabalho informal adquire ares de modernidade. Sinônimo, por décadas, de subemprego, desemprego disfarçado e subdesenvolvimento do terceiro mundo, a informalidade deixou de ser exclusividade dos pobres, atingindo, cada vez mais, categorias médias de trabalhadores qualificados que passam a “prestadores de serviços”, consultores, assessores, terceirizados em geral e uma infinidade de variações. Essa terceirização, que cresceu como erva daninha, é uma realidade sem retorno. É a velha subcontratação com roupagem nova. E a terceirização alastrou-se, inclusive para a atividade-fim das empresas, com aval de nossas mais altas autoridades.
Então, estamos vendo o fim dos direitos? Parece que sim.
A última reforma na legislação trabalhista, realizada com a promessa de mais empregos, está se mostrando um desastre. A culpa seria da lei social, da Justiça do Trabalho, segundo constou da propaganda para que o trabalhador aceitasse a mudança. Criou-se uma farsa. Se você tiver menos direitos, você terá emprego. E todos começaram a pensar favoravelmente à reforma. Cadê os empregos? Sumiram.
Esses dias, vi um anúncio de contratação de professor. Não sei se verdade ou mentira, porque as redes sociais têm de tudo. O professor teria que registrar uma MEI para poder ser contratado. Não teria, pois, direito a férias, repouso semanal remunerado etc.

Como disse Marcelo D’Ambroso, o trabalho não é mercadoria, é um direito humano. Com efeito, o artigo 23 da Declaração Universal de Direitos humanos, que este ano faz 70 anos, deixou patente:
“Todo homem tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego (…) todo homem que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social (…)”.
Agora, vivemos a era dos infoproletários. Antes, os acidentes do trabalho mutilavam o corpo e tirava muita gente do emprego. Hoje, trabalhador não pode se desligar do trabalho. Com celular, computador, o trabalhador deve estar sempre a postos. A tecnologia mutila a mente e tira do emprego, da mesma forma. Isso afeta tanto trabalhos simples, como de diretores, gerentes etc.
Vi, no Fantástico de 28/04, o depoimento de um motorista de aplicativo. Ele contou: estava tão cansado, que teve um passageiro imaginário. Assim, temos depressão, suicídios, tentativa de suicídio, síndrome do pânico e por aí vai.
É preciso que a sociedade acorde.
Na era tecnológica, ainda temos trabalho escravo, trabalho infantil, crianças fora da escola, pais e mães de família sem trabalho, fraudes e tudo o mais que afronta a dignidade do ser humano.
Penso que, no dia em todos se conscientizarem de que sem trabalho digno não há cidadania, poderemos dizer, como Thiago de Mello:
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Maria Francisca – 1° de maio de 2019.

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 14 de abril de 2019 

Quando comecei a trabalhar no antigo INPS (hoje INSS), final dos anos 60, era responsável pelo cumprimento do orçamento, emissão de ordem de pagamento, pedidos de material, escala de férias do pessoal, correio etc. Era, como se diz, uma faz tudo.

A Agência era um caos. Nem faxineira havia. Eu limpava até o sanitário dos homens, pra não ficar sentindo aquele cheiro característico. Poucos servidores, muito trabalho, eu não sabia trabalhar direito, não havia quem me ensinasse, saía muita coisa errada, eu vivia sempre aflita naquela situação.

Se adoecesse um servidor, quem lá estivesse, sabendo o serviço, ou não, tinha o dever de cuidar daquele trabalho. Quando faltava o servidor que atendia o público, era um problema sério.

E acontecia muitas vezes. Eu, mais realista que o rei, apesar de não entender nada de benefício, não podia ver aquele povo ali sem atendimento, já que muitos vinham de longe e chegavam de madrugada para entrar na fila. Então, para não deixar aquela fila enorme esperando não sei até quando, avisava ao pessoal que eu sabia pouco do atendimento, mas ia tentar até que chegasse alguém. Os segurados, coitados, sem alternativa, aceitavam, esperavam, esperavam, na maior paciência (e ainda me agradeciam). E eu ia fazendo o que podia. E, naquele tempo, era tudo anotado em ficha. Computador? Só em Belo Horizonte, na Central. As fichas sumiam e eu procurava, procurava…

Um dia, repetida a ocorrência, eu sozinha naquela Agência, fui atendendo aquelas pessoas, até que chegou alguém para me substituir. Eu já estava num estado de nervo que não aguentava. Para me acalmar, peguei um “bolo” de barbante, todo emaranhado e comecei a desembaraçar devagar, como exercício.

Nisso, entrou um senhor para falar comigo. Eu pedi que ele se sentasse e esperasse um pouco. Ele sentou-se. Depois de um tempinho, parei, olhei pra ele e notei que havia desembaraçado um “bolo” de barbante. Já calma, deixei o exercício e disse: Pois não, senhor.

Ele notou minha surpresa e falou-me: “Cheguei aqui muito nervoso. Já tinha visto a senhora lá fora atendendo aquele povo. Esperei bastante. Entrei e vi que desembaraçava barbante. Como me pediu para esperar um pouco, deduzi que queria acalmar-se antes de me atender. Eu costumo fazer isso também. Por isso, resolvi segui-la na atividade. Sei que é um ótimo exercício”.

Ambos sorrimos, conversamos, resolvi o que ele precisava resolver e ele se foi agradecido. Passei o resto do dia em paz e creio que ele também.

Maria Francisca – Tarde de domingo de janeiro de 2019

 

 

 5 de março de 2019 

Numa dessas pisadas em falso em passeio irregular, consegui uma dor no quadril que está se arrastando. Fazendo um parêntese, passei a dizer que tenho dor nos quartos, porque uma piada que me fez rir muito foi sobre os médicos cubanos. Conta-se que, em Minas Gerais, não conseguiam receitar porque não conheciam os nomes de enfermidades ouvidas nos consultórios. Entre eles, espinhela caída e a famosa dor “nos quarto” …. Pois é, por conta dessa dor desconhecida dos cubanos, tive que fazer fisioterapia, peregrinando diariamente, por vinte dias, a uma clínica.

Aí, deitada numa maca, recebendo os cuidados, ouvidos apurados para escutar as conversas na sala ao lado. Hoje, um imenso debate se fazia. O assunto do momento é a barragem de rejeitos de Brumadinho que ceifou a vida de muitos e nem se sabe, ainda, quantos, trazendo sofrimento e dor.
Pois bem. Cada uma das vozes que eu ouvia, todas de mulheres, se manifestava de uma forma tão contundente, que dava a impressão de ser, cada uma, especialista no assunto de barragens, empresas mineradoras, siderúrgicas etc.

No calçadão, ouço as coisas mais absurdas sobre Direito, Processo, segurança jurídica. Aliás, essa expressão caiu no gosto popular. Tudo agora é segurança jurídica. Outro dia, um senhor falava sobre a lei processual e disse que as provas são difíceis, por isso, os réus não cumprem pena alguma. Depois, soltou outra pérola: Na Justiça do Trabalho é pior. Lá, pede-se o que se quer e nem é preciso provar nada. Se perder, tudo bem. Não precisa pagar nada… A lei deveria mudar, dizia um. Não, dizia o outro. A lei tem é que acabar. Não é preciso tanta lei.

O detalhe é que todos sabem tudo. E dão palpites e mais palpites sobre o que deve ser feito. O que é preciso para o Brasil melhorar, a saúde, a educação etc

Esse “debate” que ouvi, hoje, por exemplo, era assim: A Vale deveria fazer isso. O outro retrucava: Não. A Vale deveria fazer aquilo. Outro, ainda: deveria fechar todas as fábricas, não é isso que querem com tantas críticas? Aí, vão ficar reclamando, como aconteceu com a Samarco.É o radicalismo do momento. O diálogo não existe, porque cada um acha que tem razão… Nas redes sociais, então, parece uma disputa, um duelo de verdades, para ver quem sabe mais. Aí, a ideia que se tem é que nenhum dos duelistas sabe alguma coisa do assunto.

Se você fala algo de política, então…

Aí, lembrei-me de um serviço de alto-falantes da cidade de minha infância. Como lá não tinha serviço de rádio, “inventaram” uma transmissão de longa distância, com alto-falantes nos postes e transmitiam músicas, avisos, replicavam repórteres etc. Tinha humor também. E um que se repetia como uma série, uma voz de homem bradava: SE EU FOSSE O PRESIDENTE, EU FAZIA…

E uma das coisas de que nunca esqueci: SE EU FOSSE O PRESIDENTE, EU MANDAVA A MUIÉ PRA ROÇA TRABAIÁ E MANDAVA OS HOME DAR OS PEITO PROS MENINO.

Ai, quando eu vejo quem não sabe nada de determinado assunto dar palpite, eu me lembro dessa história e costumo repetir em silêncio: Se eu fosse o presidente…

Maria Francisca – Fevereiro de 2019.

 1 de fevereiro de 2019 

Vela Encantada
Quando o tempo está chuvoso, como hoje, céu fechado, ruas alagadas, pobres perdendo suas casas, o coração apertado, a alma passeia devagar pelos cantos da vida, levantando os fiapos dos acontecimentos, ora bons, ora ruins. Mas como sou um tipo Poliana, alimento só os bons.
Conto um deles.
Eu era professora. Já contei as agruras por que passei, com salário atrasado (era ditadura, nem reclamar podia). Então, já que dava aulas à noite, para conseguir sobreviver, trabalhava num escritório de contabilidade durante o dia.
Então, fiquei sabendo do concurso do antigo INPS, hoje INSS. Resolvi estudar. Mas sem livro? Dinheiro pra apostila, cadê? Cursinho, nem pensar. Em Português e Matemática, eu me garantia, claro. Sempre fui estudiosa e era professora… Por uns dias, uma moça que tinha a apostila foi estudar comigo. Depois, desistiu. Como eu iria estudar a legislação previdenciária, aquele novelo que eu nem sequer ouvira falar até começar a trabalhar como escriturária?
Então, caiu do céu um livro de uma senhora que trabalhava no INSS e era amiga do meu irmão. Ela soube que eu ia fazer o concurso e me deu o livro. Tenho esse tesouro guardado com o maior carinho: “Legislação de Previdência Social, de Adriano Campanhole. E traz, na primeira página, o nome da antiga dona: Maria José de Paula (Uma estrela no céu).
Estudei, estudei. No dia das provas, nervosa a mais não poder, minha irmã disse: Antes de ir, acenda uma vela e faça uma oração. Você está muito nervosa e isso pode atrapalhar você. Fiz isso e fui para a prova.
Lá, cada um contava de um curso que fizera, de livros que lera e eu ali encolhida, morrendo de medo. Tocou o sinal, fui para a sala, fiz a prova e fui embora depressa, já visando à derrota, porque tudo estava muito difícil.
Encontrei a família em polvorosa. Você quase pôs fogo na casa toda! Que irresponsabilidade! Se não fosse eu, suas roupas seriam cinza, agora. Bradou minha cunhada, mal entrei. Corri ao meu quarto e chorei. A burrice foi tanta que coloquei a vela acesa sobre um pires de plástico. A vela acabou, o fogo pegou no pires, depois na cômoda, e, efetivamente, se não tivesse ninguém em casa, nem roupa eu teria depois, porque ali estavam todos os meus pertences, nas gavetas. Um enorme buraco preto “enfeitava” a cômoda.
Depois do choro, a raiva de mim mesma. Fiz aquela prova horrível, deixei essa porcaria de vela aí, perdi a cômoda e ainda ganhei reprimenda (e, pior, reprimenda merecida). Quanto mais brigava, mais a raiva aumentava. Claro, em silêncio, no quarto.
O tempo passou, esqueci aquele incidente e segui a vida.
Uns meses depois, um telefonema maravilhoso: aprovada em primeiro lugar. Foi uma alegria tão grande que, na mesma hora, a vela brotou na minha lembrança.
A partir daí, quando a vida endurece e o coração aperta, a oração, à luz da vela encantada, clareia meus caminhos, o coração abranda e ando sem tropeços.
Maria Francisca – novembro de 2018.




Maria Francisca Lacerda
Poeta e escritora.
Espírito Santo - Brasil.


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