Há algum tempo, num evento de juízes aposentados, um palestrante, também juiz, explicava a tramitação de uma Proposta de Emenda Constitucional. Quando ele começou a falar, pensei: Será que ele pensa que nós, por sermos aposentamos, ficamos imbecis? Quem não conhece a tramitação da chamada PEC?
Na hora do debate, uma colega soltou o verbo. Por que as pessoas gostam de infantilizar o idoso? Se vamos fazer um exame de sangue, a técnica diz: Cadê o bracinho? Se vou comprar sapato, levante o pezinho…Agora, esse colega a ensinar-nos coisas que aprendemos antes do nascimento dele. Será que não estamos apenas velhos? Não lemos nada? Estamos todos bobos e infantis?
Gerou um clima constrangedor. Uns riam diante do estresse, outros concordavam com ela… Outros achavam que ela fora mal-educada.
Talvez o jeito de dizer não tenha sido o mais adequado, mas ela estava coberta de razão, eu disse na época.
Quando encontramos uma criança, normalmente, dizemos: Que gracinha! Com os velhos, a mesma coisa! Ninguém fala com uma jovem senhora dessa forma. No máximo: Você está muito bonita! Por quê? O velho é infantilizado, sim. Eu disse isso para uma médica, quando ela me pegou a mão, dizendo: Dê-me a mãozinha. A resposta: Você tem razão. Vou pensar sobre isso. Acostumamo-nos tanto a falar assim que nem percebemos.
Muitos dizem que é uma forma de carinho. Ser carinhoso com o idoso é respeitá-lo, falar uma linguagem adulta, de forma que ele entenda. Atentando para a idade, meio social, saúde etc.
É muito comum, também, perguntar a idade do idoso. Após a resposta, diz-se: Que gracinha! Ou, você está ótima, corpo de menina! Que gracinha o quê? Que corpo de menina, o quê? No máximo, bem arrumada e magra! Outro dia, na Farmácia (outra coisa: estão sempre oferecendo ao idoso: ômega 3, cálcio…), após a moça me oferecer um monte de coisas e eu recusar, ela perguntou: Quantos anos você tem? Eu disse: Não vou falar, porque já sei que vai dizer: Nossa! Está ótima, ou que gracinha... Ela riu muito…
Em recente artigo (https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao), Rodrigo Moraes faz o seguinte comentário: “Imagine-se em um encontro com o maestro João Carlos Martins e perguntando se ele vai tocar seu “pianinho” esta noite. Faz sentido? Que tal sugerir ao ex-atleta Edson Arantes do Nascimento, sim, ele mesmo, o Pelé, a brincar de “bolinha” com ele. Parece normal?”
Outras atitudes que demonstram falta de respeito ao idoso, citadas no mesmo artigo, podemos ver sempre. Por exemplo, se o idoso está acompanhado, seja na rua, em lojas, ou hospitais, pessoas dirigem-se ao acompanhante, como se o idoso não estivesse presente, ou seja, ignora-se o idoso; desconsiderar os seus conhecimentos, como ocorreu no Evento mencionado no início; fazer um convite à família e excluir o idoso.
A psicanalista Eloah Mestieri, citada no artigo acima, disse o seguinte: “A infantilização do idoso é um mal que pode fazer com que os idosos se sintam diminuídos e tenham sua autoestima severamente afetada. Na medida em que minimizamos sua autoconfiança e sua autoestima, o idoso é levado a ter um olhar sobre si mesmo como alguém frágil e incapaz”.
E isso, com certeza, pode levar ao adoecimento ou agravamento de alguma doença.
Então, minha gente. Eu tenho pé e não pezinho, tenho mão e não mãozinha, tenho braço e não bracinho e, graças a Deus, ainda penso, leio e escrevo. E não vou mais dizer a minha idade, pode crer.
Quando eu não puder, não puder, mesmo, fazer nada disso, podem me infantilizar à vontade.
Por ora, não, por favor.
Maria Francisca – fevereiro de 2020.
Rita de Cássia Azevedo Moraed
22 de abril de 2020 às 21:11
Prezada Francisca;
Leal detestava quando faziam isto com ele.
Se eu dizia: falei com o guardinha do fórum ele levava meia hora no mínimo me chamando a atenção!!
Sempre falei de forma carinhosa mas vejo que não procede.
Vou mudar, se der tempo, o meu modo de falar!!!
Bjs
Rita de Cássia Azevedo Moraes
Rita de Cássia Azevedo Moraed
22 de abril de 2020 às 21:12
Prezada Francisca;
Leal detestava quando faziam isto com ele.
Sempre falei de forma carinhosa mas vejo que não procede.
Vou mudar, se der tempo, o meu modo de falar!!!
Bjs
Rita de Cássia Azevedo Moraes
mariafrancisca
23 de abril de 2020 às 14:52
Dr. Leal tinha razão, não tinha?
Obrigada pelo carinho.
Grande abraço, Rita.
Saulo Cabral de Lacerda
22 de abril de 2020 às 22:10
Adorei!
mariafrancisca
23 de abril de 2020 às 14:50
Grata, Saulo.
Grande abraço.
Arildo
22 de abril de 2020 às 23:19
É isso aí, Francisca !
Quando me perguntam a minha idade e eu digo 78, costumam expressar “nem parece”. Aí eu pergunto – parece pra mais ou menos ?
mariafrancisca
23 de abril de 2020 às 14:50
Rsrsrs. É isso, aí, Arildo. Vamos reagir, até que deixem de nos tratar assim.
Obrigada pelo carinho de sempre.
Abraços.
Cleusa L.Madureira Vidal
22 de abril de 2020 às 23:53
Parabéns com Louvor Ilustre Confreira, pois concluio dizendo tudo o que gostaríamos de dizer em várias vezes que passamos por situações semelhantes,mas sempre falo algo,jamais deixo passar pois essas palavrinhas nos fazem muito mal.
mariafrancisca
23 de abril de 2020 às 14:49
Fale, mesmo, Cleusa.
O idoso merece respeito e carinho, não essas bobagens.
Bjs, querida.
Seu "VELHINHO", ele mesmo, Valteir
23 de abril de 2020 às 08:27
Gostei, mas só reclamo porque hoje ao invés de perguntar para os avós, os idosos, os velhinhos, somente perguntam pro Google. Penso que estou ficando com a validade vencida.
mariafrancisca
23 de abril de 2020 às 14:48
Tá com validade vencida, nada. É só dando pitaco em tudo… Rsrs.
Beijos, “velhinho”.
Geraldo de Castro Pereira
23 de abril de 2020 às 09:14
Gostei da sua crônica, Francisca! É exatamente isto que acontece com os idosos! Temos que reagir mesmo!Abços!
mariafrancisca
23 de abril de 2020 às 14:48
Pois é, Geraldo. Hoje, fazendo exercício acompanhando um vídeo, o Professor disse: A perninha assim, o bracinho assim…Rs. Vamos ter que fazer uma campanha…rsrs.
Obrigada,
Abraços.
Karlesso
23 de abril de 2020 às 10:22
Excelente textinho… digno das maiores verdades. O mesmo ocorre nas redes sociais com milhões de anúncios de advogados que parecem ter patenteado a roda. Tia Chica, Alessa também fica brava. Quando pedem a mãozinha ela diz: não sou bebê! Respeito sempre! Ótima reflexão!
mariafrancisca
23 de abril de 2020 às 14:46
Alessa é ótima, Karlesso. Responde na ponta da língua…Rs
Obrigada,
Bjs.
Edson Lopes
23 de abril de 2020 às 15:35
Como diz o ditado:”Vou chover no molhado “. Excelente texto é contexto,gosto muito desse tipo de leitura. Aconteceu comigo no Hospital,quando fiz a cirurgia de coração. A enfermeira falou que eu era muito novo pra ter problemas cardíacos. Aí eu falei: Novo? Já estou com 59 quase 60.Ela falou: O quê? Você toma banho de formol. Kkkkkkkk
É desse jeito que nós somos tratados. Parabéns Francisca, sou seu fã incondicional.
mariafrancisca
24 de abril de 2020 às 18:59
Edson, acho que todos nós já ouvimos algo assim alguma vez, não é?
Obrigada, você sempre gentil.
Grande abraço.
Ricardo Gueiros
26 de abril de 2020 às 20:31
Pra variar, excelente texto. Meu querido pai também falava isso.
Saudades dessa querida escritora!
mariafrancisca
27 de abril de 2020 às 08:05
Saudades de você, também, querido. E saudades do Sr. Cardoso…Que pessoa linda!
Grata pelo carinho.
Abraços.
Fernando
27 de abril de 2020 às 20:12
Sempre bom de ler!!!
mariafrancisca
27 de abril de 2020 às 22:37
Grata, Fernando. Um abraço.
Rosaly Stange
30 de abril de 2020 às 23:38
Muito obrigada pela franqueza, Fran, por falar de seus sentimentos. Precisamos falar desses comportamentos desagradáveis que temos e sequer percebemos 😊
Rosaly Stange
30 de abril de 2020 às 23:38
Muito obrigada pela franqueza, Fran, por falar de seus sentimentos. Precisamos falar desses comportamentos desagradáveis que temos e sequer percebemos 😊
mariafrancisca
1 de maio de 2020 às 08:44
Grata pela leitura e comentário, Rosaly. Precisamos, sim, combater esses comportamentos que afetam os idosos.
Grande abraço.
Martha Severo
7 de maio de 2020 às 11:43
Dra. Francisca,
A senhora, muitas vezes, é porta-voz de tantos de nós!. Parabéns!
mariafrancisca
7 de maio de 2020 às 12:33
Martha, que bom que minhas reflexões servem para outras pessoas. Hoje, mesmo, fazendo exercício em casa, por vídeo, o orientador dizia, perninha, bracinho, e todas as vezes que ele falava, eu soltava uma imprecação…rsrs.
Grata pela gentileza da leitura e pelo comentário.
Grand abraço.
João Tadeu
1 de maio de 2020 às 21:58
Se morasse no RJ estaria eliminado quase que sem opção.
prioridade até os 60
Maior que 60 se tiver vaga com chance de viver.
Ou seu seja condenado à morte.
mariafrancisca
2 de maio de 2020 às 08:51
Todos nós, né, Tadeu? Aqui, também, se começarem a escolher quem pode ir para o UTI.
Grande abraço.
Maria Aparecida
2 de maio de 2020 às 01:06
Que texto! Amei! Maravilhoso! Um verdadeiro desabafo! Lendo-o pude ver você falando tudo isso em alta voz! Te admiro amiga querida, para mim você é uma inspiração, uma pessoa forte, extremamente inteligente e com um coração nobre.
mariafrancisca
2 de maio de 2020 às 08:53
Grata, Cida. Você é muito gentil. Sua mãe falaria dessa forma, não? Fiquei a imaginar aqui.
Grande abraço.
martha gonzalez
3 de maio de 2020 às 10:51
Excelente, dra Francisca!
Que texto bom e que reflexão das grandes!
Besos
mariafrancisca
3 de maio de 2020 às 12:35
Grata, Martha.
Daqui a alguns anos, estarão falando assim com você. Não deixe! Rsrs.
Bjs.