NOSSO OLHAR - Maria Francisca

 16 de janeiro de 2026 

 

Olá, amiga! Conte algo bom! (Pergunta de um amigo ao encontrar-me no calçadão da praia).

Sempre observo tudo ao redor.

Dias atrás, o chão estava coberto de florezinhas amarelas. Grandes ipês floridos já começavam a perder algumas flores.  Estava tão lindo aquele tapete amarelo, que me sentei num banquinho à beira do lago, num lindo condomínio em São Paulo, e fiquei longo tempo a admirar a natureza em volta.

Pessoas passavam, olhos fixos nos seus celulares, com um lindo cachorrinho ao lado e nem olhavam as flores.  Se olhavam, não viam, dada a distração que demonstravam. Perdiam aquela beleza.

Sentada, pensei sobre a beleza da natureza e nossa busca por ela relembrando leituras recentes.

O primeiro foi a citação de Frei Betto, no livro “Fome de pão e Beleza”: “Mas não é só de pão que temos fome, como diz o poeta cubano Roberto Retamar, a fome de pão é saciável, é fruto da justiça; voraz e insaciável é a fome de beleza – essa compulsiva atração que sentimos pela transcendência”.

Mesmo essa fome sendo insaciável, muitas vezes fechamos nossos olhos ou nossa mente e nada vemos.

Como esse meu amigo que estava sentado à beira-mar e me fez a pergunta citada no início do texto. A minha resposta foi:  Olhe esse sol, esse mar, as ondas indo e vindo, que maravilha! Ele concordou, mas emendou: E essa linda árvore de Natal. Não percebeu que eu falava de natureza, não de algo feito pela mão dos homens.

O conto “De repente abriu-se a janela” do livro “O rosto sem face”, do meu amigo, escritor e juiz-poeta Fernando Armando Ribeiro, fala de um fotógrafo que, malgrado todo esforço, gasto com curso, material, estudos, não conseguia encontrar o foco certo para suas fotos.

Um dia, estendido numa grama, perto de um canteiro de gérberas, quem sabe debaixo de um ipê, e com o chão coberto de florezinhas amarelas, tentava tirar uma foto para o filho. Por mais que o fotógrafo buscava, não conseguia a imagem que o menino desejava.  Até que a criança disse: Pai, você não notou que essas plantinhas têm uma janelinha igual à dos meus dentes? O pai abriu o olhar, viu a janelinha da flor, e conseguiu tirar uma bela foto; a que o filho desejava.

A cada dia, observo a falta do olhar das pessoas que passam por mim na rua, na calçada, nos espaços públicos em geral. Hoje eu estava sentada na entrada da academia de ginástica e pessoas passavam e nem me viam.

Não sou só eu a observar esse olhar parvo. Aqui no Espírito Santo, em novembro deste ano, numa intervenção artística, Rodrigo Stingnel começou a espalhar 200 camaleões pela cidade de Vitória. Podem ser levadas por quem as encontrar.

Disse: “Os camaleões são, além de um teste, uma intervenção urbana que vou colocando pela cidade e fazendo com que as pessoas olhem para lugares que geralmente não olhamos no dia a dia”.

Mas, para ver, é preciso abrir a janela!

 

Maria Francisca – janeiro de 2026.

 

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4 comentários

  1. Sempre nos presenteando com as suas reflexões. Continuo por aqui te acompanhando de perto! Saudade, tia.

  2. Mais um texto lindo. Como você é observadora! Eu tenho a mania de ler tudo na rua. De placas a Outdores, mas você vê coisas que muitos nao veem. E o melhor disso, ainda consegue colocar no papel para aqueles que não observam, pelo menos leem. Parabéns mais uma vez. Sou seu admirador incondicional.

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Maria Francisca Lacerda
Poeta e escritora.
Espírito Santo - Brasil.


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