Em visita a amigas de Infância, em cidade mineira, passeei, conheci familiares, netos, tomei milkshake, almocei, jantei, comi pizza e tudo o mais que bons anfitriões oferecem aos visitantes. Muito agradável estar entre amigos. Carinho e aconchego são atos que aquecem o coração.
Na véspera do retorno pra casa, fomos à missa dominical.
Na porta da igreja, passou por nós um senhor, falando coisas desconexas, contando umas histórias esquisitas, como se falasse com alguém ao telefone.
Como meus amigos seguiram, também segui. Passamos por ele, entramos na igreja, e tomamos nossos lugares.
O coral cantava lindamente: “Chama Viva da minha esperança”, hino do Jubileu, e eu fiquei ali concentrada na oração.
Daí a pouco, gritos, aflições, sai daqui , sai da frente etc. Todos olhando, ansiosos.
Estávamos bem no fundo do templo e não dava pra ver nada direito.
Pela voz de um dos gritos, notei que era o mesmo homem que encontramos na entrada. Infelizmente, parece que a solidariedade perdeu muitas de suas antigas virtudes, pois a preocupação que tiveram foi aumentar o som do coral para abafar o barulho. Percebi num gesto de uma moça para o coral.
Pois bem. O coral aumentou o som, cantou, cantou e a calma do templo pareceu preservada.
Daí a pouco, sai da igreja o homem, descalço, batendo os pés no chão, num gesto de desaforo, e carregando o tênis.
Ao chegar à saída, virou para o altar, levantou os braços, e bateu com as solas do tênis, com força.
Um símbolo forte… Foi rejeitado numa igreja, lugar de acolhimento. Seria isso?
E se fosse ele, o rejeitado, a “Chama Viva” que cantavam?
Está em Lucas, 10-11: “Mas quando vocês entrarem numa cidade e não forem bem recebidos, saiam pelas ruas e digam: Até a poeira dessa cidade, que se grudou em nossos pés, nós sacudimos contra vocês”.
Eu não conseguia desviar meu pensamento do dito de Jesus, naquele momento estressante. Não posso julgar o ato das pessoas que conversaram com o homem, pois não sei o que ele fazia, quando ouvi os gritos de alguns que estavam mais à frente, na igreja. Apenas registro o fato, conforme meus sentidos captaram.
À noite, só pensava naquele personagem, e no que poderia ter acontecido. Como diz Saramago (O Homem Duplicado): “Não faltam motivos para pensar que quanto mais intentemos repelir as nossas imaginações, mais elas se divertirão a procurar e atacar os pontos da armadura que consciente ou inconscientemente tínhamos deixado desguarnecidos”.
Mas no dia seguinte, sol claro, calor intenso, carinho dos amigos, tudo passou e o fato caiu no esquecimento.
Por isso, espero que, ao fim, o homem, certamente cansado…E as palavras que proferia, cansadas como ele, silenciaram; as que ouvira tornaram-se neutras, sem sentido, o mesmo ocorrendo com o acontecimento na igreja, já caindo no limbo do esquecimento.
Já que era assíduo lá, como disse minha amiga, voltaria ao templo, todos os domingos, sem se lembrar, tampouco, dos sapatos com a poeira. Tudo ficara para trás.
Tomara!
Maria Francisca – início de março de 2025.
Edson lopes
3 de março de 2025 às 11:55
Viu como você conta um acontecimento com maestria? Então, pode sim dar aula. Orientar outras pessoas como transformar acontecimentos em histórias e causas. Parabéns.
mariafrancisca
4 de março de 2025 às 08:15
Obrigada, caro amigo, mas eu fico do lado de cá. Meu dom para dar aula, se existiu, passou. Agora, só escrevo lorotas…Rs.
Grande abraço.
Briene Dias
15 de março de 2025 às 14:53
Francisca, você consegue nos colocar dentro do cenário quando descreve o fato. Muito interessante! Isso é dom. Adoro ler suas crônicas, poesias…tudo o que escreve. Forte abraço, prima.
mariafrancisca
15 de março de 2025 às 21:17
Briene, querida prima, obrigada pela leitura e pelo carinho. Fico feliz de você gostar do que escrevo. Grande abraço.