Olá, amiga! Conte algo bom! (Pergunta de um amigo ao encontrar-me no calçadão da praia).
Sempre observo tudo ao redor.
Dias atrás, o chão estava coberto de florezinhas amarelas. Grandes ipês floridos já começavam a perder algumas flores. Estava tão lindo aquele tapete amarelo, que me sentei num banquinho à beira do lago, num lindo condomínio em São Paulo, e fiquei longo tempo a admirar a natureza em volta.
Pessoas passavam, olhos fixos nos seus celulares, com um lindo cachorrinho ao lado e nem olhavam as flores. Se olhavam, não viam, dada a distração que demonstravam. Perdiam aquela beleza.
Sentada, pensei sobre a beleza da natureza e nossa busca por ela relembrando leituras recentes.
O primeiro foi a citação de Frei Betto, no livro “Fome de pão e Beleza”: “Mas não é só de pão que temos fome, como diz o poeta cubano Roberto Retamar, a fome de pão é saciável, é fruto da justiça; voraz e insaciável é a fome de beleza – essa compulsiva atração que sentimos pela transcendência”.
Mesmo essa fome sendo insaciável, muitas vezes fechamos nossos olhos ou nossa mente e nada vemos.
Como esse meu amigo que estava sentado à beira-mar e me fez a pergunta citada no início do texto. A minha resposta foi: Olhe esse sol, esse mar, as ondas indo e vindo, que maravilha! Ele concordou, mas emendou: E essa linda árvore de Natal. Não percebeu que eu falava de natureza, não de algo feito pela mão dos homens.
O conto “De repente abriu-se a janela” do livro “O rosto sem face”, do meu amigo, escritor e juiz-poeta Fernando Armando Ribeiro, fala de um fotógrafo que, malgrado todo esforço, gasto com curso, material, estudos, não conseguia encontrar o foco certo para suas fotos.
Um dia, estendido numa grama, perto de um canteiro de gérberas, quem sabe debaixo de um ipê, e com o chão coberto de florezinhas amarelas, tentava tirar uma foto para o filho. Por mais que o fotógrafo buscava, não conseguia a imagem que o menino desejava. Até que a criança disse: Pai, você não notou que essas plantinhas têm uma janelinha igual à dos meus dentes? O pai abriu o olhar, viu a janelinha da flor, e conseguiu tirar uma bela foto; a que o filho desejava.
A cada dia, observo a falta do olhar das pessoas que passam por mim na rua, na calçada, nos espaços públicos em geral. Hoje eu estava sentada na entrada da academia de ginástica e pessoas passavam e nem me viam.
Não sou só eu a observar esse olhar parvo. Aqui no Espírito Santo, em novembro deste ano, numa intervenção artística, Rodrigo Stingnel começou a espalhar 200 camaleões pela cidade de Vitória. Podem ser levadas por quem as encontrar.
Disse: “Os camaleões são, além de um teste, uma intervenção urbana que vou colocando pela cidade e fazendo com que as pessoas olhem para lugares que geralmente não olhamos no dia a dia”.
Mas, para ver, é preciso abrir a janela!
Maria Francisca – janeiro de 2026.
Tariane
21 de janeiro de 2026 às 12:54
Sempre nos presenteando com as suas reflexões. Continuo por aqui te acompanhando de perto! Saudade, tia.
mariafrancisca
13 de fevereiro de 2026 às 18:07
Oi, querida! Que bom que lê meus escritos. Fico feliz. Obrigada. Beijos. Saudades também.
Edson Lopes
22 de janeiro de 2026 às 05:28
Mais um texto lindo. Como você é observadora! Eu tenho a mania de ler tudo na rua. De placas a Outdores, mas você vê coisas que muitos nao veem. E o melhor disso, ainda consegue colocar no papel para aqueles que não observam, pelo menos leem. Parabéns mais uma vez. Sou seu admirador incondicional.
mariafrancisca
13 de fevereiro de 2026 às 18:06
Obrigado, caro amigo. Já disseram que cronista é como beija-flor. Pula para lá e para cá e observa tudo…Rs.
Grande abraço.